
Sem confirmação de vida ou morte, a família e amigos vivem um “luto ambíguo” que mistura esperança, medo e culpa.
Há uns 10 dias, Vitoria Barreto, uma sobrinha que estava em Londres organizando sua inscrição para fazer doutorado em psicologia social e criar um polo formador em terapia comunitária na Inglaterra, desapareceu. Sua ausência das redes sociais e do convívio de sempre abriu um buraco de silêncio — um tipo de vazio que pesa no peito e muda o ritmo de quem a procura com o pensamento, a todo instante.
O que mais machuca é não ter certeza nenhuma, é procurar sinais e não encontrar respostas. Não saber onde está — se foi sequestrada, se sofreu algum acidente ou se buscou um refúgio tranquilo, longe dos ruídos das grandes cidades, e acabou não avisando — dá medo, dá angústia e deixa todos nós inquietos, pedindo, em silêncio, que ela esteja bem.
Essa ausência de respostas não apenas dói; ela reorganiza a forma como a família pensa, sente e toma decisões. Sem confirmação de vida ou morte, a família e amigos, vivem um “luto ambíguo” que mistura esperança, medo e culpa.
O que é o “luto ambíguo”?
Psicólogos chamam de luto ambíguo a experiência de perder alguém sem ter certeza do que aconteceu. Diferentemente de um luto após morte confirmada — em que, apesar da dor, existem rituais, despedidas e uma realidade incontornável —, o desaparecimento mantém a família num estado de suspensão.
É uma espécie de “porta entreaberta”: não se consegue fechar o ciclo porque sempre há a possibilidade de reencontro. Ao mesmo tempo, também não se consegue viver plenamente como antes, porque cada notícia, ligação desconhecida ou informação nas redes pode parecer um sinal.
Ansiedade, culpa e hipervigilância: reações frequentes
Entre os efeitos mais comuns está a ansiedade. Muitos familiares entram em hipervigilância: passam a observar carros que diminuem a velocidade na rua, a checar notificações a cada minuto, a revisitar locais, a ligar para hospitais e conhecidos, a percorrer grupos de mensagens e perfis de “achados e perdidos”. O cérebro tenta compensar a falta de informação ampliando a atenção a qualquer detalhe.
O problema é que esse estado de alerta constante cobra um preço: a pessoa se esgota, dorme mal, com dificuldade de se concentrar em tarefas simples.
Outro componente frequente é a ruminação — pensamentos que se repetem como um disco arranhado. “E se eu tivesse buscado mais cedo?”, “E se eu tivesse proibido de sair?”, “E se eu tivesse atendido aquela ligação?”. A mente tenta reconstruir a linha do tempo para encontrar uma explicação e, sobretudo, recuperar uma sensação de controle. Daí nasce também a culpa, mesmo quando não há responsabilidade real: em situações de incerteza extrema, culpar-se pode parecer mais suportável do que aceitar que algo grave pode ter acontecido sem que fosse possível impedir.

Doutor em Psiquiatria e Antropologia. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social. Criador da Terapia Comunitária Integrativa. Autor de vários livros. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155674496013599.
