As violações de direitos no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.Na reportagem abaixo, do jornal Brasil de Fato, o jornalista Leandro Uchoas registra que ativistas visitaram regiões ocupadas e colheram relatos de moradores. Execuções, tortura, arrombamento de portas e roubo são denúncias constantes. Original clicando aqui. Fotos: Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.

No dia 8 de dezembro de 1980, Mark Chapman acertou quatro tiros em John Lennon, em frente ao Edifício Dakota, em Nova York. Morria o mais famoso dos Beatles, aos 40 anos. Nos dez anos que antecederam o assassinato, o músico vinha assumindo um discurso pacifista e antiimperialista – à sua maneira, claro. Em Nova Brasília, no Complexo do Alemão, um caso emblemático ocorreu 30 anos depois. Ali vivia o jovem João Lennon, de 25 anos, viciado em crack. Ser irmão de um famoso traficante local era sua única vinculação com o crime.

O local onde ele morava era próximo de uma boca de fumo, o que o tornava mais vulnerável à ação policial, após a ocupação. No dia em que a polícia entrou no Complexo (28 de novembro), arrombou a porta de sua casa e o interrogou. Como seu xará de Liverpool, Lennon foi friamente executado. A simbólica morte do rapaz é apenas uma das ações policiais que, além de carecer de maior fundamentação, é pouco veiculada pelos principais veículos de comunicação – à exceção da Folha de S.Paulo, que tem dado certa visibilidade aos abusos policiais.

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.Os casos de arrombamento de porta são fartos no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro. “Não é permitido entrar na casa de ninguém sem mandado. Isso é ilegal”, afirma Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da UERJ. Embora seja, de fato, proibida, a ação é historicamente comum em favelas no Rio de Janeiro. Como muitas, essa é uma lei que não vale para regiões pobres da cidade. Entretanto, nas ocupações recentes da Zona Norte, a lei nunca foi tão desrespeitada. Como há, na região, todos os tipos de polícia, além do Exército, uma mesma casa está sendo invadida mais de uma vez. Tem sido comum moradores próximos se unirem para vigiar as casas dos vizinhos.

“Muita gente está perdendo oportunidade de emprego, porque tem que ficar em casa vigiando nossas casas de quem deveria protegê-las”, acusa a moradora Solange*. Quem anda pelas favelas da região encontra incontáveis bilhetes colados na porta. “Senhores policiais, não estou em casa porque estou trabalhando. A chave está com a vizinha do lado. O nome dela é Patrícia*”, diz uma das mensagens.

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.Segundo Carla*, que mora há 43 anos no Complexo e tem denunciado arbitrariedades junto a entidades de direitos humanos, nas vielas internas das favelas o abuso policial é mais comum. “Eles impõe o terror lá dentro. Só quem mora no interior é que sabe o que está acontecendo. É uma terra sem lei. Tem muita mãe que perdeu o filho, e não vai relatar porque tem medo. A população precisa de um trabalho sério de saúde mental”, diz. Nas ruas principais, há uma concentração enorme de policiais e soldados armados. Jornalistas também têm sido vistos a todo momento. Equipes de TV chegam a dormir na favela.

“É muito fácil o jornal Extra fazer um varal com mensagens de elogio. As pessoas que escreveram ali foram escolhidas”, acusa Carla, sobre o jornal popular das Organizações Globo. Mototaxistas já foram avisados por policiais que, assim que acabar a “celeuma midiática”, vão ter que pagar taxas para circular no Alemão. Uma vez confirmada, a ameaça é grave, porque significaria um embrião de milícia sendo instalado num dos maiores complexos de favela do Brasil.

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.“A gente anda pelas vielas [da Vila Cruzeiro] e sente que há alguma coisa errada no ar. Um clima de terror. A mãe que teve o corpo do filho lançado aos porcos foi procurar a polícia. Eles disseram para ela que, se ela ‘foi capaz de colocar um vagabundo no mundo, também era capaz de tirá-lo da pocilga’”, relata Alexandre Magalhães, da Rede Contra a Violência. Em uma visita de organizações de direitos humanos às comunidades, foram relatados diversos casos de pessoas tomando remédios controlados e crianças com problemas psíquicos. Uma mulher grávida de sete meses foi torturada por policiais.

Disseram que estavam à procura de R$ 100 mil. Quando ela negou qualquer possibilidade de possuir a quantia em casa, os policiais teriam dito: “pode ser R$ 10 mil”. Um menino foi trancado num quarto de casa, sofrendo tortura durante aproximadamente 90 minutos por cerca de dez policiais. A família, que logo antes já teria sofrido achaques na sala, teria ouvido tudo do lado de fora. O pai, deficiente físico, estaria com problemas psíquicos, considerando-se culpado.

