
Visitando uma aldeia indígena da nossa região Nordeste, aqui pelo alto Sertão, tive a felicidade de reencontrar o filósofo e educador popular, o Professor Aristides Montenegro, melhor dizendo, nosso famoso professor Ari, o andarilho dos sertões. Nossa conversa foi muito agradável e bem interessante! Recordamos tantas histórias… Disse para ele que nunca me esqueci daquele encontro que teve conosco, alunos do Ensino Médio, numa das aulas maravilhosas da querida ex-professora, Sabina Aguiar. Revelou-me o que sentiu e como ficou meditando a respeito daquele convite que ela lhe fizera há tantos anos.
– Quase não acreditei e confesso que, na época, até me senti um pouco perplexo diante do apelo que a professora Sabina me havia feito e, mais ainda, porque teve a coragem de vir aqui para me fazer aquele pedido um tanto quanto arriscado. Mesmo naquele finalzinho de ditatura – ainda nos anos de chumbo – refletir a respeito do Brasil real era algo bastante desafiador, e perigoso. Que mulher corajosa, não é? Na verdade, como era do seu feitio, deixou-me livre para decidir e, em nenhum momento, forçou a barra, exigindo minha presença na escola onde trabalhava. Para ela, seria uma honra receber-me em meio aos seus alunos do Ensino Médio, num encontro onde eu poderia falar a respeito do nosso país. Enquanto pensava se atenderia àquele convite, vieram-me algumas lembranças agradáveis do nosso convívio, mesmo naqueles tempos tão difíceis dos anos setenta. A professora Sabina Aguiar era, realmente, uma pessoa incrível!
Recordo agora do nosso primeiro encontro e relembro também de toda nossa convivência naquela Escola Estadual Prof. Dr. Simão Boaventura. Desde os anos sessenta, eu já atuava como professor de Filosofia e era conhecido por todos como o Professor Ari Montenegro, escritor e ativista dos movimentos sociais. Meus textos críticos e questionadores da sociedade capitalista, dos costumes e filosofia do nosso tempo circulavam livremente pelas escolas, universidades, fábricas, sindicatos, igrejas, comunidades, rádios comunitárias, enfim, por toda esta nossa região.
Quando a professora Sabina Aguiar chegou à nossa escola, no início dos anos setenta, já havia lido todos os meus textos e disse estar encantada em me conhecer pessoalmente. Mais do que colegas, logo ficamos amigos, a admiração era recíproca e as conversas constantes. Alguns suspeitavam que tivéssemos “um caso”, pois estávamos sempre juntos. Ela me ouvia com toda atenção e, sempre que podia, fazia a correção ortográfica dos meus trabalhos. Na verdade, era mesmo um grande caso de amor entre um coroa de quase cinquenta anos e uma jovem de vinte. Juntos, “olhávamos na mesma direção”, mas não era nada daquilo que se falava sobre nós.
Quando ela chegou ao colégio, após difícil e disputado concurso, não foi fácil nem para os próprios alunos acreditarem que aquela jovem de dezenove anos daria conta do recado como a mais nova professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Leitora assídua dos grandes clássicos da Literatura, mesmo num país com tão pouco incentivo à leitura, gostava de ler também obras de Filosofia, Sociologia, Antropologia, História, enfim… O fato é que, ao entrar na universidade, ela já havia feito resumos e até fichamentos da maioria das leituras solicitadas no curso de Letras. Seu gosto pela leitura começara desde muito cedo.
Tudo isto foi me encantando, principalmente ao saber que era fã de Machado de Assis, Ariano Suassuna, Cora Coralina, Camões, Fernando Pessoa, Shakespeare, Victor Hugo, Ernest Hemingway, Dostoiévski, Leon Tolstoi e tantos outros gênios. Mais admirado fiquei em saber que já havia lido, com apenas dezessete anos – por pura curiosidade e por serem leituras proibidas em sua escola normal – obras dos grandes teóricos revolucionários, a exemplo de O Capital, de Karl Max; O Estado e a Revolução, de Vladimir Lenin; As Guerras Camponesas na Alemanha, de Friedrich Engels e A Mãe, de Máximo Gorki. Curioso fiquei em saber como conseguira ler tais obras num período de tanta repressão. Explicou-me que havia estudado com Raíssa, a neta de um dos revolucionários das Ligas Camponesas, o qual tinha todo este material e muito mais coisas escondidas a sete chaves. Difícil era a entrega dos tais livros na escola, por isso, Raíssa trazia apenas um a cada mês, dentro de uma sacolinha muito bem escondido e misturado aos outros livros para não chamar a atenção de ninguém. Ai das duas se fossem pegas! Tudo isto poderia ter sido evitado, mas, o fato é que foi apresentada em sala de aula uma lista de obras proibidas, cuja leitura os alunos jamais deveriam fazer e, como “o fruto proibido sempre atrai”, Sabina anotou o nome de todas elas, e leu quase todas.
Estes foram os famigerados “anos de chumbo”, no auge da maior repressão de uma ditadura civil-militar instalada no Brasil, a partir de 1964. Incrível alguém ainda ter a coragem de negar esses fatos! Muitos foram perseguidos, presos e torturados, inclusive eu. Tachado de comunista, subversivo, revolucionário e inimigo do sistema, fui dedurado pela elite local e pelos próprios colegas de repartição. Exonerado do cargo, uma vez que tiraram a disciplina Filosofia da grade curricular, preso incomunicável, sem direito à defesa, torturado dia após dia, num verdadeiro ambiente de terror, fui induzido a assinar depoimentos forjados e a confessar coisas que jamais fizera. Ouvida pelo Conselho de Justiça, forte pressão sofreu também a professora Sabina Aguiar, sendo logo liberada ao perceberem o quanto era jovem e que, com certeza, teria sido apenas influenciada por minhas ideias.
