
Mestre da arte moderna, que retratou a classe trabalhadora e a cultura popular, foi perseguido e teve entrada barrada nos EUA por sua militância no PCB.
Estevam Silva / Opera Mundi – Pensar a História / São Paulo, 6 de fevereiro de 2026, às 08:09
Há 64 anos, em 6 de fevereiro de 1962, falecia Candido Portinari, um dos maiores pintores da história do Brasil e figura central da arte moderna latino-americana.
Expoente da segunda geração modernista, Portinari se destacou pela predileção por representar o cotidiano da classe trabalhadora, a cultura popular e a realidade social do Brasil. É autor de algumas das obras mais conhecidas da história da arte brasileira e teve grande influência nos rumos das vanguardas artísticas nacionais.
Apoiador da resistência antifascista nos anos 40, Portinari foi membro do Partido Comunista (PCB) até a sua morte e chegou a disputar eleições parlamentares pela agremiação. Foi perseguido pelo governo brasileiro, sofreu fraude da justiça eleitoral e foi impedido de ingressar nos Estados Unidos.
Juventude e formação
Candido Portinari nasceu em 29 de dezembro de 1903, na fazenda de café Santa Rosa, nos arredores de Brodowski, então um distrito de Batatais, no interior de São Paulo. Era o segundo dos 12 filhos de Domenica Turcato e Giovan Battista Portinari, um casal de imigrantes italianos que aportou no Brasil no século 19, vindo da região do Vêneto.
Portinari cresceu em um ambiente modesto e teve de trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ele estudou por pouco tempo, não chegando a concluir o terceiro ano do ensino primário. Demonstrou sua vocação artística ainda na infância e já fazia retratos aos 10 anos de idade.
Já adolescente, Portinari passou a trabalhar como ajudante de um grupo de artistas italianos contratados para realizar restaurações e produzir obras de temática sacra para as igrejas da região. Sentindo-se contemplado pelo ofício, o jovem decidiu seguir a carreira artística.
Aos 15 anos, Portinari deixou sua cidade natal e partiu para o Rio de Janeiro, a fim de iniciar sua formação como pintor. Instalou-se em uma pensão pertencente a amigos de sua família e começou a frequentar o Liceu de Artes e Ofícios. No ano seguinte, matriculou-se no curso de desenho figurado da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA).
Portinari foi aluno de mestres como Rodolfo Amoedo, Lucílio de Albuquerque e João Baptista da Costa. Sua formação foi pautada pelos cânones do academicismo, mas transcorreu em uma época em que as correntes modernas começavam a influenciar a arte brasileira.
Aluno brilhante, Portinari se destacou como retratista e participou de diversas edições das Exposições Gerais — as mostras anuais de trabalhos de alunos da ENBA. Já em sua primeira exposição, ele recebeu a Menção Honrosa pelo retrato de Ezequiel Fonseca Filho. Em 1923, conquistou a Medalha de Bronze no salão da ENBA e venceu o Prêmio da Galeria Jorge.
Portinari expôs diversas obras nas mostras seguintes e foi laureado com a Grande Medalha de Prata na edição de 1927. Em 1928, venceu o Prêmio de Viagem à Europa da 35ª Exposição Geral de Belas Artes, apresentando a tela “Retrato de Olegário Mariano”. Antes de partir para a viagem, organizou sua primeira mostra individual, sediada no Palace Hotel do Rio de Janeiro.
Na Europa, Portinari visitou a Itália, a Espanha e a Inglaterra e se fixou na França. Residiu em Montparnasse, um bairro de artistas e intelectuais de Paris. Visitou os grandes museus para estudar a arte renascentista e as obras dos antigos mestres italianos. Também travou contato com pintores ligados aos movimentos de vanguarda, tais como Amedeo Modigliani, Pablo Picasso e Kees van Dongen.
