Era Carnaval

CDLs Brasil 2024

Botei minha fantasia, que há muito tempo estava no armário com cheiro de mofo. Era do carnaval em que conheci Dairinho; eu estava com dezesseis anos. Um amor de carnaval que deixou saudades. Sacudi a fantasia, coloquei-a no sol e resolvi me enfeitar para sair à rua e aproveitar. Queria muito relembrar e, quem sabe, reencontrar Dairinho.

No dia em que o conheci, estava com quatro amigas. Fizemos um bloco imitando As Frenéticas. Cada uma mais caracterizada que a outra, saímos juntas para a avenida. Naquela época, íamos todos atrás da banda, jogando confete, spray de espuma e lança-perfume uns nos outros. Dairinho estava em cima de uma caminhonete com seus amigos e, assim que me viu, não tirou os olhos de mim.

Eu, tímida, fazia de conta que não estava vendo, até que ele desceu da caminhonete e pegou na minha mão. Assustei-me, mas não disse nada; dei um sorriso e continuamos brincando. Com a música alta, não nos falávamos, só cantávamos e sorríamos. As amigas me olhavam, mas não havia como conversar. E assim foi até o anoitecer, quando Dairinho se apresentou e disse que morava em outra cidade e que tinha vindo passar o carnaval com os amigos. Como já era noite, tivemos que nos despedir e combinamos de nos encontrar no dia seguinte, que seria o último dia de carnaval, no mesmo local e horário.

Quando voltávamos para casa, as amigas queriam saber como tinha sido, quem ele era, como eu estava me sentindo, mas só soube dizer que havia gostado e que ele era bonito e educado.

Passei a noite pensando nele e em como tinham sido bons aqueles momentos. Quando consegui pegar no sono, o dia já estava clareando.

Acordei perto das onze horas com minha mãe me chamando. Tomei café com ela me perguntando sobre o carnaval, mas não contei o que havia acontecido, pois meu pai era bravo e não deixaria que eu fosse novamente, se soubesse. Lá pelas quatro horas, minhas amigas viriam me buscar e, dessa vez, iríamos fantasiadas de marinheiras. Arrumadas, saímos para o mesmo local. Ao chegarmos, já havia muita gente e comecei a procurar por Dairinho. De repente, vi-o conversando com uma menina e parecia bem interessado. Ele fez de conta que não me viu e foi andando com ela até desaparecer na multidão.

Um pouco decepcionada, procurei não me deixar abater e fui brincando com as amigas. Passado um tempo, ele chegou por trás e pegou na minha cintura, assustando-me. Virei disposta a brigar, mas, quando o vi, soltei-me dele e saí andando. Ele segurou minha mão e disse que estava me procurando. Sem querer discutir, resolvi aproveitar o carnaval, pois estava bom estar com ele. Brincamos bastante, tiramos até uma foto com a máquina de um colega dele. No final, conseguimos ficar a sós e ele me deu o meu primeiro beijo, e minhas pernas tremeram ao sentir seus lábios, aquela boca deliciosa. Ele acariciava meus cabelos e não parava de beijar meu rosto e meus lábios. Foram os melhores beijos da minha vida. Depois de um tempo, nos despedimos, e ele viajou no dia seguinte dizendo que me escreveria, mas nunca mais mandou notícias.

Seis anos depois, resolvi colocar a mesma fantasia e ir ao mesmo local para ver se o encontraria. Quem sabe o destino nos faria reencontrar? Fui cheia de lembranças e acreditando na força do universo, cheia de saudades daquele instante; porém, tudo estava diferente e ele não estava lá.

Anos mais tarde, nos encontramos na internet. Ele se lembrou de mim, disse que não havia me esquecido, mas nossas vidas não eram mais as mesmas. Mandou-me aquela foto que havíamos tirado, da qual eu nem lembrava, e que ele havia guardado. Ficamos amigos, falávamos sempre, até fazendo suposições sobre como teria sido se tivéssemos ficado juntos.

Uma amizade agradável, cheia de sonhos. Porém, poucos anos depois, ele morreu de câncer, mas nunca o esqueci. Ele se foi e deixou comigo o sabor inesquecível do primeiro amor e do primeiro beijo.

Descanse em paz…

Era carnaval.

Ana Amélia Guimarães
meliaguima@gmail.com

2 comentários sobre “Era Carnaval”

  1. Que relato emocionante e delicado. A sua escrita consegue transportar a gente diretamente para o calor daquela avenida, entre o cheiro de confete e o frio na barriga do primeiro beijo. É uma crônica linda sobre como o tempo transforma as paixões em saudade, mas mantém a essência do que fomos.Bravo, querida escritora

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