Episódios

Por Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)

…. O tédio dos [radidiotas?] e dos [aerochatos?]

De todo o conseguimento quantitativo desta vida sem qualidade,

A náusea de ser contemporâneo de mim mesmo

E a ânsia de novo novo, de certo verdadeiro,

De fonte, de começo, de origem.

 

A pedra no anel errado no teu dedo

Como fulgura na minha memória,

Ó pobre esfinge da aristocracia burguesa conversada em viagem!

Que vagos amores escondias na tua elegância verdadeira

Tão falsos, pobre iludida lúcida,

Encontrada a bordo desse navio, como de todos os navios!

 

Tomavas cocaína por superioridade ensinada,

Rias dos velhos maçadores menos maçadores que tu,

Pobre criança órfã de mais que pai e mãe,

Pobre-diabo meio-flapper, tão [transtransviada?]!

E eu, o moderno que o não sou, eu que consinto

Nos arredores da minha sensibilidade as tendas dos ciganos,

De toda a modernidade papel-moeda;

Eu, incongruente e sem esperanças,

Passageiro como tu no navio, mas mais passageiro que tu,

Porque onde tu és certa eu sou incerto,

Onde tu sabes o que és eu não sei o que sou e sei que não sabes o que és,

E entre as danças tocadas ad nauseam pela banda de bordo

Debruço-me sobre o mar nocturno e tenho saudades de mim.

 

Que fiz eu da vida?

Que fiz eu do que queria fazer da vida?

Que fiz do que podia ter feito da vida?

Serei eu como tu, ó viajante do Anel Anafrodisíaco?

Olho-te sem te distinguir da matéria amorfa das coisas

E rio no fundo do meu pensamento oceânico e vazio.

 

No quintal da minha casa provinciana e pequena —

Casa como a que têm milhões não como eu no mundo —

Deve haver paz a esta hora, sem mim.

Mas em mim é que nunca haverá paz,

Nem com que se faça a paz,

Nem com que se imagine a paz…

Porque então sorrio eu de ti, viajante superfina?

 

Ó pobre água-de-Colónia da melhor qualidade,

Ó perfume moderno do melhor gosto, em frasco de feitio,

Meu pobre amor que não amo caricatural e bonita!

Que texto para um sermão o que não és!

Que poemas não faria um poeta verdadeiro sem pensar em ti!

 

Mas a banda de bordo estruge e acaba…

E o ritmo do mar homérico trepa por cima do meu cérebro —

Do velho mar homérico, ó selvagem deste cérebro grego,

Com penas na cabeça da alma,

Com argolas no nariz da sensualidade,

E com consciência de meio-manequim de ter aspecto no mundo.

 

Mas o facto é que a banda de bordo cessa,

E eu verifico

Que pensei em ti enquanto durou a banda de bordo.

No fundo somos todos

Românticos,

Vergonhosamente românticos

E o mar continua, agitado e calmo,

Servo sempre da atenção severa da lua,

Como, aliás, o sorriso com que me interrogo

E olho para o céu sem metafísica e sem ti… Dor de corno…

Fonte:

Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

Arquivo Pessoa

 

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