
Por Cidoval Morais de Sousa*
A transição energética para fontes renováveis foi inicialmente recebida como a grande solução para a crise climática e a descarbonização da economia. Painéis solares e turbinas eólicas foram celebrados como símbolos de um futuro sustentável, capazes de gerar empregos, renda e energia barata sem agredir o meio ambiente. Essa narrativa de “salvação ecológica” ganhou força em políticas públicas, relatórios oficiais e discursos empresariais, criando um consenso de que a sustentabilidade havia encontrado seu ponto ideal. Contudo, passada a fase da euforia, os estudos mais recentes mostram que essa transição não é tão limpa nem tão justa quanto se prometeu. O que se observa é um processo marcado por contradições, impactos socioambientais e novas formas de desigualdade.
O primeiro mito que precisamos desconstruir é o da energia “100% limpa”. Embora solar e eólica sejam renováveis, sua implantação, em larga escala, gera impactos ambientais significativos. Megaparques eólicos e solares exigem grandes áreas, causando desmatamento, fragmentação de habitats e alteração da dinâmica hidrológica. A fauna local, especialmente aves e morcegos, sofre com a presença das turbinas. Além disso, a fabricação de painéis e turbinas demanda materiais como aço, cimento e alumínio, cuja extração é altamente poluente e intensiva em carbono, o que coloca na berlinda o mito da “solução sem extrativismo”. A demanda por metais raros como lítio, cobalto e níquel para baterias, além de neodímio para ímãs de turbinas, prevê multiplicar por quatro a exploração mineral global.
Há também o mito da sustentabilidade sem conflitos sociais. No Nordeste, por exemplo, a instalação de parques eólicos e solares tem provocado disputas fundiárias e violado direitos de populações tradicionais, quilombolas e camponesas, criando zonas de sacrifício em territórios vulneráveis. O mito da geração de emprego qualificado e local também está se desfazendo: a maioria dos postos é temporária, restrita à fase de instalação, enquanto a operação exige mão de obra especializada trazida de fora. Já o descarte de pás de turbinas eólicas, difíceis de reciclar, e de painéis solares, que contêm materiais tóxicos, está criando uma nova crise de resíduos sólidos. Além disso, o mito da transição justa se desfaz quando observamos que o processo está capturado por grandes corporações. Em vez de democratizar o acesso à energia, o modelo atual perpetua dependências coloniais, onde países em desenvolvimento exportam minérios raros e importam tecnologia, mantendo a desigualdade global.
Do ponto de vista econômico, há o mito do barateamento automático da conta de luz. Embora o custo de geração solar e eólica tenha caído, o sistema como um todo encarece. É necessário manter redes de transmissão longas e sistemas de backup para quando não há sol ou vento, o que aumenta a tarifa final para o consumidor doméstico. Finalmente, há o mito da transição como substituição. Nunca deixamos de ‘queimar’ uma fonte ao adotar outra, apenas acumulamos. As renováveis estão somando capacidade para atender ao crescimento do consumo, sem substituir de fato os fósseis. Trocar gasolina por baterias de lítio não resolve o problema do modelo de crescimento infinito. E a democracia energética prometida não se concretiza, já que a “onda verde” é dominada por grandes fundos e transnacionais. Sem incentivo à geração comunitária, apenas trocamos o oligopólio do petróleo pelo oligopólio do sol e do vento. A transição, assim, revela-se um campo de mitos que precisam ser criticamente enfrentados (Voltaremos ao assunto).
_____________________________________________________________________________
*Cidoval Morais de Sousa
é professor efetivo da UEPB e docente nos programas de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) e Ensino de Ciências e Educação Matemática (PPGECEM). Possui bacharelado em Comunicação Social (UEPB), especialização em Sociologia (UFPB) e doutorado em Geociências (UNICAMP). Também tem pós-doutorado em Sociologia da Ciência e da Tecnologia pela UFSCar.
