Brasil de Fato debate operação no RJ e reafirma lugar da comunicação popular

Por Vivian Virissimo

Evento foi organizado em comemoração aos 8 anos do jornal no Rio de Janeiro; 12 convidados participaram da atividade

Brasil de Fato Rio de Janeiro completou oito anos no último sábado (1º), Dia do Trabalhador. Para celebrar o aniversário do jornal, o veículo realizou uma live na última quinta-feira (6), mesmo dia em que a operação na favela do Jacarezinho deixou um saldo de 25 mortes na cidade.

Mariana Pitasse, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro, explicou que a atividade foi mantida justamente pelo reconhecimento da relevância da comunicação popular na denúncia e divulgação da violência cotidiana sofrida por moradores de favelas na cidade.

“Infelizmente o dia não está para comemoração, amanhecemos com a triste notícia da operação no Jacarezinho que deixou 25 mortos. E o motivo de termos mantido esse evento é justamente por reconhecer a importância de veículos como o Brasil de Fato na divulgação de informações do ponto de vista de quem vive a violência cotidianamente, um ponto de vista diferente da grande mídia”, explicou Pitasse.

Brasil de Fato foi criado pelos movimentos populares no Fórum Social Mundial em 2003 e foi editado em formato standard, vendido em bancas e por assinatura, até 2012. Em 2013, ano de fundação do Brasil de Fato RJ, o jornal uma nova fase com a produção de edições em formato tabloide para realizar o diálogo com a classe trabalhadora.

Durante esse período, redes de jornalistas compuseram a equipe de redação, dezenas de pessoas atuaram nos pontos de distribuição, vários parceiros políticos e sindicais contribuíram com anúncios e vários militantes atuaram no Conselho Editorial na proposição de pautas e acompanhamento político.

Joaquin Piñero

Rodrigo Marcelino, atual coordenador político do jornal, lembrou a trajetória do conselheiro Joaquin Piñero, falecido em março e que foi um dos principais responsáveis pela construção do Brasil de Fato no Rio.

“Quero celebrar a vida e a trajetória do Joaquin, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desde os anos 1990, cumpriu tarefas importantíssimas em várias regiões do país, inclusive internacionais. Ele veio para o Rio de Janeiro com a tarefa de construir o Brasil de Fato com muita disciplina e muito carinho”, contou Marcelino.

Durante a live, o vereador Lindbergh Faria (PT) contou que foi aprovada nesta quinta-feira (6) a concessão da medalha Pedro Ernesto para Joaquin Piñero. A homenagem será concedida no dia 11 de agosto, dia de aniversário do Joaquin, quando também é celebrado o Dia da Justiça.

Ao todo, 12 convidados participaram do evento para debater a comunicação popular e os desafios políticos e econômicos para o estado do Rio e o Brasil. Entre eles, Mônica Francisco, deputada estadual (PSOL); Lindbergh Farias, vereador do Rio (PT); Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC); Valéria Zacarias, da Frente dos Evangélicos pelo Estado Democrático de Direito; Luana Carvalho, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); Carol Solberg, jogadora de Vôlei; Marinete Silva, mãe de Marielle Franco; Paulo Mansan, do Sistema Brasil de Fato de Comunicação; Gizele Martins, comunicadora popular da Maré; Carol Black, militante do Levante Popular da Juventude; Carol Dias, militante da Consulta Popular; e Sérgio Borges, diretor Adminstrativo e Financeiro da Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Violência nas favelas

Mônica Francisco, deputada estadual (PSOL), ressaltou que arbitrariedades como as ocorridas na operação na favela do Jacarezinho mostram o quanto a comunicação popular é relevante para a sociedade.

“Um jornal como o Brasil de Fato faz diferença nesse momento em que o aparelho repressor do Estado, logo depois de uma visita do presidente Jair Bolsonaro ao estado do Rio de Janeiro coloca mais fogo nas tropas que já esperam um quê para garantir sua autonomia”, disse Mônica, que é ativista das lutas das favelas há três décadas.

