Até onde um psicopata pode levar o mundo, por Gustavo Tapioca

Donald Trump por Gage Skidmore – Flickr

Jeffrey Sachs afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, age como “um psicopata” na condução da política internacional.

Por Gustavo Tapioca / Jornal GGN, 06/03/26 • 07:50

A acusação do economista Jeffrey Sachs — que classificou Donald Trump como “psicopata” — ressoa diante da devastação de Gaza, da escalada da guerra envolvendo o Irã e da pergunta lançada após Auschwitz por Primo Levi: até onde pode chegar uma civilização quando a desumanização se torna  política de poder?  

O alerta que ecoa no mundo

Uma declaração publicada na terça-feira, 3 de março, reacendeu o debate internacional sobre a escalada de violência no Oriente Médio e o papel dos Estados Unidos nessa engrenagem de guerra e lançou uma sombra inquietante sobre o cenário internacional.

Em entrevista ao programa Breaking Points, repercutida pelo Brasil 247, o economista americano Jeffrey Sachs afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, age como “um psicopata” na condução da política internacional.

Segundo Sachs, Trump estaria atuando como “fantoche” de interesses israelenses e de setores da inteligência norte-americana, particularmente ligados á CIA.

A acusação é devastadora.

Sachs não é um influencer agitador de redes sociais. Professor da Columbia University e uma das vozes mais respeitadas do debate econômico global, ele pertence ao núcleo duro da elite intelectual norte-americana.

Quando alguém com esse perfil descreve o líder da maior potência militar do planeta nesses termos, o episódio deixa de ser uma simples polêmica. Passa a ser um alerta sobre a gravidade do momento histórico que o mundo atravessa — um momento perigoso, em que decisões tomadas em Washington e Tel Aviv podem significar vida ou morte para milhões de pessoas, populações inteiras.

Da câmara de gás ao drone: quando o humano vira alvo

Em 1947, o escritor italiano Primo Levi publicou “Se questo è uno uomo”, relato devastador de sua experiência no campo de extermínio de Auschwitz, criado pelo regime nazista. O título do livro era uma pergunta dirigida à própria civilização: “É isto um homem?”

Levi queria compreender como sociedades modernas — com ciência, tecnologia e cultura — puderam criar uma máquina industrial de morte.

Décadas depois, a guerra contemporânea parece introduzir uma nova etapa desse processo, como analisa Vladmir Safatle observa no seu livro mais recente A ameaça interna.

Se Auschwitz transformava pessoas em números, a guerra tecnológica do século XXI transforma seres humanos em pontos numa tela. Drones filmam, algoritmos analisam, misseis atingem coordenadas. No monitor, os corpos já não aparecem como corpos. Aparecem como alvos. Auschwitz retorna hoje diante das ruínas de Gaza e da invasão ao Irã.

O segundo massacre

A guerra na Faixa de Gaza já se consolidou como uma das maiores catástrofes humanitárias do século XXI. Estimativas de organismos internacionais indicam que mais de 75 mil pessoas morreram desde o início do conflito.

Entre elas, mais de 19 mil crianças. Esse dado isolado já deveria provocar um choque moral global. Mas a dimensão da tragédia se torna ainda mais clara quando comparada a outros conflitos recentes.

Relatórios das Nações Unidas indicam que mais crianças morreram em Gaza em poucos meses de guerra do que em todos os conflitos armados do mundo entre 2019 e 2022 juntos. Em um território minúsculo, densamente povoado e submetido a bombardeios constantes, uma geração inteira está sendo destruída.

E a violência não se limita às bombas. O sistema internacional de monitoramento da fome classificou centenas de milhares de pessoas em Gaza no nível mais alto de emergência alimentar. A fome voltou a ser usada como arma. Uma arma lenta. Uma arma silenciosa. Uma arma que mata sem disparar um único tiro.

O massacre duas vezes

Vladimir Safatle descreve em A ameaça interna um episódio que sintetiza a brutalidade dessa guerra. Em fevereiro de 2024, mais de cem palestinos foram mortos na rua Al-Rashid enquanto tentavam obter comida. Mas Safatle observa algo ainda mais perturbador.

O massacre ocorreu duas vezes. Primeiro, pela eliminação física de uma multidão faminta lutando pela sobrevivência. Depois, pelas imagens que circularam pelo mundo. Filmadas por drones, as pessoas aparecem como pontos em movimento. Não vemos rostos. Não vemos corpos. Vemos apenas coordenadas de ataque. São apenas alvos. Manchas. Dados.

