
As políticas socialistas do século XXI não podem se basear nos mesmos princípios que as guiaram no início do século XX. Em vez de tentar acelerar o trem capitalista, devemos concentrar nossos esforços em puxar o freio de emergência.
O artigo abaixo é uma resenha de Against the Crisis: Economy and Ecology in a Burning World [Contra a Crise: Economia e Ecologia em um Mundo em Chamas], de Holgersen, Ståle (Verso Books, 2024).
Oque são crises? Como elas se diferenciam de outros eventos súbitos, como catástrofes, que causam rupturas e devastação? E o que elas revelam sobre a natureza do sistema capitalista? Essas são algumas das principais questões abordadas por Ståle Holgersen em seu livro Against the Crisis: Economy and Ecology in a Burning World, publicado pela Verso em 2024.
O argumento central de Holgersen é que as crises são paroxismos sociais; eventos súbitos e frequentemente violentos que, embora pareçam imprevisíveis ou espontâneos, na verdade têm origem na dinâmica sistêmica do próprio capitalismo. Essa dinâmica decorre da irracionalidade de um sistema econômico impulsionado pela busca incessante do lucro. Nesse sentido, as crises funcionam como mecanismos pelos quais o capitalismo libera a pressão de suas contradições internas.
Contudo, paradoxalmente, as crises também estão sujeitas a processos de racionalização; ou seja, podem ser interpretadas, geridas e exploradas estrategicamente pela classe dominante. Assim, um argumento central na obra de Holgersen é que as crises são expressões estruturais das contradições internas do capitalismo — surgem de dentro do sistema — e, ao mesmo tempo, representam oportunidades estratégicas para a classe dominante.
Nesse sentido, as crises não apenas parecem ameaçar a ordem estabelecida, mas também servem para estabilizar e reproduzir o próprio sistema que aparentam pôr em risco. Consequentemente, as classes dominantes podem mobilizar crises como instrumentos para consolidar e reproduzir sua hegemonia política, econômica e ideológica.
Contradição e reestruturação
Aprimeira ideia desse argumento está profundamente enraizada nas teorias marxistas sobre as crises. Segundo Marx, as crises são períodos de flutuações profundas e frequentemente violentas nos preços das mercadorias, levando a “rupturas, grandes perturbações e até catástrofes no processo de reprodução” (Marx, 1991, p. 213). Marx observou que o capitalismo é um sistema inerentemente propenso a crises, uma vez que os próprios processos que reduzem o valor das mercadorias aumentam simultaneamente a mais-valia que elas incorporam (Marx, 1976, p. 437; citado em Heinrich, 2013, p. 212). Ele se referiu a isso como a tendência de queda da taxa de lucro (TQTL).
Grande parte da literatura marxista sobre crises tem se baseado nessa tese para explicar a ocorrência periódica de crises econômicas. No entanto, como apontam os críticos dela, existem tendências opostas que podem mitigar, adiar ou mesmo reverter temporariamente a queda da taxa de lucro (Heinrich 2013, 45). Um desses mecanismos, como argumentou Harvey (1989) em sua famosa obra Os Limites do Capital, é a “solução espacial”, que permite a realocação do capital excedente para novas áreas geográficas onde ele possa voltar a se tornar lucrativo.
Em vez de aderir estritamente a qualquer uma das principais teses marxistas sobre a crise, Holgersen segue a linha de análise de Harvey e usa as crises como janelas analíticas através das quais é possível examinar tanto as tendências que levam à queda da taxa de lucro quanto as tendências compensatórias que permitem que as crises sejam transformadas em instrumentos de poder de classe, ferramentas para restaurar a acumulação apesar de suas consequências sociais e ecológicas devastadoras.
Ele argumenta que as crises de 1973, 1979, 1981, 1990 e 2008 representaram tanto a causa quanto a solução para a crise seguinte. Em outras palavras, as contradições do capitalismo nunca foram resolvidas, mas sim reconfiguradas e transformadas em oportunidades para reestruturar o sistema, abrindo caminho para novas rodadas de acumulação e, simultaneamente, aprofundando sua instabilidade inerente. Portanto, cada crise representa não uma ruptura, mas um mecanismo de renovação que permite ao capitalismo perpetuar-se, deslocando e externalizando suas contradições.
Crises econômicas e crises ecológicas
Acrise da COVID-19 também pode ser compreendida a partir dessa perspectiva. Essa crise exemplificou os efeitos cumulativos da trajetória histórica das crises e exacerbou as vulnerabilidades estruturais produzidas pelas respostas neoliberais à crise de superacumulação da década de 1970.
