Entrevista com Thaís Cavalcante, coordenadora do Jornal comunitário O CIDADÃO

Há 15 anos, jornal comunitário da Favela da Maré retrata a realidade do povo.

Por Camila Araújo, do Vozes das Comunidades

Os grandes veículos de comunicação, em sua maioria, não dão vez para a favela – seja omitindo fatos, distorcendo informações, relatando-as da maneira que lhes interessa. O discurso mais recorrente relacionado à favela é o da violência e do tráfico, além da supervalorização do crime. O morador de favela é visto como criminoso e ilegal. Há ainda as abordagens românticas da favela como um bom lugar de se viver, com o discurso fácil de que para ter ascensão social, é só querer, ignorando a complexidade do processo.

Por outro lado, a imprensa alternativa existe como opção de leitura, pelo conteúdo que oferece e pelo tipo de abordagem, não alinhados à grande mídia. Apesar disso, nem sempre atende às demandas dos grupos populares de uma comunidade, cada qual com suas especificidades e limitações.

Segundo estudos realizados sobre conceitos de comunicação popular, alternativa e comunitária, de Cicilia M. Krohling Peruzzo doutora em comunicação da Universidade de São Paulo (USP), o canal de expressão de uma comunidade é a comunicação comunitária. É por meio dela que os próprios indivíduos podem manifestar seus interesses comuns e suas necessidades mais urgentes. É um instrumento de prestação de serviços e formação do cidadão, sempre com a preocupação de estar em sintonia com os temas da realidade local.

Pensando nisso, Olhar Diferente buscou a experiência de um jornal comunitário em uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro, o conjunto de favelas da Maré. O Cidadão é um projeto desenvolvido pela organização não governamental CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré). O jornal foi fundado em 1999 e é feito por moradores com o fim de ampliar e consolidar o direito básico à comunicação. Segundo a ONG, o projeto tem como o objetivo principal a democratização do acesso a veículos de comunicação, possibilitando que moradores da Maré sejam atores no processo de produção de novos discursos sobre seu espaço de vida.

Uma das repórteres, Thaís Cavalcante foi reconhecida pelo STJ como jornalista, a partir de suas experiências no jornal comunitário. Vamos conhecer essa história.

Conte sobre você: quantos anos tem, onde mora e o que faz atualmente? 

Sou Thaís Cavalcante, tenho 20 anos e atualmente faço pré-vestibular comunitário, na Favela da Maré. Sou cria da favela, sempre morei na Nova Holanda. Entrei no mundo da Comunicação Comunitária há 2 anos. Hoje atuo como repórter e coordenadora do Jornal O Cidadão e colaboro com a Rádio Maré.

 O que fazia da vida antes de entrar para o cidadão?

Cantava no coral de uma Igreja Católica, próximo de casa. Sempre gostei muito de música.
Estudava também o ensino médio, mas ainda não sabia que faculdade cursar e fazia um cursinho de inglês básico em uma ONG na Maré.

 O que te levou a participar do jornal?

Depois que li dois livros sobre Jornalismo e história de jornalistas, meu interesse cresceu. Ainda sim eu não sabia que caminho seguir. Minha irmã (formada em Contabilidade) sugeriu para que eu fizesse parte do Jornal O Cidadão, mas eu considerava uma ideia muito distante, não achei que fossem me aceitar (por não ter experiência).

Poucas semanas depois, divulgaram o I Curso de Comunicação Comunitária, onde encontrei a oportunidade perfeita para conhecer mais da minha favela (que era um assunto onde eu não tinha interesse pois só ouvia sobre violência na televisão). Além da Maré, encontrei o Jornalismo, o comunitário, o popular, o favelado. A partir de então, tudo o que eu ouvia e aprendia só me apaixonava mais e me dava um olhar crítico sobre o mundo que eu vivia, mas não via. O amor pela leitura e escrita cresceu, e a decisão de estudar e trabalhar com Jornalismo se solidificou. Mesmo sendo a mais nova da equipe, comecei como repórter e agora estou Coordenando O Cidadão e, tenho muito orgulho disso!

Pela sua experiência no jornal O Cidadão, qual a importância da comunicação comunitária para a favela?

É quase inacreditável o quão importante a comunicação comunitária é necessária dentro do seu território favelado. O morador gosta de ver sua realidade, sua cultura, sua história, sua imagem sendo retratada ali.

É um tipo de mídia livre, de dentro para dentro: moradores escrevendo para os próprios moradores. Sem maquiagem, sem palavras complicadas, sem futilidade. As pessoas se identificam com o Jornal da favela. Que reconhece o que realmente tem de bom na rotina e sabe retratar isso. A comunicação comunitária fala o problema com olhares diversos, reais. Qualquer um pode participar, opinar, sugerir e criticar. É de forma horizontal. Mas por não ser algo comercial, há uma dificuldade na verba para sua produção e realização. Seja em qualquer mídia comunitária. Porém, voluntários querendo soltar sua voz, isso nunca vai faltar.

Você foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho como jornalista. O que isso significou pra você?

A partir do O Cidadão, o mundo da comunicação se abriu para mim. Também participo da Rádio Maré, desde 2012. O diretor, (que é advogado e não jornalista formado) buscou sobre esse reconhecimento no MTB. Consegui através da minha experiência com o Jornal impresso (O Cidadão) e a atuação na Rádio Maré em noticiário ao vivo, o reconhecimento de ser Jornalista. Fiquei muito feliz, me senti valorizada por tudo o que já conheci, trabalhei e vivenciei nesse pouco tempo de mudança. Mesmo sem esse título, eu já me considerava Jornalista, pois fazia trabalhos que pessoas formadas fazem: escrever matéria, entrevistar, revisar texto, fotografar, editar, atuar ao vivo noticiando, entre outras coisas.

Não acho que o Jornalismo tenha se desvalorizado por causa disso. Já ouvi opiniões que não concordam com esse Projeto de lei, mas quando você faz o seu trabalho, deve ser legitimado por isso. E mesmo assim, os jornalistas formados continuam tendo mais prioridade, privilégios etc. Preconceitos acontecem, mas o importante é que sei o que faço e amo! Apesar de todas as dificuldades. Espero em breve poder cursar a faculdade e ter uma formação mais teórica, pois na prática aprendo trabalhando!

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