A liberdade em seu lugar de ausência

Da escuridão, emerge um som pausado, pulsante, levemente aflito. Aos poucos, restos de luz levam a delinear-se rostos intensos. Fiéis ao ritmo cênico, os movimentos chegam sem pressa, plenos de significado em seu silêncio. A banda dedilha as notas com paciência, sons que se transformarão em discurso de dor e afeto, em histórias do universo sofrido e vivo a ser apresentado. A partir de gestos incertos, de forma repentina e inesperada, um concurso de miss se forma. E do diálogo, das danças, das roupas, dos gostos, de tudo o mais, percebe-se que não é um desfile convencional, em ambiente tradicional. Da dançarina de funk à modelo transformista, quatro concorrentes encenam o que seria um concurso de miss numa penitenciária.
A encenação segue inquietante e surpreendente até o fim. Buscam retratar elementos expressivos e didáticos do cotidiano das prisões, do Rio de Janeiro e de qualquer lugar do país. “Eu vim pra cá com 17 anos. Nós fomos enterrados vivos”, afirma abruptamente uma personagem. “A lógica é essa: se mata gente que mata gente, só para mostrar que não se deve matar gente”, acusa outra. A nova peça da Cia Marginal, “Ô Lili”, busca utilizar o ambiente prisional para retratar a opressão de classe, a criminalização da pobreza, e os conflitos psicológicos e culturais do nosso tempo. Em cartaz durante esse mês no Planetário da Gávea, foi construída a partir de depoimentos colhidos em carceragens e penitenciarias do Rio de Janeiro. A julgar pelos aplausos intensos da noite de estreia, nas cadeiras inteiramente tomadas, o espetáculo consolida a maturidade do grupo, já latente na peça anterior, “Qual é a nossa cara?”
Desenvoltos e maduros, os atores da Maré já provaram sua grandeza artística. A capacidade de Wallace Lino de encarnar personagens distintos com impressionante habilidade, por exemplo, é apenas uma pista. Um indício irretorquível de que os jovens mareenses que se reuniram, há seis anos, para formar uma séria e ambiciosa trupe teatral, tornaram-se gigantes. Imersos num cenário carioca onde o entretenimento gratuito e a comédia rasa grassam, atrevem-se a criar teatro de verdade, com ousadia dramatúrgica, precisão na montagem, rigor na pesquisa temática e, sobretudo, senso crítico sobre a realidade brasileira. E as abordagens são vastas. Ora ergue-se sobre o palco o que seria um culto evangélico, ora o tão conflituoso quanto afetivo convívio prisional.
Entremeados às narrativas da dor da privação de liberdade, e de tudo o que ela implica, emergem inúmeros momentos de humor. Pela reação da plateia, o auge é a encenação de uma reunião de organização política dos encarcerados. Toda a simbologia dos movimentos sociais é apresentada de forma irônica, assim como os problemas históricos de sua eterna busca por unidade em meio à diversidade humana e política. As disputas entre lideranças, a dificuldade de convencimento de grupos externos, e a terminologia esquerdista levam a plateia à gargalhada. “Questão de ordem”, requisita um; “só queria problematizar uma questão”, explica outro.
A Cia Marginal tem como objetivos a busca pela descentralização da produção teatral do Rio de Janeiro, incluindo as comunidades, a obsessão por um teatro contemporâneo e qualitativo, e a formação do pensamento crítico no país. A busca por um sistema menos tortuoso de sustentabilidade também está entre suas prioridades. “Ô Lili” se viabilizou quando o grupo foi vencedor dos Editais da Secretaria de Cultura do Estado. O último espetáculo da Cia Marginal, “Qual é a nossa cara?”, havia sido montado com recursos do Prêmio de Teatro Myriam Muniz, da Funarte, que eles ganharam em 2006.
Entre os integrantes, também há participantes do bloco carnavalesco mareense Se Benze Que Dá, que concilia folia e engajamento, e há colaboradores do jornal O Cidadão, principal referência de mídia comunitária independente do Rio. Durante os ensaios do grupo, houve momentos em que a violência brutal do conjunto de favelas inviabilizou atividades (a Maré vive, atualmente, nova onda de violência. Caveirões – pontentes blindados da Polícia – estariam sendo alugados de dentro da 22ª D.P. às distintas facções do tráfico de drogas e à milícia). É característica da Cia Marginal buscar nos conflitos do cotidiano dos mais pobres os elementos de sua dramaturgia. Em “Ô Lili”, pela primeira vez, pode-se visualizar uma linha narrativa mais constante, enquanto nos trabalhos anteriores se preferiu pulverizar ambientes e personagens diversos. Tudo isso feito a partir dos gritos de liberdade oriundos dos depositórios humanos onde ela é restringida.
Espetáculo: Ô Lili
Direção: Isabel Penoni
Local: Planetário da Gávea (Teatro Municipal Maria Clara Machado)
Rua Padre Leonel Franca, 240, Gávea
Em cartaz até o dia 1 de junho, todas as terças e quartas, às 21h.
Telefone: (21) 2274 7722
Ingressos:
R$ 20,00 (inteira)
R$ 10,00 (meia)
R$ 5,00 (grupos organizados de estudantes)
(*) Divulgação do Brasil de Fato.

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