Afinal, o que está por trás da guerra dos EUA contra o Irã?

Imagem: A Final Toast – by Mr. Fish (via znetwork.org)
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Os EUA não escondem, desde o final da Segunda Guerra Mundial, que seus objetivos imperialistas têm raízes econômicas. Não é diferente no Oriente Médio, cuja maldição maior é sua posição estratégica e seus recursos naturais.

Daniel Axelrod argumenta que, no atual contexto, a escalada militar contra o Irã – há muito desejada – gira em torno de três temas interligados: petróleo, China e armas nucleares.

Portanto, argumenta o autor, não se trata de líderes “do mal” agindo por conta própria, radicalismo religioso (sionista ou islâmico), distração dos arquivos Epstein ou do lobby israelense, agindo sobretudo por meio da AIPAC. Esta é a versão de uma parte da imprensa dita “progressista”, supostamente crítica de Trump, mas que em nada ataca a verdadeira motivação desta empreitada genocida e suicida.

É fato que estas são peças do xadrez nos EUA e da geopolítica internacional, mas nada se relaciona com o que é fundamental nesta guerra.

As evidências são muitas: o Irã nunca foi uma ameaça real aos EUA nem mesmo a Israel. Foi o próprio diretor-geral da agência da ONU de energia atômica (AIEA), Rafael Grossi, que afirmou: o Irã não está desenvolvendo e nunca desenvolveu armas nucleares. O Irã – ao contrário de Israel – está e sempre esteve aberto a inspeções internacionais da agência, caso qualquer Estado-membro da organização queira verificar a situação in loco.

O líder extremista e genocida de Israel, Benyamin Netanyahou, afirmou que os atuais ataques do Irã contra países vizinhos seriam a prova maior desta ameaça. Ele ignora que se trata do óbvio: o Irã se defende de quem atacou primeiro.

Mais importante: EUA e Israel assassinaram seu líder. Não há por que gastar tempo com argumentos óbvios aqui: sob qualquer ponto de vista, incluindo o do direito internacional contemporâneo, esta ação é inaceitável e dá o direito de o país atacado se defender.

Além disso, o Irã nunca iniciou uma guerra em larga escala contra outro país na história moderna. Ao contrário dos EUA, nunca usou – ou sequer ameaçou – o uso de armas nucleares.

Aqui, as fraudes midiáticas usadas contra o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão se repetem, prontos para entrar nos livros de história como mais uma manufatura do consenso internacional. E muitos países se calam ou apoiam a fraude, como de costume – incluindo muitos europeus, que “monitoram” a situação.

O que está, portanto, por trás dessa guerra? Sigo o guia de Axelrod:

1. Petróleo

Os EUA têm um plano, há muitos anos, de controlar o petróleo iraniano que remonta a 1951.

Neste ano, um governo nacionalista progressista foi democraticamente eleito no Irã, liderado por Mohammad Mossadegh. Seu governo implementou segurança social, reforma agrária e direitos das mulheres. A política mais significativa foi a nacionalização da indústria do petróleo. No aspecto nacionalista, uma situação similar se deu no Brasil, com o Governo Vargas enfrentando os EUA para criar a Petrobrás.

No Irã, os EUA não aceitaram os nacionalistas. A CIA organizou, em 1953, um golpe para derrubar Mossadegh e instaurar uma ditadura sob o Xá Mohammad Reza Pahlavi.

Durante duas décadas, o Xá permitiu que empresas estrangeiras controlassem 80% da produção de petróleo iraniano, tal como aconteceu em governos de direita da América Latina (como Bolívia e Venezuela). O combo é sempre o mesmo: prisões ilegais e tortura eram comuns.

Por conta do profundo desrespeito aos direitos de seus cidadãos e da oposição, o regime do Xá gerou forte oposição e foi derrubado em 1979. Desde então, os EUA tentam retomar seu domínio político e econômico, buscando derrubar o governo iraniano e recuperar o controle do petróleo. Para isso, usam métodos como sequestros, assassinatos e invasões por forças proxy. A guerra inclui ainda severas sanções unilaterais contra o Irã desde 1979.

Aliás, não é coincidência que o filho mais velho do ditador pró-EUA Mohammad Reza Pahlavi, que leva seu nome (Reza Pahlavi), tenha sido treinado nos EUA como piloto e atua como “oposição” ao regime iraniano, como gosta de escrever a maior parte da imprensa. No mundo real, é um fantoche estadunidense autodenominado “Príncipe Herdeiro do Irã” e defensor da aproximação do Irã com Israel.

