Os desafios do velho (e novo) “Chico”

Ministro Waldez Góes durante a inauguração do Ramal do Desterro e da Adutora do Pajeú na Paraíba (Foto: Márcio Pinheiro/MIDR)

Recebi, no último fim de semana, da querida Tania Bacelar, o documento “Velho Chico, Novos Caminhos”, recém-publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e que celebra os 20 anos da outorga que permitiu a execução do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as bacias do Nordeste setentrional. Não resisti à provocação — “Conheces?” — e logo encarei o texto com a atenção que o tema desperta para os que ainda acreditam em desenvolvimento regional. Eis, portanto, uma síntese crítica do que li. Estruturado em três partes — “A Nascente”, “O Curso” e “Os Novos Caminhos” —, o texto se inscreve como registro comemorativo, mas também como narrativa oficial de um projeto que atravessou governos e se consolidou como símbolo de resiliência e justiça social.

A narrativa institucional construída em “Velho Chico, Novos Caminhos” não se furta a descrever a complexidade do empreendimento: os 477 quilômetros de canais, os túneis que perfuram a chapada, as estações de bombeamento que elevam a água a alturas monumentais. O sucesso técnico é inegável, e a emoção estampada nos rostos dos sertanejos ao verem a água chegar pela primeira vez é o selo de legitimidade mais poderoso que qualquer política pública pode almejar. No entanto, a mesma narrativa que celebra a vitória da engenharia revela, nas entrelinhas, as tensões fundamentais de uma política que ainda busca conciliar desenvolvimento com equidade se furta a descrever a complexidade do empreendimento: os 477 quilômetros de canais, os túneis que perfuram a chapada, as estações de bombeamento que elevam a água a alturas monumentais. O sucesso técnico é inegável, e a emoção estampada nos rostos dos sertanejos ao verem a água chegar pela primeira vez é o selo de legitimidade mais poderoso que qualquer política pública pode almejar. No entanto, a mesma narrativa que celebra a vitória da engenharia revela, nas entrelinhas, as tensões fundamentais de uma política que ainda busca conciliar desenvolvimento com equidade.

A construção do projeto foi marcada por uma intensa arena de disputas: estados doadores versus estados receptores, movimentos sociais contra a centralização da gestão hídrica, e um acirrado debate ambiental que exigiu a criação de 38 programas de mitigação e um investimento superior a R$ 1 bilhão em compensa- ções. A descrição dos bastidores da outorga, com seus três dias de negociação para obter a assinatura de um governador, expõe que a água, mesmo sob a retórica do bem comum, é um recurso profundamente político, cuja distribuição depende de pactos frágeis e de complexas costuras federativas que nem sempre privilegiam os mais vulneráveis.

O documento aponta, ainda, que o grande desafio do Pisf agora é a “sustentabilidade operacional”, com a migração para um modelo de Parceria Público-Privada e a responsabilização dos estados pelos altos custos de energia, que chegam a representar 80% das despesas. A assinatura dos contratos de pagamento e a qualificação do projeto no Programa de Parcerias de Investimentos indicam uma guinada em direção a uma gestão que prioriza a eficiência fiscal, mas que também carrega o risco de transformar o acesso à água em uma equação financeira que pode não alcançar os pequenos agricultores e as comunidades rurais difusas que ainda aguardam a capilaridade prometida.

Se as secas se tornarem mais severas e recorrentes, como alertam os próprios gestores no documento, o projeto precisará ser ressignificado: não mais como uma obra excepcional, mas como parte de uma política estruturante de convivência com o semiárido. Para além das cifras grandiosas e das festas de chegada das águas, o verdadeiro teste do empreendimento reside em sua capacidade de garantir que a água chegue de fato a quem mais precisa, que as vilas produtivas se tornem efetivas alternativas de emancipação social e que a gestão do sistema se torne um modelo de cooperação federativa. A vitória da engenharia está garantida; o desafio, agora, é transformar essa conquista em um símbolo duradouro de desenvolvimento sustentável e inclusivo.

 

A construção

do projeto foi

marcada por

uma intensa

arena de

disputas

Fonte: Os desafios do velho (e novo) “Chico” A UNIÃO / Uma publicação da EPC / João Pessoa, Paraíba, 31 de março de 2026

Artigo de Cidoval Morais de Sousa (Colaboração)

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*Cidoval Morais de Sousa

é professor efetivo da UEPB e docente nos programas de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) e Ensino de Ciências e Educação Matemática (PPGECEM). Possui bacharelado em Comunicação Social (UEPB), especialização em Sociologia (UFPB) e doutorado em Geociências (UNICAMP). Também tem pós-doutorado em Sociologia da Ciência e da Tecnologia pela UFSCar.

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