Louise Michel, uma feminista libertária, em seu tempo: breves registros

Segue a nos surpreender o alcance do exercício da memória histórica dos oprimidos impacta nos sua capacidade de reanimar as esperanças de todos os grupos oprimidos explorados marginalizados, indistintos lugares e tempos desta feita, trazemos à cena a figura de Louise Michel, uma participante da Comuna de Paris, hein cujos desdobramentos teve uma ampla participação nas linhas que seguem, buscamos situar inicialmente o cenário predominante deste grande acontecimento, em torno do qual gira a figura de Louise Michel em seguida, cuidamos de realçar, brevemente, vários aspectos de sua trajetória e do seu legado buscamos, ao final, sublinhar alguns pontos que nos interpelam, no atual contexto sócio-histórico a partir do legado da comuna e de Louise Michel

 Breves considerações acerca da Comuna de Paris

Da conturbada era napoleônica (Napoleão III), recheada de efervescentes crises e manifestações sociais, culminando com a eclosão da Comuna de Paris – (1871), também ecoam retumbantes vozes femininas, a exemplo da de Louise Michel, uma feminista libertária, sobre quem ousamos registrar estas breves linhas.

A era napoleônica transcorreu com imensas desigualdades sociais, de extrema penúria para as classes populares daquela época. Mais grave ainda, quando Napoleão III decide entrar em guerra com a Prússia (Alemanha), tendo ele levado a pior, trazendo desgraças ainda mais desoladoras para aquela população, especialmente para os segmentos populares. A fragorosa derrota da França para os exércitos da Prússia, trouxe trágicas consequências para a população francesa, especialmente no que diz respeito a extrema humilhação daquela gente, tendo que sofrer, além da cessão da alsácia e da lorena, invasão de seu território, também pesadas indenizações exigidas pelos vencedores. Antes e durante o início de 1870, multiplicam-se os incidentes provocados pelas manifestações das classes populares contra o governo de então (a frente Adolphe Thiers), o que culmina com a insurreição e a instalação  de um governo popular, em 26 de março 1871, estendendo-se por 72 dias.

Iniciada em meados do século 18 a Revolução Industrial, sobretudo em países como Inglaterra, França, Bélgica, mostrava seus efeitos contraditórios: ao lado de avanços tecnológicos e importantes conquistas e progresso, difundia, por outro lado, uma condição sub-humana para milhares de Operários e suas famílias. Em meados dos anos 1800, portanto mais de 100 anos depois, esta situação contraditória suscita muitas revoltas populares. Em 1870, havia um governo opressor, Napoleão terceiro, substituído por um governo provisório, de maioria monarquista, chefiada por Adolphe Thiers. Graças a fracassada empreitada de uma guerra contra a Prússia, os líderes governamentais protagonizam verdadeira devastação contra a França, por parte dos prussianos, vencedores daquela trágica guerra, com as humilhações de tropas inimigas a marcharem sobre a cidade, imporem pesadíssimas indenizações, às quais o moribundo governo se empenhava em responder, aumentando a opressão, a miséria, a penúria para o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras daquele país.

Pairava uma atmosfera profundamente vexaminosa e explosiva, de modo a levantar a população pobre contra aquela opressão entre enfrentamentos, conquistas e derrotas, por meio de protagonistas populares – advogados, artesãos, operários, intelectuais, artistas, professores, médicos, dezenas de mulheres, inclusive Louise Michel, entre outros – passaram a organizar os “debaixo”, no sentido de reagir contra a crescente pauperização, de modo que, em 18 de março de 1871, eclode o levante popular, sob o nome de Comuna de Paris, nome com que, durante a Revolução Francesa, ficou conhecida a cidade de Paris, a comuna. Por meio deste levante, criou-se um governo que substituia radicalmente os governantes monarco-burgueses.