Foi durante a estadia em Paris que Portinari conheceu a jovem uruguaia Maria Victoria Martinelli. Os dois se casaram em 1930 e permaneceram juntos pelas três décadas seguintes. O casal teve um único filho, João Candido, nascido em 1939.
Os anos 30 e o neorrealismo
De volta ao Brasil, Portinari realizou uma nova exposição no Palace Hotel. Ele se dedicou com afinco à pintura e fez da década de 30 um dos períodos mais prolíficos e originais de sua carreira. Incorporando cada vez mais as influências modernas, Portinari abandonou a rigidez volumétrica e a tridimensionalidade em favor de uma maior liberdade plástica.
A celebração da identidade brasileira é o tema predominante nas obras de Portinari realizadas nesse período. Suas telas representam cenas do cotidiano no interior, os camponeses, os cafezais, o folclore, as festas populares, a infância no campo — uma produção que dialogava com o ethos nacionalista da incipiente Era Vargas.
Aproximando-se dos postulados teóricos e estéticos do movimento modernista, Portinari também desenvolveu um crescente interesse pela temática social. Ele se consagraria como um dos maiores nomes do neorrealismo, estilo que buscava unir um figurativismo bem demarcado ao compromisso social explícito, abrindo espaço para a denúncia das desigualdades e para a afirmação das reivindicações populares.
Portinari pintou o trabalho árduo no campo, as favelas e a vida da gente comum. Deu protagonismo aos camponeses, aos negros, aos migrantes e às demais camadas marginalizadas. Sua paleta priorizava os tons terrosos e as cores fortes e expressivas. As figuras adquiriam formas robustas e esculturais. Eram monumentais, com mãos e pés realçados, evocando a força física e o trabalho braçal. Entre as obras características dessa fase estão “O Mestiço” e “O Lavrador de Café”.
Em 1935, Portinari passou a lecionar pintura no Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal (UDF). Nesse mesmo ano, o brasileiro foi convidado a participar de uma mostra no Instituto Carnegie, em Pittsburgh, onde conquistou um prêmio pela tela “Café”. Tornou-se, assim, o primeiro modernista brasileiro a ser premiado no exterior.
O muralismo e a carreira internacional
Ainda na década de 30, inspirado pelo muralismo mexicano, Portinari se dedicou à confecção de murais, afrescos e painéis de grande porte. Em 1936, o artista executou quatro grandes painéis para o Monumento Rodoviário, localizado na Via Dutra. Em seguida, colaborou com a decoração do novo prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, pintando 12 afrescos sobre os ciclos econômicos do Brasil.
Em 1939, Portinari foi homenageado com uma mostra individual no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, expondo 269 de suas obras. No mesmo período, confeccionou os painéis “Jangadas do Nordeste”, “Cena Gaúcha” e “Noite de São João”, todos destinados ao Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York, um projeto de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
A mostra em Nova York acabaria por impulsionar a carreira internacional de Portinari. Suas obras foram muito elogiadas por Alfred Barr, um dos principais promotores da arte moderna nos Estados Unidos. Em 1940, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) inaugurou a mostra “Portinari of Brazil”, com 180 obras.
Em 1942, após realizar uma série de exposições em museus dos Estados Unidos, Portinari foi convidado a pintar quatro afrescos para decorar a Sala de Leitura Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington. As obras evocam temas da história brasileira (“Descobrimento”, “Desbravamento da Mata”, “Catequese”, “Descoberta do Ouro”) e apresentam os trabalhadores como protagonistas.
Em Nova York, Portinari participaria da exposição em homenagem aos 15 anos do MoMA, remetendo as obras “Espantalho” e “Colonos Carregando Café”. Na cidade, o brasileiro conheceu o célebre painel “Guernica” de Pablo Picasso. Profundamente impactado pela tela, ele passou a fazer experimentações com a estética cubista, criando algumas de suas obras mais conhecidas — as séries “Bíblica” e “Retirantes”, ambas marcadas pela expressividade e pelo drama incontido.
