Hormuz, Petróleo e Transição Energética: lições da Instabilidade Global para a América Latina

Crédito: wal_172619/Pixabay

A guerra expõe o entrelaçamento entre geopolítica e crise climática, mostrando que a transição para fontes renováveis deixou de ser agenda setorial e passou a ser condição mínima para a segurança econômica, energética e ambiental da humanidade.

Ao completarmos o primeiro mês da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, o horizonte parece continuar sombrio, com poucas perspectivas positivas à vista. Na manhã de 28 de fevereiro de 2026, Teerã, Esfahan e Tabriz foram alvos centrais da chamada Operação Epic Fury, que atingiu centros de comando das forças iranianas, centrais políticas, hospitais, e até escolas[1]. A resposta iraniana foi imediata, com bombardeios estratégicos contra ativos dos EUA no Golfo, rompendo a ilusão de que monarquias como Bahrein, Kuwait, EAU, Qatar e Arábia Saudita seriam oásis de paz e modernidade na região. Na manhã de domingo, confirmava-se o assassinato do líder supremo iraniano, Aiatolá Khamenei, e de vários membros do alto escalão político e militar[2]. Apesar das confusas tentativas do presidente estadunidense Donald Trump de justificar a guerra, em 24 horas ficou claro que não se tratava de uma “guerra de necessidade”, nem apenas de novos ataques preventivos contra instalações nucleares, que ele próprio afirmou ter “obliterado” em junho de 2025[3]. Trata-se de uma “guerra de escolha,” com um objetivo político explícito: resolver o “problema Irã” à raiz, derrubando a República Islâmica.

Para a cúpula do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o Irã representa há muito tempo uma profunda ameaça a Israel. O regime dos aiatolás opõe-se à existência do Estado israelense, enquanto líderes iranianos e aliados regionais frequentemente o descrevem como um “câncer” na região, sobretudo por sua aliança com os Estados Unidos[4]. Desde os primeiros relatórios da ONU, em 2002, que atestavam suspeitas sobre o programa nuclear iraniano, o lobby israelense tem articulado uma coalizão internacional contra sua continuidade, mesmo para fins civis, sob a convicção de que o Irã não é um ator confiável, incapaz de cumprir a promessa de não desenvolver capacidades para a bomba atômica[5]. Esse esforço ganhou força na segunda metade dos anos 2000, com o apoio de monarquias sunitas como a Arábia Saudita e a Jordânia, temerosas da influência iraniana sobre populações xiitas na região[6]. O maior revés para a coalizão ocorreu com o acordo JCPOA, em 2015, entre o Irã e o P5+1 (Estado Unidos, China, Rússia, Reino Unido, Franca e Alemanha). O pacto previa a remoção de sanções multilaterais, intensificadas por Barack Obama a partir de 2011[7], em troca de rigorosa fiscalização pela Agência Internacional de Energia Atômica. Ao que se sabe, o Irã, buscando recuperar sua economia em meio à queda dos preços do petróleo, cumpria os termos. Ainda assim, tendo comprado o discurso da coalizão liderada por Netanyahu ainda em pré-campanha, Trump retirou unilateralmente os EUA do acordo em 8 de maio de 2018, desestabilizando parceiros europeus e inviabilizando investimentos no Irã devido ao risco de sanções secundárias. Com o colapso do JCPOA, Teerã retomou seu programa nuclear, e o desdobramento desse processo já é conhecido.