Safatle chama esse fenômeno de segundo massacre. É o momento em que o ser humano deixa de existir como sujeito e passa a ser apenas um objeto visual de destruição. O humano desaparece. Vira dado. Vira pixel. Vira alvo.

A guerra contemporânea está sendo redefinida por tecnologias de vigilância, drones armados e sistemas de inteligência artificial. Nesse novo modelo de guerra, quem decide o ataque muitas vezes está a milhares de quilômetros de distância. O operador vê uma tela. O algoritmo vê dados. A vítima vê o céu. A violência torna-se técnica. A destruição torna-se administrativa.

Esse processo representa a fase mais recente do complexo militar-industrial, expressão cunhada pelo presidente americano Dwight D. Eisenhower. Hoje esse complexo não envolve apenas fábricas de armas. Inclui gigantes da tecnologia, empresas de inteligência artificial e sistemas globais de vigilância. A guerra tornou-se digital.

E, ao se tornar digital, tornou-se ainda mais distante da experiência humana.

Trump, Netanyahu e a geopolítica da destruição

Gaza continua sangrando e morrendo e a atenção do planeta se volta para o Irã, a nova frente de extermínio executada pela mesma dupla que continua destruindo Gaza: Benjamin Netanyahu e Donald Trump.

A aliança estratégica entre Washington e Tel Aviv consolidou uma estrutura de poder militar capaz de projetar força sobre toda a região. Bombardeios. Bloqueios. Operações extraterritoriais. Sanções econômicas. Ataques seletivos. Decisões tomadas em gabinetes a milhares de quilômetros de distância determinam o destino de populações inteiras.

Esse sistema se sustenta em um aparato gigantesco que une poder militar, indústria bélica, inteligência estratégica e tecnologia de ponta. É a fusão entre Estado, indústria e guerra. É o complexo militar-industrial operando em escala global.

A acusação que começa a ganhar força

Nesse ambiente de devastação crescente, surgem acusações cada vez mais duras no debate internacional. Críticos da política externa americana afirmam que o estilo de liderança de Donald Trump — marcado por retórica agressiva, desprezo por normas internacionais e culto à força militar — alimenta comparações históricas perturbadoras.

Em círculos acadêmicos e políticos, começam a surgir insinuações de que Trump busca inscrever seu nome na história por meio da brutalidade do poder. Comparações com ditadores do século XX, incluindo o próprio Adolf Hitler, aparecem com frequência crescente em críticas internacionais.

Essas comparações fazem parte do debate político e são altamente controversas. Mas o simples fato de elas circularem com tanta intensidade revela algo inquietante: uma crescente percepção global de que o mundo atravessa um momento de grave regressão moral.

Talvez o sinal mais perturbador do nosso tempo seja a rapidez com que a violência se normaliza. Crianças mortas viram estatísticas. Cidades destruídas viram imagens de telejornal. Pessoas transformadas em pontos nas telas de drones viram dados. O sofrimento humano se torna informação visual. O massacre vira rotina.

E quando a barbárie vira rotina, a própria ideia de humanidade começa a desaparecer.

A acusação final de Primo Levi

Quando Primo Levi escreveu o livro É isto um homem? ele queria impedir que o mundo esquecesse. Queria impedir que a humanidade voltasse a atravessar o abismo moral que produziu Auschwitz.

Mas o século XXI parece caminhar novamente por uma estrada perigosa. Uma estrada em que a tecnologia amplifica a violência. Uma estrada em que a geopolítica transforma populações civis em danos colaterais. Uma estrada em que o poder militar se apresenta como árbitro da vida e da morte.

Diante das ruínas de Gaza, das crianças palestinas — e, agora, das crianças iranianas — soterradas por bombas, das mochilas espalhadas entre os escombros de uma escola e das imagens de drones que reduzem seres humanos a pontos numa tela, a pergunta de Levi retorna com uma força devastadora. Não é apenas uma pergunta histórica. É uma acusação dirigida ao nosso tempo.

Porque se aceitarmos que seres humanos possam ser transformados em alvos, estatísticas ou pixels de guerra, então talvez a pergunta de Levi já tenha encontrado sua resposta. E essa resposta seria a mais sombria possível.

E essa resposta seria a mais sombria possível. Sim. Ainda somos capazes de construir um mundo em que a humanidade desaparece.

 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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