Em um exercício retrospectivo de imaginação, por meio dos dados e documentos a que podemos ter acesso, também podemos apreciar os efeitos atrozes sofridos pela população francesa, em especial as camadas populares de Paris e seus arredores, tendo que amargar todo um conjunto de consequências perversas trazidas pela desventura da guerra contra a Prússia: perda territorial, a humilhação da invasão das forças prussianas em território francês, as pesadíssimas indenizações cobradas pelo vencedor, a imposição das principais consequências sobre as classes populares já economicamente exauridas… Com efeito, são múltiplas as consequências sobre as classes populares, bem como sobre estratos médios da população (artesãos, comerciantes, intelectuais artistas, operários. ) 

Não surpreende, por conseguinte, ter sido a comuna de Paris largamente caracterizada por protagonistas que também expressavam, em parte considerável, tais valores herdeiros da Revolução Francesa, interrompida por períodos imperiais, sob a figura de Napoleão. Protagonistas –  homens e mulheres – da Comuna de Paris que também se caracterizavam pelo empenho em fazer valer os interesses mais populares da Revolução Francesa, sobretudo fortemente enriquecidas pelo legado de Marx e seus seguidores. Isto explica, em grande medida, o ardor da luta por mudanças estruturais daquela sociedade. A isto se somou grandemente o sentimento de humilhação diante da acachapante derrota da guerra contra a Prússia. Estava, portanto, reacesa a centelha explosiva do movimento da Comuna de Paris. Em que pese a faceta de violência que marcou estas lutas, convém acentuar seu caráter libertário e humanista. Nesta linha, muito contribuiu aquele contexto protagonizado pelo movimento operário, na Europa ocidental, que tomou forte impulso com com os escritos marxianos e anarquistas, com a fundação da primeira Associação Internacional dos Trabalhadores mais conhecida como a Primeira Internacional, a partir de 1867, data aliás da primeira edição do Livro 1 de O Capital.

Em que pese a breve duração da Comuna de Paris, cumpre destacar os principais pontos de seu ideário, de seu programa governamental. Figuravam entre seus principais reclamos os seguintes pontos: 

  • Garantia do direito à moradia, por meio da suspensão de pagamento de aluguéis;
  • Ensino público gratuito e laico;
  • Obrigatória socialização das fábricas, geridas pelos operários, eleitos por seus respectivos comitês ou conselhos;
  • Expropriação dos templos, que deveriam servir aos encontros e reuniões dos trabalhadores e trabalhadoras, para debate e deliberação de assuntos do seu interesse;
  • Obrigatoriedade para os intelectuais, de combinarem trabalho intelectual e trabalho manual;
  • Deliberações, de caráter econômico, político e cultural, tomadas pela base, através dos diferentes comitês populares em atuação;
  • Participação das mulheres nas deliberações.
  •  Controle popular das ações governamentais, inclusive com o direito à revogação de dirigentes e coordenadores que não estivessem a cumprir satisfatoriamente suas funções;
  • Transporte público e gratuito;
  • Segurança exercida pelos comitês populares, espalhados pelos diferentes bairros da cidade;
  • Extinção dos aparelhos repressivos;
  • Garantia de autonomia e dos mesmos direitos da Comuna de Paris, extensiva a todas as comunas do país, em pé de igualdade.

Não é preciso lembrar que um programa tão avançado iria sofrer profunda retaliação da parte dos monarquistas e seus aliados europeus. E foi isto o que se deu. Agrupadas em Versalhes, as forças monarquistas cuidaram de recompor suas forças armadas e policiais, em um número correspondente ao dobro das forças da Comuna de Paris, e assim, trataram de cercar a cidade de Paris, vencendo a heróica resistência dos protagonistas da Comuna, a ponto de exigirem dos combatentes da Comuna a devolução dos armamentos ao Antigo Regime. Diante da negativa feita pelos combatentes da Comuna, trataram de executar milhares dos protagonistas da comuna, provocando uma chacina extraordinária, no lugar em que as forças populares se concentraram. 

