Estes dias que dão o que pensar

Estes dias que dão o que pensar

Vou confessar uma coisa: neste momento, às vezes me vem uma tentação que antes nunca senti e que não corresponde ao meu modo de ser. Sinto-me tentado a viajar para um local sem internet nem telefone e, assim, tomar tempo para enfrentar isso que em seu diário nos anos 80, o Pedro Casaldáliga chamava “estes dias que dão o que pensar”.

É claro que, para quem é como sou, acontecerá o que ocorreu quando, conforme Marcos, Jesus chamou os discípulos para descansarem em um lugar retirado (Mc 6, 30ss). Quando chegaram no tal lugar do retiro, já encontraram a multidão que os esperava.

Mas, em minha oração da madrugada de vigília pergunto a Deus por que? E descubro que acordo de manhã com medo de ligar telefone, de ler os e-mails e ver o zap. Quem partiu hoje e quem está para partir amanhã. Quem será o próximo e o que dizer ou como reagir…

Ontem foi um amigo querido – Frederico Arruda – Fred – ou o chamávamos de Ferinha – com o qual morei quatro ou cinco anos na Casa da Fraternidade (quando éramos jovens). E todo dia é assim. Até quando, meu Deus?

Nestes dias, tento seguir, à medida que posso, as atividades virtuais do Fórum Social Mundial e dentro deste do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Servem um pouco para nos fazer olhar com esperança para um amanhã no qual não esperaremos o sol nascer. Vamos tentar apressar o amanhecer.

E de repente encontro em alguma das mensagens que me mandam este poema escrito há mais de 200 anos e em um contexto bem diferente e me sinto como se o tivesse escrevendo agora:

Quando a tempestade passar,

as estradas se amansarem,

E formos sobreviventes

de um naufrágio coletivo,

Com o coração choroso

e o destino abençoado

Nós nos sentiremos bem-aventurados

Só por estarmos vivos.

E nós daremos um abraço ao primeiro desconhecido

E elogiaremos a sorte de manter um amigo.

E aí nós vamos lembrar tudo aquilo que perdemos

e de uma vez aprenderemos tudo o que não aprendemos.

Não teremos mais inveja pois todos sofreram.

Não teremos mais o coração endurecido

Seremos todos mais compassivos.

Valerá mais o que é de todos

do  que aquilo que nunca consegui.

Seremos mais generosos

E muito mais comprometidos

 Entenderemos o quão frágeis somos,

e o que significa estarmos vivos!

Vamos sentir empatia por quem está

e também por quem se foi.

Sentiremos falta do velho que pedia esmola no mercado,

que nós nunca  soubemos o nome

e sempre esteve ali ao nosso lado.

E talvez o velho pobre fosse Deus disfarçado…

Mas você nunca perguntou o nome dele

Porque  estava com pressa…

 E tudo será milagre! E tudo será um legado

E a vida que ganhamos será respeitada!

Quando a tempestade passar

Eu te peço Deus, com tristeza ,

Que você nos torne melhores.

como você “nos” sonhou.

(K. O ‘ Meara – Poema escrito durante a epidemia de peste em 1800)

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