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.“Ninguém consegue informação sobre as pessoas detidas no Alemão. Virou uma caixa-preta”, diz Isabel Mansur, da Justiça Global. Segundo os moradores, é comum a polícia, nos casos de abuso, dizer que vai voltar, para evitar denúncias. Há acusações também de que, nos dias iniciais, durante tiroteio, moradores foram utilizados como escudo pela polícia em algumas localidades mais afastadas.

“Essa diversidade de polícias diferentes, essa pulverização, serve justamente para dificultar a investigação. Tudo é construído para a gente não saber quem é, quem fez”, afirma Camila Freitas Ribeiro, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ). As entidades de direitos humanos pretendem contatar o ministro Paulo Vannucchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, para levar as denúncias. Porém, a transição no governo federal pode atrapalhar o processo. Na gestão de Dilma Rousseff (PT), a pasta será ocupada pela petista gaúcha Maria do Rosário.

Foto: Jornal Brasil de Fato/Leandro Uchoas e Gustavo Mehl.Alguns moradores aproveitam para reclamar da instalação das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na região. Segundo eles, as ações dos governos não atacariam os verdadeiros problemas da área. Grandes obras estariam convivendo, lado a lado, com ruas esburacadas, fiação caótica, lixo e esgoto a céu aberto. Também haveria o apadrinhamento político para a contratação de funcionários, e dívidas trabalhistas de algumas das empreiteiras.

Entidades locais, como a Raízes e Movimentos e a Verdejar, estão apresentando um pacote de projetos para o desenvolvimento local. Eles foram desenvolvidos pelos próprios moradores, e teriam gestão pública. O Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia, que reúne as entidades, não tem entre seus objetivos lidar com denúncias dos moradores, mas frequentemente são procurados. “Tenho medo até do Disque Denúncia”, disse um morador, numa das reuniões de apresentações dos projetos.

Exemplos documentados de abuso policial

Tortura em trabalhador

Pedro* voltava para casa no dia da ocupação de Nova Brasília. Ao passar por seis policiais, eles o pararam. Já estavam presas duas meninas, de 14 e 15 anos. Mostrou o crachá do trabalho, e eles zombaram. Começaram uma lenta e exaustiva sessão de tortura nos três. Andaram com eles pela comunidade onde puderam ver outras violações. Faziam tortura psicológica também. Pedro viu duas equipes de jornalistas, que o fotografaram. Conseguiu mostrar o crachá a eles, provando que era trabalhador – em vão. Os policiais ainda roubaram R$ 40, e ofenderam sua família. Os três ficaram traumatizados. As meninas foram embora da comunidade e Pedro dormiu a primeira noite fora da favela.

O Comando Azul

Flávio* trabalha há 23 anos na Prefeitura do Rio de Janeiro. Com sacrifício, comprou uma série de quitinetes por R$ 8 mil, em região conhecida como Zona do Medo. Alguns traficantes chegaram a morar lá. Um dia, dormindo na casa da nora, a polícia saqueou sua casa. Chegaram a usar a Kombi do vizinho para transportar eletrodomésticos e móveis. Foi até as quitinetes, e as encontrou no mesmo estado. Nas paredes, inscrições como “Comando Azul” e “Da próxima vez que eu entrar eu quebro mais”.

O método Bope

Isadora* mora em frente a uma boca de fumo. Na quinta-feira (dia 9), policiais do Bope entraram em sua casa procurando dinheiro. Ofereceram parte dele como recompensa. Quebraram eletrodomésticos, e a trancaram no quarto. Amarraram braços e pernas, e com um fio ligado à tomada, davam-lhe seguidos choques nos pés. Ameaçaram matá-la. Uma vizinha chegou com um policial, que seria o comandante da operação, mandando parar a sessão de tortura.

Tortura em bebê

Martha* estava em casa com os filhos, quando a Polícia Militar chegou, ao lado de um morador encapuzado (um “X-9”, ou dedo-duro). Acusaram-na de possuir armas e drogas. Arrombaram os móveis, destruíram brinquedos e roubaram R$ 240. Jogaram a filha de dois anos na cama e a espetaram com escopetas nos braços, nas nádegas e nas costelas. “Pena que eu não sei ler, senão poderia ter lido o nome deles no uniforme”, lamenta. A sessão de tortura só acabou quando o bebê, com problemas cardíacos, começou a tremer.

