Eternização

Faleceu Ray Bradbury. Las doradas manzanas del sol. El hombre lustrado. Crónicas Marcianas. Fahrenheit 451. Lembrava de quando vira este filme em Mendoza, tantos anos atrás. Bradbury escrevera também Zen en el arte de escribir. Julio Cortázar, dizem que escrevia como quem desenha na areia. Não sei se por motivo da notícia da partida de Ray Bradbury, um dos escritores que me fascinara na minha adolescência, ou por que, por que sim ou por que não, por isto ou por aquilo, o caso é que desde ontem, comecei a escrever o que talvez seja a mais louca da minhas aventuras literárias.

Escrever um relato que fosse o relato que unisse todas as leituras da minha vida. Uma escada em espiral começou a se formar. Talvez já tenha feito isto (com certeza) aqui e ali, em várias das minhas crônicas. Mas agora, era como se pudesse, tal como em As mil e uma noites, ir costurando, dia a dia, aos poucos ou aos muitos, o relato unificado da minha incursão literária. Via essa escada, ascendente e descendente. Ouvia o ranger das madeiras. Lovecraft, Nas montanhas da loucura, Sonhos na casa da bruxa, Ciclo de aventuras oníricas de Randolph Carter. Graciliano Ramos, Angústia, Infância, São Bernardo, Insônia.

Hoje de manhã fui à praia com a minha esposa, por uma dessas ruas que, perpendiculares à beira mar, vão dar ao mar. Não sei se por coincidência ou não, quem poderia saber? ela me comenta umas frases de Rubem Alves acerca da eternização das pessoas que partem cedo, aquelas que se foram quando já tinham ganho um lugar imorredouro no sentimento dos demais. Não sei se a ideia era esta exatamente, mas é mais ou menos o que me ficou. Também não sei se por sugestão nisto de ir vivendo aos poucos cada vez mais no mundo literário, nos mundos criados na literatura e pela literatura, a questão é que de repente fui sentindo, no decorrer do dia, que eu estava de fato, vivendo no mundo literário.

Eram ruas criadas por Graciliano Ramos em Angústia, ou paralelepípedos narrados por Cortázar nas Histórias de Cronópios e de Famas. Pensara que gostaria de passar o dia, que estava (e ainda está) nublado e chuvoso, em casa, talvez lendo ou escrevendo, como agora, ou então, também como agora, partilhando com quem isto esteja lendo, o que seja isto de ir nos diluindo aos poucos, no literário, no poético, no estético, na beleza do mundo e na sua maravilha.

E a gente pode se esgueirar para esse mundo a qualquer momento, não precisa estar lendo ou escrevendo. Pode estar, como estive de manhã, há pouco, na casa da minha sogra na Cidade Verde, na sala, sentado, e de repente como que senti que ia indo para lá. É um remanso, um descanso, eternização.

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