Em 1944, Portinari foi chamado por Niemeyer para decorar a Igrejinha da Pampulha, em Belo Horizonte. Executou um conjunto de 14 pinturas representando a via-crúcis para a parte interna e o gigantesco painel de azulejos com cenas da vida de São Francisco na parte externa.
Outros trabalhos importantes do período são as ilustrações para os livros de Machado de Assis editados pela Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil. O artista também expôs em uma importante mostra na Galeria Charpentier de Paris — ocasião em que o governo francês o condecorou com a Legião da Honra.
A militância no PCB e o exílio
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial e o processo de redemocratização, o pintor intensificou sua atuação política. Assim como vários artistas e intelectuais de sua geração, Portinari se filiou ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB).
O sacrifício empreendido pela União Soviética na luta contra o Terceiro Reich e os esforços dos combatentes comunistas na resistência civil ao fascismo sensibilizaram amplos setores da sociedade, galvanizando uma onda de apoio à esquerda radical.
Aceitando o convite feito por Luiz Carlos Prestes, Portinari se lançou como candidato a deputado federal por São Paulo na eleição da Assembleia Nacional Constituinte, realizada em dezembro de 1945. Em sua campanha, Portinari se apresentou como “o artista do povo”. Sua plataforma incluía bandeiras como a reforma agrária, a sindicalização dos camponeses, a democratização da cultura e a criação de programas de combate à fome.
O PCB elegeu 14 deputados federais e um senador no pleito de 1945, mas Portinari somente conseguiu chegar à suplência. Em 1947, ele voltaria a se candidatar, dessa vez ao Senado. Diante das crescentes ameaças legais ao registro eleitoral do PCB, lançou sua candidatura pelo Partido Social Progressista (PSP).
O pintor aparecia como o favorito para a vaga em todas as sondagens — e as multidões que frequentavam seus comícios eram a prova concreta de sua popularidade. Portinari fez uma campanha intensa, direcionada aos interesses da classe trabalhadora. Concentrou suas visitas nas periferias, nas fábricas e nos bairros operários.
Quando as urnas foram abertas, as primeiras parciais confirmavam o favoritismo do pintor, que aparecia disparado na primeira posição. A situação, no entanto, foi drasticamente alterada após um duvidoso pedido de recontagem das cédulas feito pela própria Justiça Eleitoral.
O empresário Roberto Simonsen, que até então perdia de Portinari por mais de 50 mil votos, assumiu a dianteira na disputa de um dia para o outro, contrariando inteiramente o padrão até então registrado.
No fim, Portinari acabou perdendo a eleição por cerca de 3.500 votos. Seus eleitores e dirigentes do PCB imediatamente denunciaram a fraude, mas, como o próprio judiciário estava envolvido no esquema, não havia meios institucionais aos quais recorrer.
O exílio
A ofensiva do Estado brasileiro contra o PCB estava apenas no início. Em meio à ascensão da Guerra Fria, o país começava a se perfilar aos ditames do regime anticomunista de Washington. Ainda em 1947, o registro eleitoral do PCB foi cancelado. No ano seguinte, todos os parlamentares comunistas tiveram seus mandatos cassados.
A perseguição aos comunistas seguiria se agravando durante o governo de Eurico Gaspar Dutra. Vários jornais da imprensa operária foram empastelados e as prisões arbitrárias se multiplicavam. Portinari decidiu então partir para o exílio voluntário no Uruguai.
Em Montevidéu, o artista expôs “A Primeira Missa no Brasil”, uma encomenda do Banco Boavista. Prosseguindo com a temática histórica, pintou “Tiradentes”, destinada ao Colégio de Cataguases.
Em 1949, Portinari foi convidado a participar da Conferência Cultural e Científica para a Paz Mundial, sediada em Nova York, mas o governo norte-americano proibiu a sua entrada no país, em função de suas ligações com o movimento comunista. Em Varsóvia, sede do Congresso Mundial dos Partidários da Paz, o brasileiro recebeu a Medalha de Ouro da Paz pelo painel “Tiradentes”.
