Hermanos sudamericanos, uni-vos!

A riqueza literária de um continente dividido pela barreira do idioma*

O popular “portunhol”, com simpatizantes fluentes em toda a América do Sul, não é um porto seguro quando o assunto é literatura. Praticado com esmero por brasileiros em Buenos Aires ou venezuelanos na Amazônia brasileira, o idioma improvisado é um recurso prático quando utilizado informalmente, mas parece encontrar seu limite nas páginas dos livros. Lê-se pouco em espanhol no Brasil e as publicações em português parecem um grande mistério para os países vizinhos. Tradutores reclamam da falta de um mercado sólido e de profissionais gabaritados. Afinal, que barreiras separam a produção literária sul-americana?

Em um passeio por cidades pequenas da Bolívia, do Peru ou da Venezuela, é comum encontrar gente que sequer imagina qual é o idioma falado no Brasil. Na contramão, escritores consagrados em seus países, como o poeta argentino Armando Tejada Gómez, o boliviano Marcelo Quiroga Santa Cruz ou o colombiano Armando Romero, são praticamente anônimos no Brasil. “Existe de fato uma barreira linguística”, indica o professor e pesquisador Muniz Sodré, presidente da Fundação Biblioteca Nacional entre 2005 e 2011. “A compreensão do espanhol pode ocorrer nas trocas cotidianas aqui no Brasil, mas as coisas mudam de figura quando se trata de leitura. O mesmo vale para o português nos países de língua hispânica”, explica.

Nos grandes centros, a estranheza entre os idiomas não é diferente. O filósofo bogotano German Granada, livreiro e dono de uma coleção com mais de 2.000 títulos, reconhece a dificuldade de diálogo. “O assunto me remete a um artigo publicado recentemente numa revista de relações internacionais aqui da Colômbia: ‘Brasil: tão próximo e tão distante’. A chamada por si só dá conta da situação. Há um desconhecimento total desse país, que faz fronteira com quase todos os demais, mas culturalmente está isolado”, afirma. Das nove nações ligadas ao Brasil por terra (além da Guiana Francesa, território da França), sete têm o espanhol como língua oficial. Os dois únicos países que não fazem fronteira com o Brasil, Chile e Equador, também foram colônias espanholas. O idioma é forte ainda em toda a América Latina, com destaque também nos Estados Unidos, onde a comunidade de imigrantes de língua castelhana cresce a cada dia.

Batalha de idiomas

“Nós que falamos espanhol tínhamos, antes, a arrogância de acreditar falar a segunda língua internacional do mundo, depois do inglês. Não era tão importante aprender português”, reconhece Héctor Abad, escritor colombiano convidado para a Flip de 2011, onde lançou A Ausência que Seremos [Companhia das Letras, 2011], seu primeiro livro no Brasil. “Agora que o Brasil é cada vez mais uma potência econômica e cultural, acredito que o estudo do português deveria ser obrigatório na América espanhola”, sugere Abad.
A dificuldade de aceitação da literatura brasileira no exterior vai além dos vizinhos sul-americanos, conforme explica Paulo Roberto Pires, diretor editorial da Agir e da Nova Fronteira. “Um editor do grupo francês Gallimard, que está fazendo 100 anos, disse à Folha de São Paulo que lançar hispânicos na França, tudo bem, mas brasileiros, de jeito nenhum. Fico pensando que não tivemos uma operação de marketing tão eficiente quanto o ‘boom’ latino-americano, conduzido por agentes e editores espanhóis”, conta. Para o editor, o distanciamento literário no continente aumenta com a concentração editorial. “Os grandes grupos, de origem sobretudo espanhola, lançam livros simultaneamente no continente inteiro e o português vai ficando cada vez mais isolado”.

