Frente Democrática e Comitês Populares de Luta

Por Selvino Heck

A eleição de outubro será a eleição das nossas vidas. Será, com certeza, muito mais difícil que a primeira eleição direta para presidente depois da ditadura, em 1989, Lula presidente, que tive a honra de coordenar no Rio Grande do Sul, ou a eleição vitoriosa de 2002.

Agora, metade de maio de 2022, a quase 5 meses do processo eleitoral, fala-se todos os dias, em diferentes espaços, debates e análises, na possibilidade de haver um golpe e, portanto, sequer haver eleições em 2 de outubro. Luís Nassif escreve “Xadrez de como será o golpe na urna eletrônica” (Luís Nassif, www.jornalggn.com.br, 10.05.2022). Milícias digitais e suas fake news, milicianos e suas armas estão por toda parte pregando a guerra em todos os sentidos e não a paz.

Não são meras especulações. As falas recentes do presidente da República e de representantes da ultradireita brasileira vêm sinalizando, como em 1964 e outros tantos momentos da história brasileira, o rompimento da Constituição, o desrespeito aos resultados eleitorais e assim por diante. Para isso, defendem o povo armado. Sem ilusões, portanto. Todo cuidado é pouco nesta quadra da conjuntura.

Além disso, estão aí a fome, o desemprego, a miséria, a população em situação de rua amontoando-se nas ruas das cidades, com uma queda inédita em décadas do poder aquisitivo do salário mínimo, a inflação presente e crescente nos bolsos, tornando ainda mais incerto o quadro econômico e social, com todas as imprevisíveis consequências políticas.

O ódio, a intolerância, o preconceito aparecem cada vez mais na violência diária, com assassinatos de mulheres, de gente na rua, da população negra, de indígenas, de lideranças, do povo LGBTQIA+, em situações absurdas de uma sociedade doente.

E há uma guerra em curso, que parece ser lá longe, a milhares de quilômetros de distância. Mas não. A guerra está nas nossas casas com seu noticiário, com suas consequências e reflexos econômicos, sociais e políticos, e sua dose de ódio e intolerância, que se constroem na vida e na cabeça de muita gente e na sociedade.

Hoje, metade de maio de 2022, não é possível dizer qual o resultado eleitoral de outubro, ou sequer como vamos chegar em outubro, por mais que as pesquisas eleitorais dêem sinais de esperança. O que se sabe, com certeza: será necessária muita inteligência política, junto com muita tolerância, muito trabalho de base e mobilização para não ser surpreendido no meio do caminho e da travessia.

A elite escravocrata e conservadora, em geral apoiada e respaldada pela grande mídia, mantém sua visão ultraliberal na economia e sua aversão à democracia.

As Forças Armadas estão mais uma vez fugindo de seu papel constitucional, respaldando e ameaçando golpes e rompimento da democracia.

Dois acontecimentos recentes, entre outros tantos, resumem estes tempos, e a cada dia que passa tornam-se mais absurdos e incompreensíveis. Primeiro: o golpe e o impeachment da primeira mulher presidenta do Brasil Dilma Rousseff (basta rever o filme ´O Processo´). E a prisão, por 580 dias, do ex-presidente Lula, hoje absolvido e inocentado. Os dois acontecimentos e fatos foram apoiados pela elite brasileira conservadora, pela grande mídia e pelas Forças Armadas, até hoje sem nenhum arrependimento, pedido de desculpas ou autocrítica de quem os promoveu e sustentou.

É fundamental, numa conjuntura complexa como a atual, combinar e articular dois movimentos políticos: uma ampla Frente Democrática, que defenda a soberania e a democracia, e Comitês Populares de Luta que mobilizem e conscientizem a população e a sociedade das urgências do momento.

As democratas e os democratas, todas e todos, precisam unir-se em torno de princípios e valores básicos, como o fizeram nos anos 1980 na luta contra a ditadura, com as Diretas-Já e a construção da Constituinte que garantiu a Constituição Cidadã.

Os Comitês Populares de Luta acontecerão nas ruas, nas casas, nas comunidades, a partir das escolas, das igrejas, dos movimentos sociais, com apoio dos partidos políticos e de todas as brasileiras e brasileiras de boa vontade. Urgência urgentíssima, deverão ser milhares de Comitês Populares espalhados por todo Brasil. Freireanamente, ESPERANÇAR.

Uma Frente Democrática e Comitês Populares de Luta não se opõem neste momento da história brasileira. Não há tarefa maior na atual conjuntura para todas e todos as e os democratas, para todas e todos as e os militantes das boas causas, para todas e todos as educadoras e educadores populares do que engajar-se de corpo e alma no processo eleitoral e construir uma Frente Democrática e Comitês Populares de Luta.

Como diria Paulo Freire, e escreveu na Pedagogia da Indignação: hora de DENÚNCIA, ANÚNCIO, PROFECIA, UTOPIA, SONHO.

Edição: Katia Marko

Fonte: Brasil de Fato

(13/05/2022)

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