Não está claro qual é o objetivo real de Trump com a atual intervenção no Irã, se é que há um. Especula-se que ele buscava repetir a lógica aplicada na Venezuela em 3 de janeiro de 2026: uma demonstração brande de força (e de desprezo pelo direito internacional) para substituir um inimigo por um ator disposto a negociar com Washington. Para Trump, pouco importa se Delcy Rodríguez é ou não chavista; trata-se de uma nova figura inserida com sucesso sob pressão do poder estadunidense[8]. Ainda naquele fim de semana, fui questionada sobre a possibilidade de queda do regime iraniano após o assassinato da liderança. Minha resposta foi clara: derrubar regimes por bombardeio é historicamente difícil, forçar um recuo da cúpula do regime iraniano, relativamente bem organizada em um sistema de autoritarismo competitivo, é uma tarefa extremamente complexa. Apesar da superioridade técnico-militar dos EUA, o Irã se prepara há décadas para um conflito assimétrico. Seu objetivo não é destruir o inimigo, mas elevar, prolongar e difundir os custos do conflito, o que explica o rápido envolvimento regional, mesmo com Teerã afirmando que seus ataques visam ativos estadunidenses, e não outras nações regionais[9].

Qualquer especialista sabe que o Irã ameaça, há décadas, fechar o Estreito de Hormuz se pressionado, e que as Guardas Revolucionárias afirmam possuir essa capacidade por meio de minas, mísseis, drones, embarcações não tripuladas e lanchas rápidas[10]. Sabe-se também que o país pode atingir centrais de eletricidade e, sobretudo, de dessalinização na região, além de acionar aliados Houthis no Iêmen para bloquear o tráfego no Estreito de Bab al-Mandab, riscos já sinalizados na terceira semana do conflito[11]. Em contrapartida, Israel não demonstra recuo em sua campanha de assassinatos de lideranças iranianas, mantendo a pressão alta para o colapso interno do regime[12]. Os EUA, por sua vez, oscilam entre retórica confusa, com Trump alegando conversar com fontes poderosas iranianas ao mesmo tempo em que ameaça destruir toda a produção de petróleo do país se Hormuz não for aberto imediatamente[13]. Assim, nenhuma das partes parece próxima de seu limite, o que indica potencial de prolongamento e até de escalada do conflito. Apesar da proposta paquistanesa de sediar as negociações de cessar-fogo em Islamabad[14], nenhum ator parece disposto a ser o primeiro a ceder.

O Estreito de Hormuz, com apenas 56 quilômetros de largura, concentra cerca de um quarto do petróleo transportado por via marítima e um quinto do gás global[15]. Diante das ameaças, milhares de navios interromperam suas rotas, e apenas alguns seguem transitando ou pagando por sua passagem[16]. Obviamente, isso gerou pânico nos mercados: os preços do petróleo e do GNL dispararam, alimentando temores de uma crise energética comparável à dos anos 1970[17]. A cada dia sem negociação, aumentam os riscos de inflação, desabastecimento e recessão em vários países. No Sri Lanka, por exemplo, as quartas-feiras foram transformadas em feriados públicos para conter o consumo de gás e petróleo, o que reflete a alta dependência de importações[18].

Para nós na América Latina, embora sem cenários extremos, os impactos serão sentidos para além da pressão sobre os preços do petróleo e do gás, com riscos de inflação e de desvalorização cambial frente ao dólar[19]. O fechamento da rota já provoca disrupções logísticas, elevando os custos de frete e de seguros nas rotas às quais as cadeias produtivas são, de uma maneira ou outra, conectadas à região. Além de combustíveis, pelo estreito passam 33% dos insumos para fertilizantes, 45% dos sulfídios (essenciais para fosfato), 32% do metanol, 6% do açúcar, além de outros produtos que importamos. Países como Brasil e Argentina, grandes exportadores agrícolas, dependem desses insumos para a produção. A continuidade do conflito ameaça reduzir a produção, elevar a insegurança alimentar e encarecer os produtos ao consumidor final. Além disso, o Oriente Médio é um mercado estratégico para o agronegócio brasileiro: cerca de 30% do frango é exportado para a região, o Irã é o principal comprador de milho brasileiro, e o Brasil lidera a produção de carne halal[20]. A continuidade do conflito afetará as estratégias de produção de vários setores nacionais.

