Ontem à noite, pensava em algo que vem me chamando a atenção há bastante tempo: a relação entre as palavras e as coisas. O quanto a palavra pode nos aproximar ou nos distanciar do que nomeia. Como o nomear alguma coisa, quando esta nomeação não coincide com a coisa, é um desencontro, um descaminho, uma desorientação.
E, como consequência disto tudo, várias conclusões ou observações: (1) é melhor calar do que nomear inadequadamente. Isto, obviamente, depende dos contextos e dos momentos. Mas me refiro ao seguinte: se eu desconheço alguma coisa, é melhor que confesse para mim mesmo que não sei do que se trata, do que nomeá-la de qualquer jeito, e me confundir e confundir os demais com palavras inadequadas.
Quero aclarar que não estou querendo apresentar a quem isto leia, posições definitivas, nem muito menos, aconselhar comportamentos. São somente explorações, e assim devem ser vistas. Melhor calar do que dizer qualquer coisa. Isto deve ser tomado com precaução. Às vezes, pode ser interessante observarmos a tentativa de designação de alguma coisa, e nessas aproximações, percebermos se chegamos ou não à palavra que mais se aproxima da coisa.
Parto do princípio de que raramente alcançamos a designar corretamente alguma coisa, seja no nosso conhecimento interior, seja nas nossas referências ao mundo em volta. Usamos uma linguagem que aprendemos a utilizar sem demasiada precisão, e que pode estar viciada de incorreções desde o começo.
Entendo que esta possa ser uma das significações que Julio Cortázar, no Diario de Andrés Fava, quis dar à expressão de que é necessário libertar a palavra, libertar a linguagem. Julio Cortázar usava em alguns dos seus escritos, construções verbais truncadas. Pode ser que fosse por não ter conseguido alcançar a palavra certa, a palavra correta, aquela mais próxima da coisa.
Nesses casos, é melhor não dizer do que dizer erradamente. Não por um afã de perfeição, mas por um respeito à realidade. A palavra é uma força, e se estiver mal direcionada, cria confusão ou destrói. Melhor o silêncio do que a palavra errada. O silêncio é a costura de todas as coisas, é o que une, o que vincula tudo que existe.
(2) Como decorrência desta postura de cuidado com a palavra, podemos concluir que é preferível a observação, a experimentação, a experiência, o estar aqui, no mundo das coisas, do que no mundo do pensamento intelectual, da interpretação. No estar aqui, há uma possibilidade de conhecimento direto, uma oportunidade de encontro com as coisas, com o que aqui está. Isto é algo que Julio Cortázar também explora em profundidade em vários dos seus escritos (“Después hay que llegar”, A volta ao dia em 80 mundos, Histórias de Cronópios e de Famas).
Existem as coisas, e as cópias das coisas arquivadas na memória. Estas cópias se sobrepõem ao que existe, e distorcem o nosso viver, nos relacionamos com as coisas a través de um reflexo deformado, que nos isola delas. É preferível um conhecimento direto, experimental, vivencial, do que o falso conhecimento a que nos condenamos quando vivemos na jaula das falsas noções.
A poesia seria uma possibilidade de encontrar o aqui e agora despido, tal como é. Creio que vale a pena explorar e experimentar neste sentido.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