 Traço da vida do trabalho e da militância de Louise Michel

Louise Michel nasceu em Vroncourt-la-Côte, em 1830, de uma rica família dona de um castelo, fruto de uma relação do filho do proprietário com a serva. Seus avós permitiram que Louise fosse criada naquele ambiente, pela sua mãe. Situação que resultou altamente favorável a sua formação, dadas as condições de estudo e leitura que lhe foram asseguradas. Consta de sua biografia tratar-se de uma leitora voraz de muitos autores, principalmente os filósofos Voltaire, Rousseau, Montesquieu, cujos valores ligadas ao ideário da Revolução Francesa conseguiram fascinar aquela adolescente/jovem de modo a encantar-se desde cedo pelos valores da Liberdade da igualdade e da Fraternidade. Concluiu seus estudos de Magistério, de modo que, aos 21 anos, decidiu mudar-se para outra cidade mais próxima da capital em busca de seguir sua profissão. Já de saída encontrou um sério obstáculo: para assumir suas funções de professora nas escolas governamentais ela precisava fazer o juramento de lealdade a Napoleão III,  tarefa fortemente recusada. Preferiu centrar força, na busca de fundar uma escola na qual pretendia formar moças livres e conscientes.  Desta maneira, conseguiu empreender diversos espaços escolares autônomos, em vários bairros da cidade. Em seguida, buscou alternar seu tempo de trabalho profissional com uma crescente participação em associações e outras organizações de base daquela sociedade, ao tempo em que frequentou debates com figuras ilustres de sua época, a exemplo de Victor Hugo, com quem manteve ampla correspondência.

Exercício de trabalho e de militância política, seguem sendo apreciados com um público crescente, com ampla aceitação e credibilidade, inclusive por meio de textos que ela produzia e fazia publicar em jornais e em periódicos do seu campo. Produzia poemas, textos críticos, ensaios, peças de teatro, sempre visando a despertar a consciência crítica e o compromisso com a lua contra as desigualdades sociais e o seximo, em sua época. 

Avança, a largos Passos, a formação política desta militante Louise Michel,  sempre distribuindo seu tempo profissional com o tempo de militancia em vários círculos de reflexão e espaços populares, acompanhando de perto as lutas sociais, na perspectivas dos interesses das classes populares, firmando um compromisso de classe cada vez mais profundo. Sua consciência de classe também se fortalece e, a partir daí, sua atuação política vai tomando uma direção revolucionária, passando de uma estudiosa ou simpatizante das ideias liberais, herdados de suas leituras dos iluministas da Revolução Francesa, para uma compreensão mais crítica e de uma atitude prática de uma lutadora libertária, mais tarde passando a ser conhecida como uma anarquista de referência .

Graças ao seu cultivo ininterrupto de uma formação sólida, a princípio inspirada pelos filósofos iluministas que inspiraram a Revolução Francesa (Voltaire, principalmente), condição favorável recebida da influência de seus avós paternos. Louise Michel, tão logo concluiu seu curso de Magistério, Passou a dedicar-se a educação. Tentou inserir-se na rede pública de ensino, no que foi impedida por conta de sua compreensível recusa em prestar juramento a um monarca, Napoleão III. A partir de então, entre 1852 e 1855 (dos 23 aos 25 anos), Louise Michel não hesitara em tentar sua vida de Educadora, criando Espaços educativos em outra cidade do interior, onde acolhia principalmente adolescentes e moças, com o propósito de ajudá-las no processo de emancipação, proporcionando-lhes um Despertar de sua consciência crítica. Para tanto, recorria há uma metodologia que contrastava visivelmente com as práticas habituais do seu tempo, marcadas por uma pedagogia punitiva e do medo. Ela, ao contrário, cuidava de exercitar uma dinâmica alternativa, incentivando leituras críticas, trazendo o teatro como possibilidade pedagógica de grande alcance, além da poesia que ela cultivou, ao longo de sua vida. Após esta experiência de educadora em uma cidade do interior, decidiu dar continuidade ao seu trabalho em Paris. Com efeito, Louise Michel foi experimentando uma crescente respeitabilidade pública, junto a diferentes públicos – de intelectuais, de trabalhadores, especialmente de mulheres. Em seguida, articulou sua prática pedagógica com seu exercício de militância, tornando-se uma protofeminista, em sua época, ao tempo em que exercitava fecunda interlocução com intelectuais do seu tempo, chegando a compartilhar ensaios, contos, peças teatrais. Em contínua intereção com estes públicos, sem deixar de escrever panfletos, muito apreciados nas lutas sociais, também em sua época. Tais experiências foram orientando-a em sua prática revolucionária, passando a  abraçar, cada vez mais profundamente, grandes causas de sua época: a causa anarco feminista, a causa revolucionária, ao mesmo tempo em que se sentia profundamente tocada pelas lutas contra as desigualdades sociais econômicas, políticas e culturais.