Neto como refém

Uma senhora de 51 anos acordou com o barulho em sua casa. Encontrou seu neto de 14 anos com uma arma na cabeça. A polícia perguntava por pessoas que ambos não conheciam. A chegada repentina da neta em casa teria salvado a vida do garoto. A polícia já teria entrado em sua casa cinco vezes, todas com equipes diferentes. Com problemas cardíacos, ela reclama que não pode deixar a casa para ir ao médico. A senhora se reveza em tomar conta de sua casa e da de seu filho, que mora perto. “Não me imagino sem ele”, diz.

O falso bunker

A casa de Talita*, trabalhadora e moradora da Vila Cruzeiro, foi rotulada pela mídia comercial de “bunker do tráfico”. Na ocupação, a polícia entrou e quebrou móveis, eletrodomésticos e uma parede. Por isso, sua família passou a morar de favor na casa de sua mãe. Talita teve de abandonar o emprego num shopping para ficar em casa protegendo a família. Ela tem epilepsia, o filho mais novo é alérgico a lactose e o mais velho tem febre emocional. Todos os sintomas se agravaram ultimamente. “Lá fora os policiais são educados. Mas aqui dentro a realidade é outra”, acusa. O marido foi achacado pela PM durante 40 minutos, no início da ocupação.

Policiais com fome

Josias* relatou que sua casa já tinha sido invadida quatro vezes. Na quinta (dia 9), chegou em casa e encontrou os policiais comendo miojo no sofá, feito em sua cozinha. Estavam com o ar condicionado ligado. Perguntaram se ele sabia de alguma coisa, mas ele respondeu que não podia falar nada, porque morava “em comunidade, sabe como é”. Seu armário ficou completamente destruído. Há muitos relatos de comida e bebida furtadas nas áreas ocupadas.

[*nomes fictícios]

7 comentários sobre “As violações de direitos no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro”

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  2. Que alguém tem coragem de fazer o tipo de comentário que o Carlos fez é um absurdo. É uma demonização da pobreza, uma criminalização de pessoas só porque elas não tiveram a sorte de cair nas graças de um sistema injusto pra ficarem ricas. Gente que já tem seu direito de construção da sociedade negado por monstros que abusam de seu poder ainda é forçada a conviver no mesmo mundo que gente que representa como o Carlos. Deus do céu.

  3. Ótima reportagem. Não fossem as midias alternativas, teríamos apenas a versão das grandes mídias, convenientemente selecionada para justificar a guerra que querem criar, que já se mostrou incapaz de resolver o verdadeiro problema outras vezes. E é nesse instante que começam a “relativizar” os direitos humanos – e é nessa hora que as barbáries passam a ser toleradas. Depois a exceção vira regra.

    (se já não é a regra para a vida das pessoas dessas comunidades).

    Excelente artigo! Parabéns pela acuidade no levantamento dos fatos e relatos, e pelo texto escrito.

    Abraços,
    Gabriel

  4. Eu estou lendo e relendo este post há dias e simplesmente não consigo formular um comentário! É atrocidade demais e o pior esses atos “marginalizam” todo um grupo perante a população. A Corporação por vezes (a maioria) pega bons recrutas e os transforma em “máquinas de matar”. E sabe? O Governador vai ser elogiado por tudo isso! Vai fazer a Copa, as Olimpíadas e quiçá se tornara presidente(livrai-nos) por tudo isso e quem será penalizado mesmo será o policia, peão nesse xadrez injusto que é a política.
    Espero que isso vire um documento.
    Vocês poderiam ter tirado fotos pelo menos dos hematomas pois ficaria mais factível, já que há por aí mtos cegos que não querem ver.

  5. Boa Reportagem, sou artista plástico, tem trabalhos no complexo do Alemão e atualmente estou criando uma série de pinturas chamada PACIFICAÇÃO? A mídia agora diz” a favela está pacificada” para justificar a invasão ao complexo de favelas da penha, como um lugar onde há um tanque de guerra parado na esquina pode está pacificado?
    Este trabalho artistíco está em andamento mas quem se interessar é só dar uma olhada em:
    http://dmitrideigatu.blogspot.com/p/murais.html
    Abraço a todos.

  6. O PÇOL E ESSE PESSOAL CONTRA TUDO FALA COMO SE VIVESSE ALI, MAIS ELES SÃO CLASSE MÉDIA E VIVE TODOS NA ZONA SUL NA BARRA, IPANEMA E COPACABANA. DIZ QUE SÃO CONTRA A VIOLÊNCIA E A DROGA, MAS CONDENA UPP. SÃO CONTRA MIZÉRIA MAS CONDENA O PAC QUE É PRA MELHORAR A FAVELA E O ASFALTO. FICAM CONTRA ESPORTES E COPA, QUE PODE MELHORÁ PRA POPULAÇÃO EM TERMOS DE SAÚDE. SÃO CONTRA TUDO MAIS NÃO TEM PROPOSTA REAL.

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