Entre os principais obstáculos para a expansão literária brasileira, estão o desinteresse pela produção em português e seu baixo valor no mercado internacional, graças à situação periférica do nosso idioma. Dados organizados pela UNESCO entre 1932 e 2008 mostram que o espanhol é a sexta língua mais traduzida do mundo, enquanto o português está em 19º lugar, atrás de idiomas como húngaro, checo e árabe. Segundo A Cadeia Produtiva do Livro [Ed. BNDES, 2005], as vendas de livros em português atingiram US$ 910 milhões em 2003, enquanto a vendagem em espanhol alcançou US$ 3.238 milhões (mais que o triplo do total em português). Somam-se a isso a consequente dificuldade na formação de bons tradutores e as imprecisões na tradução de escritores consagrados pela experimentação de linguagem e regionalismos.

Traduzir é difícil

“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro”. Grande Sertão: Veredas, obra do escritor mineiro João Guimarães Rosa, anuncia em seu primeiro parágrafo a dificuldade que enfrentam os que se arriscam a ler em português e o tamanho do problema nas mãos dos tradutores.

“Uma das dificuldades que o tradutor costuma encontrar é a semelhança entre ambos os idiomas e sua suposta facilidade de tradução. O que parece inicialmente uma questão de proximidade se mostra um problema: não há um programa de formação de tradutores no Mercosul e surgem traduções muito literais, que são superam o fato de português e espanhol serem línguas aparentemente parecidas. Não existe, tampouco, um mercado atrativo para os tradutores no Mercosul”, conta Gonzalo Aguillar, docente da cátedra de literatura brasileira da Universidade de Buenos Aires.

O professor encarou o desafio e é responsável por uma coleção de livros brasileiros traduzidos, que inclui, entre outros, obras de José de Alencar, Machado de Assis, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Bernardo Carvalho e Paulo Leminski. Junto a Florencia Garramuño, Gonzalo traduziu Guimarães Rosa e o resultado é “Gran Sertón: Veredas” (Ed. Adriana Hudalgo), publicado em 2009 na Argentina. “Nosso critério foi a combinação do narrador etnográfico e do experimentador vanguardista”, explica o tradutor. Ele conta que outra tradução do livro havia sido feita nos anos 70 e que na nova edição foram tomados cuidados para não afetar a intensidade da prosa de Guimarães, nem criar neologismos onde eles não existem. “Nós cumprimos o que se recomenda para os textos clássicos, que devem ser traduzidos ou retraduzidos a cada 20 anos”, completa. Seguindo na filosofia de “quanto mais difícil, melhor”, o argentino Gonzalo publicou no Brasil, em português, o livro Poesia Concreta Brasileira: As Vanguardas na Encruzilhada Modernista (EDUSP), que discute o experimentalismo do movimento inaugurado pelos poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos nos anos 50 em São Paulo.

A argentina Pola Oloixarac, também convidada pela Flip 2011, dá dimensões épicas à tarefa. “É um trabalho heróico traduzir os geniais Guimarães Rosa e Clarice Lispector para o espanhol. Um esforço esplêndido que foi realizado com sucesso na Argentina”, afirma. Quando o assunto é a tradução de seu primeiro livro para o português, As teorias selvagens [Ed. Saraiva, 2011], Pola se mostra satisfeita. “O prazer é imenso. Imaginar minhas ideias em um idioma tão belo como o português, habitando por alguns instantes os ouvidos de garotos e garotas brasileiros, me parece uma imagem deliciosa”, derrete-se.

A escritora conta que já esteve no Brasil e que costuma se arriscar na língua de Camões. “Estava de férias na Bahia e já tinha terminado meus livros. Li então um monte de clássicos baratos traduzidos para o português, como Memórias de Garibaldi, do francês Alexandre Dumas, e Brasil, um país do futuro, do austríaco Stefan Zweig”, lembra. Em contrapartida, seu companheiro de Flip, Héctor Abad, reconhece não ler nada em português, mas promete que vai aprender o idioma. “Que satisfação enorme seria ler Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Jorge Amado em seu idioma original”.