À altura de seus 40 anos, sua trajetória sócio-política depara-se  com um tempo tenebroso, representado pela guerra franco-prussiana, da qual resultaram profundas humilhações e danos, principalmente para as classes populares. Louise Michel, por volta de 1870 entra de peito aberto nas lutas de resistência, seja o contra o exército prussiano, seja contra o governo provisório de Adolphe Thier

fortemente apoiadas por um conjunto de intelectuais revolucionários, de protagonistas de Largo espectro profissional – artesãos, Operários, advogados médicos, artistas de vários ramos, poetas, escritores… -, dá-se início há uma mobilização intensa, especialmente em Paris diante da humilhação pela derrota, inclusive pela presença do exército invasor, as classes populares não aceitam a Rendição assinada pelo governo provisório de Adolphe Thier, em favor da Prússia, e se mantém em luta, inclusive com as armas de que dispunham, antes da Rendição. Recusam-se a entregar as armas ao governo provisório, com a brava intervenção das mulheres, inclusive de Louise Michel, em entregar os armamentos, generais do governo provisório dão ordem aos seus súditos para atirarem contra aquelas mulheres. Os soldados, porém, recusaram-se a obedecer às ordens do General, e em vez de atirarem contra as mulheres, fizeram-no contra o general e, assim, buscando organizar-se para o assalto contra Paris e os revoltosos.

Durante 72 dias, Paris passa a ser governada por um programa econômico, político, educacional alternativo àquela ordem vigente. A lista de pontos acima referidos bem indicava o potencial transformador do programa de governo da Comuna de Paris.

Pouco mais de dois meses de uma gestão revolucionária que os integrantes daquela Comuna desejavam propor ao conjunto de municipalidades da França não tiveram as condições e o tempo necessários. As forças oficiais, desde Versailles, se reorganizaram e atacaram, de forma fulminante, os bravos Federados, como também eram chamados os integrantes da Comuna de Paris, que acabaram sendo os últimos a serem destroçados no cemitério Père-Lachaise. Um saldo terrível: fala-se em 35.000 mortos, sem contar os 40 mil detentos e detentas, entre os quais dezenas de mulheres, inclusive Louise Michel. Procurada intensamente pela polícia do antigo regime, seus algozes recorrem à prisão de sua mãe como meio para a captura de Louise Michel, que não teve alternativa senão a de livrar sua mãe. É julgada e condenada à prisão, na qual amargou com tantos outros e tantas outras quase 2 anos de prisão, após o quê sua condenação foi convertida, juntamente com a de tantos outros e outras, em deportação para uma terra distante, Nova Caledônia, uma ilha no meio do Oceano Pacífico.

No encontro com seus julgadores (comitê de Guerra), ela não teve papas na lingua: “Eu pertenço inteiramente à revolução social. Nós, integrantes da comuna, outra coisa não quisemos senão concretizar os grandes valores da Revolução Francesa. Se vocês me perguntarem se eu estive envolvida na morte de Generais, eu lhe responderei que sim. Se vocês me perguntarem se eu estive envolvida em incêndios, também responderei que sim. Se vocês me perguntarem se eu estive a participar de um processo revolucionário, com certeza, sim. Diante de vocês, eu sou apenas uma mulher, mas, olhando o rosto de vocês, eu lhes digo: caso eu seja libertada, eu não cessarei de pedir vingança. E se vocês não forem covardes, matem-me.” Tal posição é bem indicadora de uma revolucionária consequente e condenada à prisão, por dois anos, prisão posteriormente convertida em exílio.