Este mesmo cenário ocorreu no Iraque, onde os EUA apoiaram Saddam Hussein na guerra Irã-Iraque (1980-1988), incluindo o fornecimento de armas e materiais para armas químicas.

Posteriormente, as invasões dos EUA no Afeganistão e Iraque – todas sem apoio da comunidade internacional, incluindo o Conselho de segurança – também foram motivadas pelo controle de recursos naturais. O mesmo na Síria, onde os EUA mantiveram o controle de áreas ricas em Petróleo.

Os EUA poderiam ter cercado militarmente o Irã – porém foram derrotados tanto no Iraque quanto no Afeganistão, tendo um pouco mais de sorte na Síria, onde avançaram no diálogo com “antigos” terroristas de grupos extremistas agora no poder.

Em 1986, Joe Biden afirmou que apoiar Israel era o melhor investimento de três bilhões de dólares possível, pois garante um ponto estratégico militar. Para ser mais preciso, ele disse: “[Apoiar Israel] é o melhor investimento de 3 bilhões de dólares que fazemos. Se não existisse um Israel, os Estados Unidos teriam que inventar um Israel para proteger seus interesses na região.”

EUA e Israel compartilham interesses militares e econômicos profundos. Israel não controla os EUA, argumenta Daniel Axelrod; ambos atuam em alinhamento, com os EUA como parceiro dominante.

Evidentemente que Irã é o país que efetivamente está ameaçado pelos EUA e Israel, e não o contrário. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o Irã busque alianças com grupos como Hezbollah, Houthis e Hamas.

O controle da cadeia completa do petróleo nos leva ao próximo ponto: a China.

2. China

Como sabemos, findada a Segunda Guerra Mundial, os EUA se tornam a principal potência econômica global, com a fragilizada Europa nas suas mãos. Porém, desde o início dos anos 2010, a ascensão da China começou a mudar a geopolítica mundial.

Segundo muitos analistas econômicos, a China já supera os Estados Unidos em diversos aspectos da economia global, como em paridade de poder de compra (PPP), na indústria e manufatura, em algumas cadeias produtivas estratégicas (como eletrônicos, energia solar e baterias) e em volume de exportações, entre outros indicadores.

Sem nunca ter invadido um único país, para além das disputas internas, a China demorou apenas algumas poucas décadas para afrontar a maior potência econômica e militar do século XX. Além disso, o avanço para o continente africano mostra a força da diplomacia e da economia chinesa.

A pergunta que fica na política estadunidense é: cooperar ou não com a China?

Essa ameaça direta torna a “conquista” do Oriente Médio como central para a poderosa elite dos EUA: precisamos do petróleo, e precisamos da sua posição geográfica estratégica.

Mas aqui falta o terceiro ponto: vamos a ele agora.

3. Armas nucleares

O mundo está mais próximo de uma guerra nuclear do que nunca, concordam muitos especialistas. E Israel é atualmente a maior ameaça, dada a liderança que o país possui hoje. O Irã, como destacado anteriormente, não possui a capacidade de retaliar com armas nucleares.

Se Israel recorrer a armas nucleares, pode desencadear resposta de aliados do Irã, como Rússia e China. Quais serão as consequências? Certamente, não é difícil vislumbrar uma Terceira Guerra Mundial.

E os EUA foram a primeira ameaça, já que na segunda metade do século o país detinha monopólio nuclear. Já em 1946, os EUA ameaçaram a União Soviética com armas nucleares em disputa por petróleo no Irã.

Não é preciso ter estudos avançados em geopolítica internacional para lembrar que, apenas um ano antes, em 1945, os EUA efetivamente usaram a bomba contra civis. Portanto, a ameaça era mais do que evidente.

Ao longo da história, armas nucleares foram usadas como ameaça em crises no Oriente Médio para manter a dominância dos EUA – e não foi diferente no Irã, desde então.

Não se trata aqui, enfatiza-se, de “defender” o regime iraniano – cujos registros de violações de direitos contra as mulheres e a democracia são muitos.

Registra-se aqui que a luta pelos direitos humanos não está – e nunca esteve – na pauta dos EUA para a região. Trata-se de uma “pauta proxy” para os objetivos aqui descritos.

Aqui se trata de voltar a dizer o óbvio: a guerra nunca gerou justiça social ou democracia. Atende apenas a interesses das elites econômicas e políticas.

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