Contudo, há quem veja, cinicamente, oportunidades para a região nesse conflito. Desde os anos 2000, a América Latina vem se consolidando como uma nova fronteira de exploração de recursos fósseis “não convencionais”. Isso não significa ausência histórica de produção de petróleo (o primeiro poço comercial na Venezuela opera desde 1922), mas sim uma transformação impulsionada por inovações tecnológicas: o pré-sal no Brasil descoberto em 2006, o shale de Vaca Muerta na Argentina anunciado em 2010 e as reservas offshore da Guiana em pré-exploração desde 2015, onde se estima uma produção de 650 mil barris/dia[21]. Na contracorrente das pressões por descarbonização das economias mundiais para mitigar os impactos ambientais e o aquecimento global, a América Latina atingiu seu pico de produção de petróleo entre 2024 e 2025. Nesse contexto, a instabilidade no Oriente Médio e o risco de interrupções no fluxo energético global tornam a América Latina ainda mais atraente aos olhos cobiçosos de atores em busca de segurança energética a preços relativamente baixos.

Entretanto, isso deve ser visto como um alarme, não como uma vantagem. Para além da tragédia humana, com quase 2 mil mortos e diversas cidades destruídas[22], eu gostaria de apontar que a guerra expõe o entrelaçamento entre geopolítica e crise climática, mostrando que a transição para fontes renováveis deixou de ser agenda setorial e passou a ser condição mínima para a segurança econômica, energética e ambiental da humanidade. Em 8 de março, após bombardeios israelenses a depósitos de combustível, moradores de Teerã relataram nuvens tóxicas, e a OMS alertou para os graves impactos ambientais e à saúde desses ataques[23]. Para quem compreende a urgência da contenção do aquecimento global, os efeitos de uma guerra centrada na destruição de infraestrutura energética são alarmantes: em vez de mitigar, estamos acelerando a crise climática.

O irônico é que as mesmas vozes que, por anos, disseram que a transição energética, da maneira como precisamos, seria cara demais, agora aceitam os absurdos custos diários da guerra e suas interrupções logísticas[24]. A solução não deveria ser aumentar a exploração de recursos fósseis em regiões “mais seguras” ou onde há menos pontos de escoamento vulneráveis a bloqueios que explorem a dependência dos compradores. Já vimos em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e o preço do gás disparou na Europa, que políticos, empresas e stakeholders clamaram pela desaceleração das políticas de transição energética. Novos investimentos e revisões de compromissos climáticos em vários países, geraram lucros recordes e reabilitaram a indústria de combustíveis fósseis naquele ano[25]. O risco de repetição desse cenário hoje é elevado, especialmente na América Latina.

Somos uma região com enorme potencial para energias renováveis e rica em minerais críticos para produção, transmissão e armazenamento dessas fontes[26]. Quando ouvirmos que maior produção de petróleo, seja na socioambientalmente delicada Bacia Amazônica[27] ou na recém-descoberta Bacia de Pelotas[28], é “essencial para a segurança energética global”, devemos perguntar: segurança para quem, a que custo e por quanto tempo? Controlar os ganhos de coalizões políticas negacionistas e a manipulação do discurso de segurança energética em prol dos interesses do petróleo e do gás será um dos maiores desafios da América Latina nos próximos anos. Esse dilema ganha contornos ainda mais graves diante de um presidente como Trump, que repete o lema “drill, baby, drill”, ao definir as Américas como “esfera prioritária de interesse estratégico dos Estados Unidos”, sinalizando possíveis tendências intervencionistas em defesa dos interesses de Washington, em explícita referência à Doutrina Monroe de 1823[29]. Assim, que essa guerra pelo menos nos ensine que a verdadeira segurança energética dependerá de escolhas que priorizem sustentabilidade, autonomia e justiça socioambiental, e não apenas os lucros imediatos decorrentes de janelas oportunistas.

 

Luíza Cerioli é doutora em ciência política pelo Centro de Estudos do Oriente Médio e Próximo pela Universidade de Marburg (Alemanha).

