
Diante da falta de resposta e de iniciativa (da oposição kirchnerista), o governo de Mauricio Macri continua demolindo passo a passo os direitos e as conquistas acumuladas nos últimos anos pelos setores populares, e aumentando a verdadeira chaga: a desigualdade entre os argentinos.
(Traduzi do espanhol o artigo abaixo, cujo título acima é de minha autoria. O autor é um jornalista e professor uruguaio que vive na Argentina).
NEM TUDO É A MESMA COISA (NO TODO ES LO MISMO)
Por Washington Uranga (do jornal argentino Página/12, edição impressa de 29/06/2016 – Tradução: Jadson Oliveira)
Tudo tem a ver com tudo… mas nem tudo é a mesma coisa (Todo tiene que ver con todo… pero no todo es lo mismo). Isto diz respeito à complexidade da vida, em primeiro lugar, das relações humanas e, certamente, da política. Mas como assinala Edgar Morin “a complexidade é uma palavra problema e não uma palavra solução”. Quando dizemos que algo é complexo assumimos que estamos diante dum desafio que talvez não cheguemos a compreender em sua totalidade, mas que deve ser afrontado, para levantar o véu, para desentranhá-lo e, se possível, para superá-lo.
Esta é, talvez, uma chave para analisar o momento político da Argentina e, sem exagerar, do mundo. Por isso a afirmação do começo: tudo tem a ver com tudo… mas nem tudo é a mesma coisa. Dizer isto seria simplesmente cair no erro de botar tudo no mesmo saco, desconhecer as particularidades, perder de vista a diferença entre o negativo e o positivo, misturar inocentes com pecadores.
Assim poderíamos assinalar que o mundo atravessa um momento de ressurgimento das políticas conservadoras. Uma manifestação disso é o resultado do recente referendo no Reino Unido para separar-se da União Europeia, um fato que também reforça as posições do conservadorismo britânico e alavanca o nacionalismo de direita de toda Europa. Assistimos absortos a possibilidade de que Donald Trump, alguém que em plena campanha se atreve a dizer que “eu poderia estar parado no meio da Quinta Avenida e disparar contra alguém, e não perderia nenhum eleitor”, possa aparecer no horizonte como possível presidente dos Estados Unidos. E a isso podemos agregar os fatos mais recentes em nossa própria vizinhança: o afastamento de Dilma no Brasil e o triunfo do direitista Pedro Pablo Kuczynski no Peru. E em casa (na Argentina), onde sofremos as políticas da Aliança Mudemos (Alianza Cambiemos) comandada pelo restaurador Mauricio Macri.
Há um contexto e um clima de época que trazem ares de direita e conservadores. Ainda que seria besteira deixar de advertir esta evidência, o erro consiste em pensar que tudo o que acontece é inevitável e que nada resta a fazer a não ser aceitar “a força do destino”.
Na maioria dos atores populares – organizações sociais e políticas, sindicatos, agrupações cidadãs de diversos tipos, também organismos religiosos com raízes na base social – é evidente a perplexidade e o desconcerto diante do cenário político. “Ninguém sabe como segurar a barra”, confessava um dirigente social com largas jornadas de luta nas costas. Muitos estão nas mesmas condições, com a sensação de “navegar à deriva”. Na hora de procurar os motivos alguns começam a refletir que o que agora se vive, ainda que tenha sua decantação nas eleições do ano anterior, tem raízes também em situações precedentes.
Não se discute que desde 10 de dezembro tudo se precipitou e se aprofundaram os problemas, mas é mais difícil olhar para trás e fazer revisões que permitam compreender precisamente a complexidade dos problemas. Isto é, por exemplo, valorizar em toda sua dimensão a força do adversário, dos inimigos, e assumir os erros próprios que facilitaram o avanço das forças que hoje conduzem o país. Na lista desses erros deveria incluir-se também não haver afrontado nunca, por deliberada decisão ou por incapacidade, uma profunda reforma do Estado. López (José López, ex-ministro de Cristina Kirchner, desmascarado em meados do mês passado como corrupto) é também fruto disso. Muitos se perguntam por que não se abordaram antes estes temas e a maioria das respostas aponta no sentido de que se pôs mais força em defender o já conquistado do que em chamar a atenção para o que faltava ou para o que estava errado.
