Discurso Contraditório

Lula
No Pan-americano ocorrido no Brasil, fiz uma crônica contando um pouco sobre a minha breve trajetória esportiva e os efeitos da intervenção estatal no esporte. Falarei novamente do assunto, pois aqui no Brasil o povo ainda sofre de memória curta, além de um profundo sentimento de ingratidão. Sem contar os que creditam a falta de medalhas ao baixo investimento estatal, ao mesmo tempo em que defendem a política de Estado mínimo.
Desde que adentrei no mundo esportivo a fala mais recorrente entre os atletas era sobre a dificuldade de se manter treinando. No caso do Kickboxing/Muay Thai, além do inexistente incentivo, os competidores, em grande maioria, eram pobres.
Era muito comum, atletas abandonarem os treinos pelo alto custo de passagens, alimentação e inscrições em campeonatos. Os mais pobres, muitas das vezes, dividiam seus dias entre exaustivos treinos e longas jornadas de trabalho. A profissão de segurança noturno era praticamente a continuidade de quem treinava artes marciais.
O fato mais marcante, relatado no antigo texto e repetido neste, ocorreu em um Campeonato Estadual, no ano de 2004. No dia seguinte ao traumático combate, encontrei meu adversário trabalhando como entregador, em um supermercado na Tijuca. Morador de favela, o atleta dividia-se entre o treino e as entregas feitas sobre um triciclo. Estudar era carta fora do baralho para ele.
Além desse episódio, lembro-me de muitos outros que se alimentavam com um simples pão com manteiga antes de subir ao ringue. Naturalmente, os bem alimentados e com uma qualidade de vida superior tinham os melhores resultados.
Ganhando ou perdendo, os traumas eram bastante profundos. Lutávamos com pouca técnica e muita agressividade. As artes marciais por aqui, muitas das vezes são tidas como uma forma de colocar as frustrações e ódios para fora.
Em 2005, surge o programa Bolsa Atleta. Os que passaram a receber o benefício tiveram a oportunidade de dedicar-se ao esporte, sem ter de dividir a rotina de treinamentos com o trabalho. Muitos seguiram nas modalidades amadoras, outros partiram para o MMA. Alguns também entraram na faculdade, através dos programas de educação do Governo, tornando-se, posteriormente, professores.
Nas Olimpíadas do Rio, o discurso esquizofrênico continua em evidência: muitos criticam o baixo incentivo aos atletas, ao mesmo tempo em que defendem um Estado mínimo. Uma fala extremamente contraditória, mas bem condizente com a atitude política de parte do povo: apoiam um golpe contra a democracia, colocando no poder sujeitos comprovadamente corruptos, que defendem exclusivamente seus negócios.
Por mais que os resultados ainda não sejam compatíveis com a grandeza do nosso país, alguns resultados são a prova de eficiência dos programas do governo petista: Rafaela Silva e Thiago Braz são dois beneficiários do Bolsa Atleta e do Bolsa Pódio.
Outro discurso lamentável é o que credita exclusivamente às Forças Armadas o êxito das conquistas. Além do Bolsa Atleta e Bolsa Pódio, foi criado, em 2008, no governo Lula, o programa Atleta de Alto rendimento, que incorpora atletas de alto rendimento nas Forças Armadas.
Duro é saber que além do discurso leviano da população, alguns atletas também não reconhecem os avanços, nem tem o mínimo de gratidão com os que puseram esses projetos em prática.
Talvez seja a falta de um eficiente programa de comunicação, o maior erro dos governos Lula e Dilma.
Enquanto isso, tanto o setor privado quanto os meios de comunicação, que apoiaram e arquitetaram o golpe, lucram com todo o evento (também legado da era Lula) e ainda fazem discursos apaixonados em torno das conquistas.
Com todo esse cenário, fica a certeza de que precisamos avançar e muito. As pessoas precisam saber o que se passa na política brasileira, reconhecer-se no meio de todo o processo e brigar conscientemente por mudanças.
Enquanto isso não ocorrer, sofreremos golpes, ouviremos o oprimido fazendo o discurso do opressor e ainda cantar com a mão no peito que é brasileiro com muito orgulho e com muito amor.
Foto(*) lula.com.br

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