Por outro lado, durante os vários anos em que passou em Nova Caledônia, não perdeu tempo. Passou a refletir e discutir com suas companheiras e companheiros deportados, acerca da experiência de participação na Comuna de Paris. Além disso, passou a aprofundar seus estudos, de modo a amadurecer cada vez mais sua posição de anarco feminista orientada pelas ideias de Auguste Blanqui, ao tempo em que não hesitou em aproximar-se dos povos originários de Nova Caledônia, o povo Kanak, que a recebeu com muita confiança e determinação. Louise Michel passa então a aprender a língua dos nativos e a condividir suas dores suas lutas e esperanças, mostrando-se solidária na luta anticolonialista. Ainda em seu tempo de deportada, aproveitou para aprofundar seus conhecimentos sobre a flora e a fauna daquela região, impactando positivamente a todos pela sua extrema sensibilidade com a mãe natureza. Também, em relação ao povo Kanak, escreveu um livro sobre suas lendas. 

Passado o tempo de sua deportação, Louise Michel com outros deportados e deportadas, retorna a França, onde dá sequência às suas lutas libertárias, organizando grupos e coletivos, aprofundando a consciência crítica, participando de palestras na Inglaterra, na Bélgica, na Holanda, na Argelia e na França. Seu caráter de anarco feminista ganhou enorme simpatia e respeitabilidade, de modo que, após uma existência de luta coerente, quando já se encontrava fragilizada, veio a falecer em Marselha, em Janeiro de 1905. Amplo reconhecimento e a clara gratidão demonstrados por tantos grupos feministas, revolucionários, anarquistas, libertários, foram bem atestados, por exemplo, no maciço comparecimento solidário aos seus funerais, realizados em Paris. Fala-se em uma participação de até 100 mil pessoas.

Que lições a vida de uma feminista libertária pode nos inspirar, frente aos desafios?

A trajetória revolucionária percorrida por Louise Michel não se limita, do ponto de vista das profundas influências que ela inspira, às gerações do século XIX, mas seguem como uma forte centelhas a reacender os ânimos e as esperanças de mulheres e de homens dos nossos tempos sob vários aspectos. Podemos destacar algumas lições que colhemos do percurso existencial desta educadora militante. Um primeiro aspecto a destacar diz respeito à coerência que ela guardou com seus princípios libertários, desde tenra idade. Tendo-se preparado para ensinar, não exerceu essa profissão, por estar apegada a valores de Mercado ou a uma simples busca de segurança profissional. O fato de ter se recusado a prestar juramento de fidelidade a Napoleão III, como uma condição de integrar o corpo docente das escolas governamentais, já é um atestado explícito de sua coerência revolucionária. Prefere empenhar-se em Semear iniciativas de formação junto a várias populações, priorizando a educação feminina, oportunidade em quê mostrou exímias qualidades de Educadora seja por conta dos valores que defendia, seja em razão de sua metodologia de trabalho, Louise Michel apresentava um diferencial enorme, em relação às práticas educativas convencionais, além de seu compromisso com a causa libertária, e especial da emancipação das mulheres frente à toda dominação de gênero, dominação conjugal e outras. Não hesitava em despertar em suas educandas interesse e compromisso de libertação, de emancipação. Além disto, também punha em prática uma metodologia que contrastava com a de então dominante. Invés de seguir os caminhos de uma Pedagogia do Medo ou de estratégias punitivas, preferiu despertar nas educandas um compromisso com a liberdade, também nos processos metodológicos; Daí o emprego da linguagem artística da poesia, do teatro, assim como do incentivo ao processo de aquisição do conhecimento, como caminho de libertação

