
11 de setembro de 2025 tornou-se uma data histórica no Brasil: pela primeira vez, ex-presidente e militares de alta patente são condenados por tentativa de golpe.
São Paulo / Opera Mundi – Pensar a História,12 de setembro de 2025, às 15:20
11 de setembro de 2025 já é uma data especial para o Brasil. Pela primeira vez na história, um ex-presidente e militares de alta patente foram condenados por uma tentativa de golpe de Estado. Embora acumule mais de uma dúzia de quarteladas e intentonas, o Brasil nunca havia julgado os líderes de um movimento golpista. Sempre foram beneficiados com a anistia e com os pactos pelo esquecimento.
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por cinco crimes: tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, participação em organização criminosa armada, deterioração do patrimônio público e dano qualificado. Também foram condenados sete membros da cúpula do governo, incluindo três generais e um almirante.
Ainda assim, é difícil dizer que a justiça foi feita. Bolsonaro foi responsabilizado pelas ameaças e ataques que fez às instituições do Estado. Seus atos mais perversos, no entanto, não foram alvo de escrutínio da justiça. Os crimes contra a vida permanecem impunes. E a verdade é que não faltam cúmplices pressionando pela continuidade desse tétrico legado.
Os ricos e a pandemia
7 de abril de 2021 também foi uma data histórica — ainda que com uma conotação totalmente distinta. Dois eventos ocorreram nessa ocasião. Durante o dia, o Portal Transparência divulgou que, pela primeira vez, o número de mortes registrados na Região Sudeste do Brasil ultrapassou o número de nascimentos. Com 13.998 partos e 15.967 óbitos, o Sudeste apresentou um decréscimo populacional de quase duas mil pessoas na primeira semana de abril.
Na mesma data, porém à noite, o então presidente Jair Bolsonaro e seus ministros participaram de um jantar com grandes empresários brasileiros. Não houve cobranças sobre a situação de descontrole sanitário ou sobre o fato de que o Brasil concentrava 30% de todas as mortes diárias decorrentes da covid-19 — mesmo respondendo por apenas 2,7% da população mundial.
Ninguém questionou o mandatário sobre o insólito fato de que o país agora estava fabricando mais caixões do que berços. Não houve cobranças sobre a notícia divulgada no mesmo dia que o Brasil havia ultrapassado a marca de 340 mil mortes pela pandemia. Ao contrário: as falas de Bolsonaro e de seu ministeriado foram efusivamente aplaudidas pela claque de banqueiros, barões da mídia, donos de construtoras e industriais.
Não é difícil compreender o apoio de bilionários e multimilionários a Bolsonaro. Enquanto a classe trabalhadora enxergava o seu poder de compra derreter e era forçada a substituir carne vermelha por ovo e a procurar restos de pelanca na fila dos ossos, os ultra-ricos aumentavam sua fatia na concentração de renda nacional com uma voracidade espantosa.
No mesmo mês em que a Rede PENSSAN divulgava seu relatório mostrando que 55,2% dos brasileiros se encontravam em situação de insegurança alimentar e 20 milhões de pessoas estavam passando fome, a Forbes publicava seu ranking atualizado, mostrando que apenas no primeiro trimestre de 2021, o Brasil ganhou 11 novos bilionários. O patrimônio dos super-ricos cresceu mais de 30% só no primeiro ano da pandemia.
Bolsonaro sempre foi Bolsonaro
Na imprensa liberal, não faltaram os “ingênuos de ocasião” — formadores de opinião “arrependidos”, que alegavam que “não tinham como saber” que Bolsonaro era Bolsonaro e, cinicamente, tentaram esconder sob a máscara do clamor civilizatório sua própria responsabilidade no processo de destruição da sociedade brasileira.
Afinal, Bolsonaro nunca negou que era Bolsonaro. Elogios à ditadura, à tortura e à execução sumária sempre foram elementos presentes na sua retórica. Em uma entrevista concedida em 1999 à TV Bandeirantes, o ex-capitão do Exército disse explicitamente que era a favor de fomentar uma guerra civil no Brasil para “matar uns 30 mil”. Durante uma coletiva de imprensa datada junho de 2017, Bolsonaro reafirmou com todas as letras seu ideário: “minha especialidade é matar, não é curar ninguém.”
A trajetória parlamentar do ex-capitão ao longo de quase três décadas também nunca impediu uma leitura correta sobre a sua mentalidade eugenista e sua obsessão pelo controle demográfico. O então deputado apresentou projetos de lei visando instituir a esterilização de pessoas pobres. “Pobre no Brasil só serve pra votar, com título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso”, afirmou enfaticamente em uma ocasião.
Em outro discurso, criticando o “crescimento populacional exagerado”, reclamou do fato de o país ser muito populoso: “Não tem lugar para deitar na praia. É gente demais! Temos que colocar um ponto final nisso se quisermos produzir felicidade em nosso país.”