Após o retorno ao Brasil, Portinari foi obrigado a depor na polícia sobre sua atuação como representante da Universidade do Povo, uma iniciativa vinculada ao PCB. O artista recebeu apoio de um movimento de solidariedade aos perseguidos políticos do governo brasileiro. Em 1951, expôs com destaque na primeira edição da Bienal Internacional de São Paulo.
“Guerra e Paz”
Em 1952, Portinari começou a trabalhar em “Guerra e Paz”, os maiores painéis pintados pelo artista, medindo aproximadamente 14 x 10 metros cada um. As obras levaram quatro anos para serem concluídas e foram encomendadas para decorar a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.
Os painéis seriam instalados em um local privilegiado do edifício, junto à entrada da Assembleia Geral, como um lembrete aos líderes mundiais sobre as atrocidades da guerra e a importância de buscar soluções pacíficas para os conflitos.
As obras congregam uma série de motivos que se repetem ao longo da trajetória do artista, dos trabalhadores e retirantes às mães que lamentam a perda do filho. Portinari considerava os painéis suas obras mais importantes: “Os painéis Guerra e Paz representam sem dúvida o melhor trabalho que eu já fiz. Dedico-os à humanidade”, declarou o pintor.
Os painéis foram exibidos no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956, antes de serem enviados para Nova York. O presidente Juscelino Kubitschek inaugurou a exposição e entregou pessoalmente a Portinari a Medalha de Ouro concedida pelo Conselho Internacional de Belas Artes.
Essa foi a última vez em que Portinari viu “Guerra e Paz”. As autoridades norte-americanas seguiriam negando o ingresso do artista brasileiro nos Estados Unidos até o fim de sua vida.
Os últimos anos
“Guerra e Paz” marcam, simultaneamente, o ápice do reconhecimento internacional de Portinari e o início do seu declínio físico. O artista sacrificou sua própria saúde durante a execução dos painéis.
Em 1953, o pintor apresentou uma grave intoxicação por chumbo, sofrendo uma hemorragia intestinal. Os médicos descobriram que Portinari estava sendo envenenado pelas tintas que usava, mas ele seguiu trabalhando, desobedecendo todas as recomendações.
Portinari realizou grandes exposições no Brasil, na América Latina e na Europa nos anos 50. Produziu a série de desenhos “Dom Quixote”, utilizada na ilustração de um livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Também fez os desenhos para o “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Em 1957, começou a escrever o livro “Retalhos de Minha Vida de Infância”.
Em 1958, o pintor foi indiciado pelo Departamento Federal de Segurança Pública por seu trabalho junto ao projeto “Escola do Povo”. Em 1961, Portinari foi impedido de ingressar na França. Acabou por receber permissão para concluir a visita, mas teve de se comprometer a não emitir declarações políticas enquanto estivesse no país.
Portinari se afastou da vida partidária após adoecer, mas permaneceu filiado ao Partido Comunista até o fim da vida. Em uma entrevista concedida a Vinícius de Moraes, explicou sua posição. “Não pretendo entender de política. Minhas convicções, que são fundas, cheguei a elas por força da minha infância pobre, de minha vida de trabalho e luta, e porque sou um artista. Tenho pena dos que sofrem, e gostaria de ajudar a remediar a injustiça social existente. Qualquer artista consciente sente o mesmo.”
Candido Portinari faleceu em 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos, vitimado pela intoxicação por metais pesados. O pintor foi velado no Palácio Gustavo Capanema e um luto oficial de três dias foi decretado. Uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre do artista até o sepultamento no Cemitério de São João Batista.
Portinari foi um artista muito prolífico, deixando mais de 5.000 obras e 30.000 documentos após sua morte. Seu filho, João Candido, dirige desde 1979 o Projeto Portinari, dedicado a realizar o levantamento e a catalogação completa da produção do artista. A residência onde Portinari viveu durante sua infância em Brodowski foi convertida em uma casa-museu.
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