Uma notícia tocante veio a público
Pelo papa Francisco divulgada
Justo à hora do Angelus da jornada
Um mendigo, de frio, viera à “lona”
Ali próximo à Praça, àquela zona
Como pode justo ali ocorrer tal?
Para a Cúria um incômodo vendaval
Que faziam os clérigos reinois
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Dia vinte do mês inda corrente
Noticia a imprensa italiana
Um registro do qual ninguém se ufana
Eis que um corpo mendigo – pobre gente
Fora achado de frio, padecente
Se chamava Edwin – golpe letal
Aos 46, cessa o ideal
Isto tolhe inclusive nossa voz
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Edwin, cidadão nigeriano
Imigrante jogado em Roma eterna
Mais abrigo teria em caverna
Que no gélido solo do Vaticano
Neste mundo de luxo e tão insano
Onde muito se diz, pouco real
Se promete o bem, e faz-se mal
Curiais jamais sofrem vida atroz
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Corajosa, humilde e transparente
Atitude do Papa, em divulgar
Ante o fato, assumindo seu lugar
Solidário a Edwin e sua gente
Só em Roma, mais oito, recentemente
A política adotada é banal
De Jesus tão distante do ideal
É urgente Clamar, em alta voz
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Sua vida constante risco encerra
Ou naufragam no mar, fugindo à guerra
Ou sucumbem na Europa, marginais
Ressalvando acolhidas fraternais
Desemprego lhes sobra, e como tal,
Falta pão, sem trabalho, sem teto, vida normal (?!)
Acumulam-se “contra”, faltam prós
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
De novembro pra cá, morreram dez
Só de frio, no âmbito de Roma
Pois o culto a Mamon a tantos doma
Da mensagem cristã, eis um revés
Nada disso Jesus pregou nem fez
O efeito devasta e é letal
Onde reina o império do capital
Dos humanos ele é o grande algoz
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Sobre o Papa Gregório – século seis
Conta o Papa Francisco, impactado
Quando um pobre do frio é tragado
Se suspendam as missas, desta vez
E qual Sexta Sagrada, assim fareis
Lembra Cristo na cruz, e como tal
De Jesus esta vítima é sinal
Que a lição recolhamos, eu e vós
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
Edwin representa nossas gentes
Índios, negros, há séculos reduzidos
Ainda hoje, impactam seus gemidos
Solidários, ouvimos: são pungentes
São ouvidos em vários continentes
Em regime de feição colonial
O escravismo dá origem ao Capital
Provocando um monstro vil, feroz
BEM MAIS FRIO QUE O FRIO QUE BATE EM NÓS
É A FRIEZA DO MUNDO OCIDENTAL
João Pessoa, 25 de janeiro de 2021

Dizer muito com poucas palavras, eis o que julgo uma das mais valiosas virtudes da arte de dizer, seja na comunicação verbal ou escrita. Este seu texto, Alder, têm ainda outros méritos que me alegra muito poder enumerar. Sensibilidade solidária em primeiro lugar. Atenção às pessoas como este migrante cujo destino atroz é relembrado que são o retrato vivo de um sistema para o qual a vida nada vale. Em mensagem recente o papa Francisco nos convoca para uma comunicação em primeira pessoa do singular. Priorizar a experiência ao nos comunicarmos. Numa sociedade em que a tendência é a de dissolver a existência na massificação que desfaz os contornos únicos e irrepetíveis da vida de cada vivente, o seu texto, bem como a exortação papal a que me refiro, e a mirada poética que refaz e resgata o instante, se fundem em uma unidade única que promove a personalização em todas as frentes. Educar a sensiblidade. Promover a humanização desde o cotidiano. Ecos que seguem…