
Longe de colocar sobre professores e gestores a responsabilidade de resolver as consequências diretas e indiretas da chacina, é preciso falar sobre o ocorrido.
Rafael Silva / Nexo Jornal, 31 de outubro de 2025
Passava um pouco das 14h quando as primeiras notícias começaram a circular no WhatsApp e nos corredores escolares. Falava-se em 64 mortos na operação (hoje, quando escrevo, esse número chega a 121), e as principais vias de acesso da cidade estavam bloqueadas.
O território escolar em que atuo fica em uma área nobre do Rio de Janeiro, aonde os efeitos da tragédia humanitária e dos fechamentos não chegaram. É preciso dizer que não apenas ontem, mas na maioria dos dias, a desigualdade social carioca e brasileira fez seu trabalho: a bolha social da classe média e média alta seguiu quase intacta.
Na escola, professores e funcionários comentavam, assustados, as notícias que chegavam. Havia muito boato, mas também muita verdade: a cidade — ou boa parte dela — estava parada. Quem morava longe começou a pensar em como voltar para casa ou onde dormir até que tudo se acalmasse.
Não demorou para a notícia chegar aos alunos. Ela se espalhou rapidamente. Com medo, muitos não sabiam o que fazer, nem se os pais conseguiriam buscá-los. Parte das famílias, de fato, não chegou no horário habitual. Funcionários que moravam mais perto ficaram na escola até as 19h, acolhendo os alunos.
E é importante dizer: eles não são, nem de longe, as maiores vítimas dessa tragédia, mas podem fazer parte da solução.
Sete em cada dez moradores de favelas cariocas são negros e convivem com a rotina de operações policiais. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), essas mesmas pessoas percorrem trajetórias mais longas e dependem de meios de transporte menos eficientes, o que as tornou, novamente, as mais afetadas pela paralisia da cidade.
Entre os mortos, a maioria é negra. As imagens que circulam — corpos no asfalto, parentes chorando em desespero — revelam uma dor que o país insiste em naturalizar. Quando o sofrimento de famílias negras é tratado como dano colateral, reafirma-se o pacto colonial e racial que estrutura o Brasil: a vida negra segue sendo tratada como descartável.
Seja na demora e superlotação do transporte diário, na ausência de saneamento básico em comunidades como Alemão e Penha, ou nas cenas brutais de violência estatal, vemos a materialização de uma política que controla quem vive com dignidade e quem morre sob a justificativa da ordem. Aqui, vale retomar a leitura de Sueli Carneiro, para quem o racismo à brasileira articula biopoder — o poder de gerir a vida — com práticas de morte seletiva. O que se vende como política de segurança é, na verdade, a administração da vulnerabilidade e da eliminação de sujeitos racializados pelo Estado.
Não há como dissociar a violência do racismo estrutural. Quando uma operação policial se torna a mais letal da história e encarna o conceito de necropolítica, de Achille Mbembe, fica evidente que o alvo segue o mesmo: corpos negros, pobres e periféricos.
Diante desse trauma coletivo, especialmente para alunos que vivem e professores que atuam em comunidades, a escola se torna um território de dor e medo, mas pode ser também um espaço de escuta, elaboração e resistência.
Longe de colocar sobre professores e gestores a responsabilidade de resolver as consequências diretas e indiretas da chacina, é preciso falar sobre o ocorrido. O silêncio não protege, ele distorce a realidade e alimenta discursos autoritários que legitimam a violência e reafirmam a subalternização de corpos negros.
Rodas de conversa, assembleias estudantis e práticas de escuta ativa são caminhos potentes para construir acolhimento, afeto, solidariedade e cura. Protocolos de cuidado emocional são essenciais para estudantes e professores, que muitas vezes acolhem a dor dos alunos enquanto lidam com a própria e a sobrecarga do trabalho.
Ao mesmo tempo, é necessário planejar protocolos de proteção física: antecipação de saídas, cancelamento de aulas e medidas de segurança para estudantes e profissionais de educação em dias de operação policial.
Precisamos educar para a vida em um país que insiste em naturalizar e comemorar a morte, especialmente a morte de pessoas negras.
É hora de olhar para o currículo e discutir as questões humanitárias, históricas e políticas que atravessam o momento e marcam o país: “olha quem morre, então veja você quem mata”, como diz a letra de “Negro drama” dos Racionais MC’s, escrita nos anos 90, mas infelizmente atual.
A dor pode alimentar ódio, mas também pode ser o terreno onde cultivamos o pensamento crítico e a justiça social. É aqui que o medo vira palavra, a dor vira consciência e o trauma vira resistência.
Como homem negro, de origem pobre e educador, sei o peso que o corpo negro carrega em um país onde ele ainda é sinônimo de suspeita. Olho para aquelas pessoas e vejo indivíduos com fenótipo e trajetórias familiares que tiveram pontos de partida parecidos com os meus, mas atravessamentos diversos os levaram a um fim diferente e doloroso.
A educação antirracista é central para desarmar estereótipos, desconstruir imagens de subalternidade, desfazer preconceitos e afirmar o óbvio: nossas crianças negras merecem viver, aprender em paz e sonhar com dias melhores.
Nesses momentos, muitas crianças vivenciam aquilo que Neusa Santos Souza chamou de processo de “tornar-se negro”: entender que não são brancas, reconhecer o racismo e, a partir daí, elaborar a resistência e estratégias de empoderamento. É preciso racializar o debate, resgatar memórias negras e projetar existências possíveis.
Por meio da Educação das Relações Étnico-Raciais e da Educação para os Direitos Humanos e Cidadania, podemos construir representações de vida, dignidade e futuro, rompendo com o imaginário que liga corpos negros à dor e comunidades carentes à pobreza.
A escola sozinha não resolverá tudo. Mas, como nos lembra bell hooks, “ensinar é um ato de esperança e de imaginação radical”.
Precisamos educar para a vida em um país que insiste em naturalizar e comemorar a morte, especialmente a morte de pessoas negras.
Rafael Silva é historiador, com mestrado em história social da cultura e especialização em educação das relações étnico-raciais. Atua como diretor escolar, palestrante e professor na educação básica e superior.
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