Sem atentar para o que aconteceu antes a complexidade se converte numa palavra mágica, para simplificar o que não se pode explicar e, ao mesmo tempo, uma justificativa para a paralisia.
A Aliança Mudemos está no governo da Argentina favorecida por um clima de época. Mas também porque existem ladrões como José López, assim como pela incapacidade das forças políticas hoje opositoras (especialmente de seus dirigentes) de interpretar as novas demandas de grande parte da cidadania e pelas dificuldades do kirchnerismo, em particular para adaptar suas propostas políticas à nova realidade social estabelecida como resultado de sua própria gestão de governo. A falta de discernimento coletivo e de diálogo político maduro está na raiz da fragmentação atualmente vigente e que paralisa a política da principal oposição, mas também, com igual gravidade, de espaços tão vitais socialmente como o sindicalismo.
Sem nenhum constrangimento para contradizer todas as suas afirmações de campanha, o governo utiliza hoje todos os mecanismos de poder a seu alcance – muitos deles à margem mesmo da legalidade – para tentar nocautear definitivamente o kirchnerismo. Para isso conta também com aliados peronistas que além de sentir-se ideologicamente à vontade junto ao macrismo, fazem uso dos favores econômicos oriundos do poder de turno.
Tudo tem a ver com tudo… mas nem tudo é a mesma coisa. Uma indagatória judicial e até um processo não equivalem a uma condenação. Bem o sabe o presidente Macri, que assumiu o governo estando processado, como também estão atualmente vários de seus auxiliares. Está claro que a repetição judicial e midiática de notícias sobre procedimentos legais contra ex-auxiliares do governo anterior é suficiente para criar clima e desviar a atenção de outros problemas sociais e de medidas impopulares.
Nem todos os políticos são José López. Ademais de se saber se López é uma exceção ou se representa um tipo de ex-ministros, ele ou todos são sempre uma minoria dentro duma gestão e dum projeto político, cuja principal virtude foi melhorar a qualidade de vida da maioria e restituir direitos. São muito mais numerosos os políticos, os dirigentes e os ministros honestos que trabalharam e trabalham pelo bem da maioria. E em todo caso a corrupção não é privativa duma força política, e sim transversal ao sistema. A tal ponto que os que hoje estão no poder exibem obscenamente suas manobras de evasão ou de desvio de capitais como se se tratasse duma virtude ou dum ato de inteligência. Certo é que para isso contam com uma Justiça para a qual os Papeles de Panamá (Panama Papers) não são qualificados como corrupção e que vê apenas um lado enquanto faz vistas grossas para o outro; e com um sistema de meios de comunicação que atua como legitimador do relato oficial.
Cresce o número de dirigentes peronistas que isoladamente sustenta que o momento exige examinar criticamente a situação, mapear de novo para reconhecer velhos e futuros aliados, caracterizar o adversário sem subestimá-lo e entrecruzar todas as coordenadas que permitam um diagnóstico correto. Mas por enquanto a oposição como corpo, o peronismo em particular, carece de iniciativas firmes neste sentido. Não tem sido capaz de assimilar os golpes recebidos e até os mais ilustres e honestos parecem complexados como se finalmente aceitassem a pecha de que “todos são iguais a López”. Diante desta falta de resposta e de iniciativa, o governo da Aliança Mudemos continua demolindo passo a passo os direitos e as conquistas acumuladas nos últimos anos pelos setores populares, e aumentando a verdadeira chaga: a desigualdade entre os argentinos.