[1] https://www.lemonde.fr/en/international/article/2026/02/28/israel-and-the-us-attack-iran-what-happened-in-the-first-hours-of-bombing_6750958_4.html%204

[2] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgk2egy8yv5o

[3] https://www.dw.com/pt-br/o-que-trump-quer-ao-atacar-o-ir%C3%A3-e-o-que-ele-pode-conseguir/a-76168170

 

[4] https://www.dw.com/en/iran-israel-attacks-hezbollah-ayatollah-ali-khamenei-islamic-revolution/a-68780605

 

[5] https://www.scielo.br/j/nec/a/FzRjfFLcVr5GSZtWkm6WsML/?lang=pt

[6] https://www.researchgate.net/profile/Luiza-Gimenez-Cerioli/publication/330684135_LA_SECURITIZACION_DE_LA_MEDIA_LUNA_CHIITA_UNA_PERSPECTIVA_TEORICA_DE_LA_PRIMAVERA_ARABE_DE_BAHREIN_Y_YEMEN/links/5c4f18e492851c22a396fe06/LA-SECURITIZACION-DE-LA-MEDIA-LUNA-CHIITA-UNA-PERSPECTIVA-TEORICA-DE-LA-PRIMAVERA-ARABE-DE-BAHREIN-Y-YEMEN.pdf

[7] https://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/17/internacional/1453045921_859130.html

[8] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/veja-quem-e-delcy-rodriguez-vice-da-venezuela-que-pode-assumir-pais/

 

[9] https://www.foreignaffairs.com/united-states/how-americas-war-iran-backfired

[10] https://www.foreignaffairs.com/iran/hormuz-minefield

[11] https://www.france24.com/en/live-news/20260326-bab-al-mandeb-strait-another-key-shipping-route-under-threat

[12] https://www.washingtonpost.com/world/2026/03/26/us-israel-iran-navy-chief-killed-hormuz/

[13] https://www.nytimes.com/2026/03/25/world/middleeast/trump-iran-talks-contradiction.html

[14]https://www.nytimes.com/2026/03/26/us/politics/trump-pakistan-iran.html

[15]https://www.nytimes.com/interactive/2026/03/25/business/energy-environment/strait-hormuz-oil-gas.html

[16]https://www.dw.com/en/is-iran-cashing-in-millions-from-strait-of-hormuz-blockade/a-76503935

[17]https://www.npr.org/2026/03/02/nx-s1-5732287/iran-war-oil-gasoline-prices

 

[18]https://www.theguardian.com/world/2026/mar/16/sri-lanka-four-day-week-oil-and-gas-iran-war

[19]https://english.elpais.com/international/2026-03-04/how-the-war-in-iran-is-affecting-the-main-economies-of-latin-america.html

[20]https://trendsresearch.org/insight/the-economic-impact-of-the-conflict-in-iran-on-latin-america/?srsltid=AfmBOor8S2NLsf9cOn40kT4TxDjgS0-n7Cc0BOY_jNlABaOL9xcNJ4nf

[21]https://edition.cnn.com/2025/11/10/climate/south-america-oil-gas-brazil-guyana-argentina-climate#:~:text=Huge%20oil%20companies%20including%20Exxon,state%2Drun%20oil%20company%20Petrobras.

[22]https://www.aljazeera.com/news/2026/3/1/us-israel-attacks-on-iran-death-toll-and-injuries-live-tracker

[23]https://www.theguardian.com/world/2026/mar/08/dark-like-our-future-iranians-describe-scenes-of-catastrophe-after-tehrans-oil-depots-bombed

[24]https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/guerra-contra-ira-custa-aos-eua-mais-de-us-890-milhoes-por-dia/

[25]https://dialogue.earth/pt-br/justica/opiniao-america-latina-extracao-predatoria-minerais-criticos/

[26]https://theconversation.com/vazamento-na-foz-do-amazonas-reacendeu-debate-sobre-riscos-desconhecidos-da-exploracao-de-petroleo-na-regiao-277600

[27]https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/mar/19/oil-crisis-research-rich-costs-wealth-redistribute

[28]https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/guerra-contra-ira-custa-aos-eua-mais-de-us-890-milhoes-por-dia/

[29]https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckg9q0xnr15o

 

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