Poderia ter-se cingido apenas ao campo estritamente educacional, mas não hesitou em expandir sua militância por outros Campos, tais como o da escrita (ensaios, contos, peças teatrais, panfletos…), além de dividir o seu tempo entre o trabalho profissional e as discussões políticas com diversos coletivos, por meio dos comitês ou dos conselhos populares que ela animava, em especial no 18 “Arrondissement” (18ª zona urbana de Paris), correspondente à famosa região de Montmartre, lugar de atuação política de Louise Michel, referência capital das lutas travadas pelos “comunnards”.

Há muito, sim, a aprendermos da experiência tanto da Comuna de Paris quanto da trajetória humana, intelectual e política de Louise Michel. Como em tantos outros acontecimentos dignos de memória, também nestes, não se trata de tentar reedita-las, mas de extrair deles inspirações, intuições, idéias que nos sejam úteis no enfrentamento dos desafios da atualidade da Comuna de Paris. Como não nos deixarmos impactar pelas atitudes ético-políticas postas em prática, inclusive no que diz respeito aos princípios que orientaram aquela gestão? Como desdenharmos as práticas de autogestão? Como desprezarmos princípios fundamentais como protagonismo de homens e mulheres, na tomada conjunta de decisões, a partir dos comitês ou dos conselhos populares, verdadeiros núcleos autônomos interconectados e de decisão? Como não tomarmos em conta o princípio da alternância de cargos e funções bem como na revogabilidade dos cargos eletivos? Como não apreciarmos o compromisso efetivo com os interesses da coletividade, das classes populares? Como ignorarmos a relevância de princípios postos em prática, tais como a da garantia das condições justas de trabalho, dos direitos sociais, da garantia dos serviços públicos essenciais, da responsabilidade de todos pela segurança da coletividade, por meio dos comitês de bairros, em vez de se reduzir a segurança pública a instâncias estatais (exército, polícia), com o constante risco de manipulação (das elites econômicas), tornando estes aparelhos apenas a seu serviço e contra o da maioria da população?

Quanto ao exercício da memória de Louise Michel, além de dezenas de outras mulheres que tiveram um protagonismo reconhecido nas ações desenvolvidas, ainda que brevemente, pelos integrantes da Comuna de Paris em razão de sua ampla participação, como não tomarmos na devida conta? Como menosprezar a gama de talentos reunidos por Louise Michel – de Educadora Popular, de escritora, de apaixonada pelas ciências naturais, tendo sido inclusive professora de Química e pesquisadora da flora e da fauna da nova caledônia . E, como não nos impactar pela sua coragem e pelo seu incessante compromisso com as grandes causas da humanidade, inclusive por meio de sua posição anti-colonialista, pela sua incansável militância em favor dos direitos dos de baixo, de sua respeitabilidade dentro e fora da França, como convidada frequente a fazer palestras e cursos na Inglaterra, na Bélgica, na Holanda, na Argélia, além de tantos lugares na própria França? Como não nos incomodarmos com certa invisibilidade de tantas mulheres, a exemplo de Louise Michel, nos dias atuais, inclusive entre nós, salvo algumas exceções? 

A quem interessar possa, sugiro a (re)leitura ou (re)escuta dos seguintes vídeos ou textos:

  1. https://ithanarquista.files.wordpress.com/2019/03/samanta_mendes_comuna_de_paris_louise_michel.pdf
  2. https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/view/5435/3882 
  3. http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/321601 
  4. https://www.youtube.com/watch?v=vmzmWy7pvUY 
  5. https://www.youtube.com/watch?v=lYPv_ngyim4 
  6. https://www.youtube.com/watch?v=YN22jQTeqRU
  7. https://www.youtube.com/watch?v=IZEAGAtMBC8 
  8. https://www.youtube.com/watch?v=ILzsOctQt9s

João Pessoa, 28 de outubro de 2020

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