Num estado psicológico deplorável, as torturas amainaram quando descobriram que eu tinha parentes no exército e na marinha. Só após um forte desmaio e internação num dos hospitais da capital, veio a liberdade e isto aconteceu por intercessão do nosso arcebispo, Dom Vital. A partir daí, passei a ficar sob custódia dele, que me enviou às aldeias indígenas do alto sertão nordestino, a fim de morar e trabalhar com os padres, colaborando num trabalho missionário itinerante. Assim sendo, tornei-me um andarilho, verdadeiro peregrino por este Brasil afora. Hoje procuro viver da maneira mais simples possível, sempre lutando ao lado dos mais sofridos, principalmente ao lado dos indígenas e quilombolas, que me consideram um verdadeiro amigo-irmão. Há também quem ainda me veja como louco, lunático, desorientado… Não é este o caso da professora Sabina Aguiar, desprovida de qualquer tabu ou preconceito, sempre me considerou como pessoa e valorizou os meus trabalhos desde o início. Segundo ela, depois do meu desaparecimento, nunca deixou de investigar a respeito do meu paradeiro, finalmente, terminara me encontrando nestes rincões.
Antes de ir àquele encontro, Pery, eu pensava: o que poderei falar para esses jovens acerca do Brasil?… Infelizmente, a maioria ainda vive tão alienada com as falsas propagandas de um regime tão cruel! Depois de meditar um pouco, decidi que falaria a respeito da importância de se ter uma memória histórica, de lembrar dos fatos passados, por mais cruéis que eles possam ser, a fim de iluminar os acontecimentos presentes e futuros. Lembrar sempre para não se esquecer jamais! Você recorda que, no final do encontro, ainda falei a respeito da minha vida itinerante, das observações e impressões do que mais me chamava a atenção em minhas andanças de norte a sul, de leste a oeste deste país?
Vocês ficaram encantados quando falei da vida no campo, com suas montanhas e lagos, florestas e cachoeiras, das belezas naturais e de como é lindo o nosso Brasil! Percebi a tristeza em alguns rostos, inclusive o seu, quando eu disse nunca ter conseguido andar mais de um quilômetro sem ver estacas e arames farpados por todos os lados, e o quanto me impressionava o fato de vivermos num país cercado: cercas e mais cercas, de todos os tipos, cores e tamanhos, símbolos da opressão, egoísmo, ambição e individualismo que estão por toda parte. Infelizmente, isto continua acontecendo, ainda hoje, e de forma bem acentuada! Muitas propriedades cercadas com seus imensos rebanhos; com o monopólio de algumas culturas, a exemplo da cana de açúcar, do café e da soja; fora das cercas, a vida dos pobres vai ficando cada vez mais relegada, parecendo não valer nada, como se não existissem. A cada fazenda que surge, principalmente na Região Norte, são desmatados inúmeros hectares de terra. Nessa rota da opressão, as grandes estradas e os caminhos mais simples sempre vão dar em alguma cidade e, aí sim, é onde o problema se concretiza de fato, pois seja em grandes metrópoles ou em minúsculas cidadezinhas do interior, o cenário se repete com muros e cercas por todos os lados, inclusive imensas cercas elétricas, dando a falsa impressão de absoluta segurança e aprisionando cada vez mais a vida humana. O que se vê são portas e janelas gradeadas, portões eletrônicos, muros altíssimos, carros blindados, cercas elétricas, torres de guarda, redes de proteção, celas a sete chaves, correntes e cadeados por toda parte. Quanto mais bens materiais e posses, mais grades e cercas! Haja sufoco!
Você se lembra de que fiz referência ao grande e verdadeiro sufoco, a algo que afeta a todos nós, irremediavelmente? Minha amiga e irmã, continuo pensando que a grande opressão mesmo ainda não é esta dos campos e cidades cercadas, pois tudo isso é exterior a nós, está fora de nós. Na verdade, o grande cerco, o mais terrível de todos está em nós mesmos, infelizmente, está dentro de nós, quando nos deixamos aprisionar pelo medo, pelo individualismo e preconceito, pela ganância, ambição e ânsia de poder. Algumas dessas cercas a sociedade nos impõe, com suas regras, normas, tabus e falsos moralismos; outras, nós adquirimos, alimentamos e nos deixamos aprisionar. As consequências deste cerco interior são trágicas: seremos ao mesmo tempo prisioneiros e carrascos de nós mesmos; esmagaremos a vida humana como coisa, objeto; destruiremos a nossa própria singularidade, apagando a luz que está em nós e eliminando o sujeito que somos; viveremos sem nunca ter existido. Refletir sobre tudo isso já não foi um bom começo?…
– Um maravilhoso começo, professor Ari! Como sou grata a você, à professora Sabina e a todos os educadores que me ajudaram, e ainda me ajudam, a ser quem sou! Muitíssimo obrigada!
Pery-AçuPery-Açu
Bananeiras-PB: 22 de novembro de 2022
Vera Periassu (PerYaçu)
é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB (Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.
E-mail: veraperiassu@gmail.com