A pandemia expôs décadas de austeridade, privatização e produção globalizada que minaram sistematicamente os sistemas de saúde pública. Contudo, essa não foi uma crise econômica em sua origem, pois foi desencadeada pela disseminação global do vírus da COVID-19. Nesse sentido, a crise estava profundamente enraizada na relação contraditória entre capitalismo e natureza, ilustrando como a expansão das fronteiras de extração e o crescente déficit metabólico podem perturbar gravemente os sistemas ecológicos e gerar crises econômicas e sociais. Portanto, Holgersen enfatiza a importância de distinguir entre crises econômicas e ecológicas no capitalismo.
Crises econômicas e ecológicas operam em escalas de tempo fundamentalmente diferentes. Crises econômicas, argumenta ele, são cíclicas e, pelo menos temporariamente, solucionáveis ou adiadas por meio de intervenção estatal, inovação financeira ou expansão espacial. Crises ecológicas, por outro lado, se desenrolam em escalas de tempo geológicas e biológicas de longo prazo, e seus efeitos não são apenas cumulativos, mas também imprevisíveis e irreversíveis.
Enquanto “a crise econômica é ao mesmo tempo a própria crise e a solução para a crise”, a crise ecológica é uma crise que pode representar o “possível desaparecimento de nossas sociedades como as conhecemos” (Holgersen 2024, 73). As crises ecológicas decorrem do que Marx denominou “metabolismo social” [Stoffwechsel] entre os seres humanos e a natureza, ou seja, os processos materiais que os unem na produção e reprodução (Holgersen 2024, 52-53).
A perturbação desse metabolismo pelo capitalismo produziu uma lacuna metabólica crescente, que se manifesta mais claramente em fenômenos como as mudanças climáticas. O uso intensificado de fertilizantes sintéticos na agricultura e a dependência excessiva de combustíveis fósseis para sustentar a acumulação incessante aceleraram a degradação dos sistemas ecológicos.
Ao contrário das crises econômicas, as consequências das mudanças climáticas são em grande parte irreversíveis; elas não se manifestam gradualmente, mas por meio de perturbações repentinas e sistêmicas — ondas de calor, secas, inundações e pandemias — que refletem a crescente instabilidade do próprio sistema terrestre.
Contudo, como alerta Holgersen, mesmo uma perturbação ecológica tão profunda dificilmente causará o colapso do capitalismo. Historicamente, o capital demonstrou uma extraordinária capacidade de adaptação e de continuar a acumular, mesmo em condições de degradação ecológica e desagregação social. Nesse sentido, Holgersen questiona as teorias aceleracionistas que antecipam a autodestruição do capitalismo sob o peso de suas contradições internas, ecoando a crítica de Walter Benjamin à metáfora de Marx sobre as revoluções como “os motores da história”.
Marx acreditava que as revoluções têm a capacidade de derrubar a ordem vigente; contudo, a história demonstra que as crises, como locomotivas, tendem a reforçar e estabilizar as relações capitalistas em vez de transcendê-las. Nessa perspectiva, Holgersen argumenta que nem o progresso tecnológico nem a modernidade, por si só, inaugurarão um futuro pós-capitalista. Em vez disso, representam o capitalismo em sua forma mais intensificada. Dito isso, Holgersen se mostra cético quanto ao decrescimento como uma alternativa viável, sugerindo que, embora ofereça uma crítica convincente ao produtivismo, muitas vezes negligencia a urgência das necessidades materiais, especialmente em sociedades onde a subsistência básica permanece precária (Holgersen 2024, 258).
O autor critica as abordagens keynesianas e pós-keynesianas à gestão de crises. Essencialmente, ele argumenta que a abordagem keynesiana está profundamente enraizada no pensamento econômico liberal, ou seja, na crença de que os mecanismos de mercado e a iniciativa privada são os principais motores do crescimento econômico e do bem-estar social, e que a intervenção governamental deve servir principalmente para estabilizar, e não para transformar, a dinâmica capitalista.
Em teoria, as reformas keynesianas partem do pressuposto das relações sociais capitalistas e, portanto, são guiadas pelo imperativo da lucratividade (Holgersen 2024, 246, 254). Na prática, o keynesianismo propõe uma forma de governança em tempos de crise que busca gerir as contradições do capital em vez de transcendê-las (Holgersen 2024, 247). Contudo, existem variantes mais progressistas do keynesianismo, como o Green New Deal, que defende uma maior intervenção econômica do Estado para enfrentar as mudanças climáticas e reduzir as desigualdades sociais por meio de políticas que promovam energias renováveis e criem empregos.
A dinâmica de classes na crise
Isso nos leva à segunda dimensão da tese do autor, que se concentra na mobilização estratégica de crises pela classe dominante. Nesse sentido, Holgersen argumenta que as crises não são meramente rupturas da ordem capitalista, mas também mecanismos-chave pelos quais a classe dominante garante sua própria reprodução. Baseando-se em teorias marxistas do Estado — particularmente na concepção do Estado como expressão institucional dos interesses da classe dominante — Holgersen enfatiza que as respostas políticas e sociais às crises são tipicamente configuradas para manter as estruturas de poder existentes.
