Duas Cidades e Um Amor

Imagem gerada por IA (Dreamina)

Nossa história se passa no interior do Nordeste, em duas cidades-irmãs, cujo nome de uma é de origem tupi e a outra seu significado. Essas cidades fazem a divisa estadual passando no meio de um trecho urbano como se fossem uma só, com histórias ligadas aos indígenas Cariris, conhecidas pela forte conexão cultural e geográfica, e muitas brigas por terras.

Assim também são os seus cemitérios, um em frente ao outro.

Faustino, jovem rapaz de família abastada, possuía um grande amor, Raíza, que era do lado de lá. Suas famílias tinham vários desafetos, viviam brigando e impediam o namoro dos dois.

O pai de Raíza, de origem simples, herdou uma fazenda de seu avô, que possuía várias pederneiras, anteriormente fontes de riqueza natural, que o pai do rapaz afirmava que certa parte pertencia à sua família. O velho era um fazendeiro dos tempos dos coronéis e não aceitava perder. Volta e meia colocava cercas na divisa das terras ditas dele, e vinha o outro com o trator e as derrubava.

Raiza e Faustino, apaixonados, não se importavam com a briga dos pais, queriam viver o amor que tinham um pelo o outro, e viram nos Cemitérios, os locais onde poderiam se encontrar para namorar sem serem incomodados. Ela falava que ia rezar pela mãe que morrera de parto e, ele, que ia orar pela irmã que perdera quando criança.

Todas as tardes eles saiam e davam um jeito de irem, ora no cemitério de cá, ora no cemitério de lá.

Os coveiros tudo viam e ficavam calados, eram as testemunhas, além das almas repousantes.

Certo dia, o Coronel resolveu seguir o filho e o pegou com Raíza em frente ao túmulo da irmã. Furioso, sacou uma arma e disse que com ela o filho dele não ficaria e acabou dando vários tiros, terminando com a vida dos dois.

Foi um horror na cidade. As famílias enlouquecidas não se conformaram com a perda dos jovens. O Coronel se deu conta da barbaridade que havia cometido, teve um enfarto e ficou paralisado em cima de uma cama por muitos anos.

A família de Raíza jurou vingança e a cidade inteira se comoveu nos velórios.

Dois caixões, cada um com suas famílias e amigos, foram enterrados no mesmo dia e hora, no cemitério das suas respectivas cidades, um frente ao outro.

Essas duas almas levaram seu amor além da vida. Todas as noites, enquanto todos dormem, eles se encontram, passeiam livres de mãos dadas pelas cidades, sentam nos bancos das praças, visitam as igrejas, andam nas ruas, dançam, namoram e voltam para a morada eterna.

Tem gente que afirma já tê-los visto.

Ana Amelia Guimarães
meliaguima@gmail.com

4 comentários sobre “Duas Cidades e Um Amor”

  1. Impossível não ligar esse conto ambientado em um ambiente regional e rural à história de amor mundialmente conhecida de Romeu e Julieta. Felizmente aqui após a tragédia os jovens enamorados se libertaram do ódio de suas famílias, enquanto os que praticaram o mal sofreram as consequências em seu corpo e em sua mente. Um texto forte, trágico, mas que tem lições a nos ensinar. Parabéns, Ana Amélia.

  2. O conto lembra que a intolerância e as disputas por “terras e cercas” são efêmeras, mas o afeto e a memória permanecem. No interior do Nordeste, onde a linha entre o real e o sobrenatural é tênue, eles deixaram de ser vítimas da violência para se tornarem os guardiões românticos de um povo. Ana Amélia seu conto tbm me faz recordar o q minha mãe dizia das disputas por terras na família dela , onde sua irmã chegou a perder um olho num tiroteio o q fez meu avô desistir de tudo e fugir para João Pessoa ,pobre , mas com a família em segurança. Assim me contaram , mas no interior quem conta um conto aumenta ou diminui dois !
    Parabéns, bjs …

  3. De passagem por essas cidades me senti inspirada a escrever esse conto. Uma história de amor que ultrapassou os limites da vida. Gratidão Aldrin por seu comentário. Abraços.

  4. Essa é uma narrativa poderosa, com o peso de uma tragédia clássica transportada para o sertão. Você utilizou o arquétipo de “Romeu e Julieta”, mas com elementos geográficos e culturais que tornam a história única: Magnífico! Bravo!

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