“E digo mais: essa será a tônica daqui pra frente. Precisamos fortalecer veículos como Brasil de Fato para fazer os anúncios das ações da resistências e das lutas para nos fortalecer em rede enquanto movimentos e parlamentares da esquerda”, acrescentou.

Na visão de Luana Carvalho, da direção nacional do MST,  a comunicação popular cumpre o papel de trazer outro retrato do país.

“Os meios de comunicação popular trazem outra narrativa, a voz daqueles injustiçados e que sofrem violência no seu dia a dia. Não são só corpos, são pessoas e a comunicação popular traz a voz desses sujeitos que são calados e silenciados pelos grandes meios de comunicação”, pontuou Luana,  ao contar que teve oportunidade de participar da distribuição de jornais.

“A receptividade do povo é muito boa, é um jornal que tem linguagem popular, o povo lê durante o trem, nas viagens, leva para a casa”, concluiu.

Imprensa dos trabalhadores

Lindbergh Farias, vereador do Rio de Janeiro (PT), reconheceu como um equívoco dos governos do PT não ter trabalhado concretamente pela ampliação de uma imprensa dos trabalhadores.

“Não se pode ter ilusão com as elites brasileiras que são antidemocráticas e deram golpes em Getúlio Vargas, em Jango e no PT. Para conseguir se manter no poder tem que ter mobilização popular permanente. Não podemos voltar e ter a mesma ilusão, temos que nos preparar para a luta e um jornal como o Brasil de Fato tem papel muito importante na formação política”, destacou.

Massacres como o ocorrido na favela do Jacarezinho mostram como a comunicação popular é urgente e necessária, segundo Cláudia Santiago, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).

“Não são suspeitos que morreram, são pessoas que foram assassinadas pelo Estado Brasileiro. O que aconteceu reacende o motivo de lutarmos por uma comunicação livre dos interesses patronais e daqueles que financiam o extermínio da classe trabalhadora negra e favelada no Rio de Janeiro”, destacou.

Vitto Giannotti, do NPC, atuou não só como conselheiro do Brasil de Fato, mas desenhou o projeto gráfico editorial e coordenou a distribuição de exemplares.

“A última ação política de Vitto Giannotti foi a distribuição do jornal Brasil de Fato no metrô, na praça Saens Peña, na véspera da sua morte em 2015. O Brasil de Fato foi seu último sonho”, contou Claudia. Segundo ela, para conversar com os trabalhadores é necessário fazer uma comunicação de baixo para cima, ouvindo os reclames dos despossuídos, com a participação de jovens e adultos e de forma amorosa.

Debate de ideias

Um dos eixos temáticos tratados no debate foi a contribuição da manifestação e do engajamento político de figuras públicas no debate das ideias. Para a jogadora de vôlei Carol Solberg esse tipo de manifestação faz toda a diferença.

“Eu considero muito importante que diante de tudo que se vive no Brasil e no mundo aqueles que estão em evidência possam chamar atenção para debates importantes para a sociedade.  Eu, como atleta, vejo poucas manifestações de colegas e acho triste essa visibilidade não ser usada. Quando eu me manifesto cria-se um mal estar, mas a política está na vida, viver é um ato político”, argumentou.

Recentemente, a jogadora criticou a conduta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e sofreu uma série de represálias após se manifestar.

Já Marinete Silva, mãe de Marielle Franco, vereadora morta em março de 2018 no Rio, reafirmou o compromisso de continuar lutando pela memória da filha, pela injustiça que o Brasil vive na pandemia e pelas famílias vítimas de violência.

“Não dá para continuar vivendo o que a gente vive na periferia. A gente está vendo tanta gente se manifestando porque isso que aconteceu é uma chacina. Não tem outro nome. Cada vez mais a gente tem que se unir e vai se unir contra essas violências, como mulheres, como mães, pessoas que não viveram isso diretamente mas tem empatia. Vamos continuar lutando juntos. Vamos estar juntos com o Brasil de Fato, esse veículo tão popular e tão grandioso”, concluiu.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Mariana Pitasse

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