A classe capitalista e o poder político são interdependentes para assegurar o funcionamento da ordem dominante. E a ordem dominante deve ser mantida para que “tanto a classe capitalista quanto os Estados existentes possam se reproduzir” (Holgersen 2024, 173). No entanto, essa interdependência é mediada pelo que Poulantzas chamou de “autonomia relativa” do Estado, ou seja, a autonomia relativa do poder político em relação ao poder econômico.
É precisamente essa autonomia relativa que confere às crises seu caráter dual: sua abertura como momentos de potencial transformação e suas limitações, uma vez que as respostas permanecem condicionadas pelos parâmetros das relações de classe e pelas estruturas estatais existentes (Holgersen 2024, 174-175). Dado que a responsabilidade pela gestão das crises normalmente recai sobre o Estado-nação, as respostas políticas e sociais tendem a ser determinadas — ou manipuladas — pelos interesses da classe dominante.
Nesse contexto, o fascismo emerge como uma das respostas políticas mais extremas à crise: uma estratégia autoritária para restaurar a ordem capitalista quando os mecanismos convencionais de reprodução se mostram insuficientes. Longe de ser uma aberração histórica, o fascismo representa uma forma pela qual o capitalismo se reproduz por meio da crise, especialmente em momentos em que a instabilidade sistêmica ameaça sobrecarregar a capacidade de autorrenovação do sistema (Holgersen 2024, 198, 204).
Dessa forma, o autor revela o caráter de classe da crise. Uma vez que a crise climática foi amplamente causada por uma classe capitalista predominantemente branca no Norte Global e afeta desproporcionalmente as populações do Sul Global, Holgersen argumenta que a atual luta de classes no capitalismo se dá entre uma classe capitalista (principalmente branca) no Norte Global e uma classe trabalhadora (principalmente não branca) em sentido amplo no Sul Global (Holgersen 2024, 195-196).
Essa abordagem bastante voluntarista da crise, baseada em uma análise sociológica de classe, contrasta fortemente com as teorias marxistas clássicas da crise, que a interpretam como resultado dos imperativos contraditórios da valorização do capital (a expansão do valor como um processo objetivo) e não como resultado de estratégias conscientes empregadas por grupos sociais específicos (ver Clarke 1991). Para Holgersen, no entanto, reconhecer a dinâmica de classe das crises é essencial para resistir a elas e deter o motor que impulsiona o sistema capitalista rumo à acumulação infinita.
Acione o freio de emergência.
Reconhecer os efeitos diferenciados das crises sobre as classes sociais — o desenvolvimento geográfico desigual das crises — implica questionar a noção burguesa de progresso como solução para as desigualdades sociais, um dos pilares do pensamento desenvolvimentista do pós-guerra. Nesse sentido, Holgersen argumenta que a política socialista do século XXI não deve se basear nos mesmos princípios que nortearam a política socialista do início do século XX.
Em vez de tentar acelerar o trem capitalista, a política socialista deveria visar acionar o freio de emergência. Como escreve Holgersen: “O trem capitalista nunca parará sozinho nem acelerará em direção ao socialismo. Ele despencará do precipício se não acionarmos o freio de emergência” (Holgersen 2024, 163).
Resistir às crises exige mais do que acordos tecnocráticos ou “pactos” políticos, insiste ele. Exige o desenvolvimento de lutas contínuas e movimentos sociais transformadores capazes de desafiar os fundamentos estruturais da ordem socioeconômica vigente, integrando tanto as lutas no local de trabalho quanto aquelas que ocorrem fora da fábrica, incluindo as lutas ambientais.
Referências
Clarke, S. (1991). Value, Class and the Theory of Society. In: Marx, Marginalism and Modern Sociology. Palgrave Macmillan, London. https://doi.org/10.1007/978-1-349-21808-0_4
Harvey, David (1989). Justice, nature and the geography of difference. Oxford: Blackwell Publishers Inc.
Heinrich, Michael (2013). “The ‘fragment on machines’: a Marxian misconception in the Grundrisse and its overcoming in Capital”. In Bellofiore, R.; Starosta, G. and Thomas, P. (Ed) In Marx’s Laboratory. Leiden: Brill Academic Publisher.
Marx, Karl (1991). Capital, Vol. 3, Penguin, Harmondsworth.
Estefanía Martinéz é doutoranda em geografia na Universidade de Montreal e ex-membro do Centro Nacional de Estrategia para el Derecho al Territorio (CENEDET) do Equador.