Estereótipos dificultam

Citado não por acaso, Jorge Amado é o romancista brasileiro mais traduzido no exterior e pode ser considerado uma exceção. Títulos como “Capitanes de la arena”, “Doña Flor y sus dos maridos”, “Gabriela, clavo y canela” ou “Tieta de Agreste” são encontrados sem dificuldades em sebos e livrarias argentinas, equatorianas ou colombianas. A popularidade do autor baiano é justificada pelo especialista em literatura brasileira da Universidade de Bolonha, Roberto Vechi. O pesquisador discute a insistência do leitor estrangeiro por elementos da “brasilidade” nos livros tupiniquins. Ele mostra que existe uma expectativa estrangeira por encontrar estereótipos da cultura brasileira em nossa produção literária, o que limita a aceitação de temas de outra natureza. A obra de Jorge Amado aborda os clichês da pobreza, mulheres, musicalidade e sexo, fatores que satisfazem o anseio do mercado internacional e garantem seu sucesso em todo o mundo.

Assim como Amado no exterior, os argentinos Jorge Luiz Borges e Julio Cortázar e o colombiano Gabriel Garcia Márquez estão entre os poucos sul-americanos com lugar garantido nas prateleiras brasileiras, traduzidos ou em espanhol. Os autores, todos vencedores do prêmio Nobel de Literatura, são as principais referências do Realismo Fantástico, movimento literário criado na América do Sul e celebrado em todo o planeta. Na mesma proporção que a produção brasileira não se limita aos temas de Amado, argentinos e colombianos reivindicam espaço além da corrente fantástica. “Existe vida na Colômbia depois de Garcia Márquez!”, exclama Héctor Abad, que enumera outros companheiros de literatura colombiana. “Nós temos, por exemplo, as poesias do movimento Nadaísta e a literatura escandalosa de Fernando Vallejo. Há uma novela colombiana dedicada ao Brasil, de Daniel Sampier Pizano, tradutor de Millôr Fernandes. E existem jovens já traduzidos para o português, como Santiago Gamboa e Juan Gabriel Vásquez”, enumera.

Sul-americanos no Brasil

O pouco interesse dos brasileiros pela literatura vizinha parece estar mudando aos poucos. “A presença da América Latina no mercado brasileiro é terrivelmente pequena, mas está melhorando e os autores que vêm para a Flip são exemplo disso. Todos eles ainda são de certa forma ‘novidades’ em seus países”, assinala Paulo Pires. “Ainda é pouco. Vamos ver se essas iniciativas prosperam”, completa. O professor de Produção Editorial da UFRJ, Mário Feijó, acrescenta que não basta aprender espanhol. “A falta de integração cultural está melhorando, mas precisamos que melhore muito mais. Minha filha estuda espanhol, e todas as referências culturais nos livros didáticos remetem à Espanha. As exceções que confirmam a regra abrem espaço para o México. Quem estuda para valer história e geografia dos países sul-americanos na escola? Os alunos não querem saber nem da Guerra do Paraguai”, afirma.

No ranking dos livros mais vendidos no Brasil na penúltima semana de abril, a categoria “Ficção” trazia 18 livros estrangeiros, todos de origem norte-americana ou européia, e apenas dois brasileiros. Na categoria “Não-ficção”, 10 livros eram traduções de outros idiomas e nenhum vinha do espanhol. “Talvez sejamos hipermétropes, vejamos bem de longe, mas mal de perto”, sugere Hector Abad.

 

Reportagem publicada originalmente na Revista Ocas” (nº77, maio/junho de 2011)

Um comentário sobre “Hermanos sudamericanos, uni-vos!”

  1. Ótimo texto. Mas Cortázar e Borges jamais ganharam um Nobel, o que é incompreensível, especialmente em se tratando de autores “universalistas”, cultos, bem relacionados.

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