A Pedagogia de Paulo Freire e suas interfaces com a Terapia e a Literatura

Breves notas a partir da exposição, seguida de diálogo com seus interlocutores, feita pelo Prof. Marcelo Bezerra de Oliveira.

Nestes últimos dias de convalescença, após dez dias de experiência hospitalar, tive a oportunidade de “ler” (ouvir) duas preciosas elaborações investigativas com que nos brindaram o professor Ivonaldo Leite, em seu precioso texto sobre a densa contribuição dos anarquistas, no período compreendido entre o último quartel do século XIX e as primeiras décadas do século XX, e de uma exposição valiosa, feita pelo professor Marcelo Bezerra de Oliveira, sobre o tema-objeto do presente texto. Oportunamente voltarei a tecer comentários sobre o texto do professor Ivonaldo Leite.

Neste 4 de maio próximo passado, tive a oportunidade de acompanhar virtualmente a exposição do Prof. Marcelo Bezerra de Oliveira, filósofo também dedicado à teoria do conhecimento de Paulo Freire, atendendo ele a mais um convite do Grupo de filósofos e filósofas Clínicos, do qual ele próprio faz parte, com o objetivo de expor as principais interfaces da Pedagogia radical freireana com a própria Filosofia Clínica, com a Terapia e com a Literatura.

Pressupondo nos seus interlocutores conhecimento prévio sobre dados biobibliográficos sobre Paulo Freire, professor Marcelo já apresenta Paulo Freire em seu trabalho no SESI em Pernambuco (Recife e adjacências), na segunda metade dos anos 50, mais precisamente ao final da década, coincidindo com a gestão de Miguel Arraes, à frente do Governo. Situa-o já como um pedagogo perspicaz, voltado para o acompanhamento e animação dos Círculos de Cultura junto às populações periféricas da área metropolitana de Recife. Já então, transparece seu trabalho brilhante, no âmbito da educação, voltado para o processo de Alfabetização daquelas populações, com características peculiares:

-Inspira-se na Pedagogia radical centrada tanto no inacabamento, quanto nas potencialidades dos Humanos. Uma pedagogia que se alimenta na vocação ontológica dos humanos a “ser mais”;

– É marcada pel concepção, e sobretudo pelo exercício da horizontalidade do trabalho pedagógico, em que educandos se sentem também educadores, e educadores comportando-se também como educandos;

– Trata-se de um trabalho movido pela Dialogicidade, ou seja, a convicção de que todos os que participam desse espaço educativo tenham direito a pronunciarem sua palavra;

– É uma experiência marcada, a cada passo e a cada momento, por um despertar e por um estímulo contínuos, no sentido de que os participantes exercitam a consciência de si e do mundo, não apenas como seres inconclusos, mas também como seres de marcantes potencialidades;

– Nesta experiência, o papel do Educador/Educadora não é o de “facilitar” o processo de aprendizagem, mas o de problematizá-lo perante os Educandos/Educandas;

– Trata-se de uma Pedagogia que antes de se preocupar com a “leitura da palavra”, exercita a “leitura de mundo”.

O Grupo de Filósofos e Filósofas Clínicos, também integrado pelo professor Marcelo, ocupa-se fundamentalmente de exercitar o pensar filosófico aplicado a situações clínicas, em que o Filósofo Clínico dialoga horizontalmente com o partilhante, tendo como objetivo um enfrentamento exitoso de situações existenciais disfuncionais por parte do partilhante. Dá-se aí uma experiência terapêutica, na força libertadora do conhecimento: – como preconizava o grande poeta cubano José Martí, “O conhecimento liberta”.

Meus primeiros contatos com a Filosofia Clínica em situação terapêutica me remeteram a outra bela experiência coletiva: Terapia Comunitária Integrativa (TCI), criada e liderada pelo Psiquiatra e Antropólogo Adalberto Barreto (também cursou Filosofia e Teologia) com sua rede de formadores e formadoras (da qual também fazem parte o Sociólogo Rolando Lazarte, a Enfermeira Maria Oliveira Filha, e a Pedagoga Ana Vigarani, entre tantas outras pessoas). Trabalhando inspirados na Pedagogia de Paulo Freire. A TCI organiza-se ao modo de um movimento tendo no “ethos” comunitário sua força de inspiração, atuando no Brasil e na América Latina, e em alguns países europeus. A quem interessar possa, sugiro o site https://www.adalbertobarretocursos.com/ .

Neste sentido, vale a pena um olhar crítico, para a trágica conjuntura brasileira atual, em que um segmento minoritário de nossa sociedade teima em manter-se refém no obscurantismo, no negacionismo, fazendo vistas grossas a evidências históricas, fazendo-nos retroceder a tempos tenebrosos.

No que diz respeito à Literatura, o professor Marcelo, de há muito, lidando com este campo, explicita com propriedade a força terapêutica do saber literário, um campo marcado pela riqueza da transversalidade com uma infinita gama de campos de saber – populares, artísticos, filosóficos, científicos…

Tanto em sua exposição inicial, como no momento de diálogo com os demais participantes, o professor Marcelo, também se ocupou de explicitar algumas fontes do pensamento freireano, tendo sempre o cuidado de não identificar o pensamento de Freire com qualquer uma das fontes em que bebeu, a medida que, ao longo de sua produção, sempre fez questão de, sem jamais negar nenhuma delas, exercitar sua autonomia frente às mesmas. Dentre as diversas fontes em que se inspirou Paulo Freire, o professor Marcelo destacou a alteridade recolhida do pensamento de Martim Buber “Eu e Tu”, enquanto um dos participantes da sessão acrescentou o nome de Emmanuel Lévinas, o Existencialismo, inclusive o de Gabriel Marcel (destacando seu aporte quanto à “A consciência fanatizada”) e seu diálogo com o marxismo, especialmente com Marx. De minha parte – sobre o tema já tive a oportunidade de escrever alguns artigos, inclusive https://revistaconsciencia.com/rastreando-fontes-da-utopia-freireana-marcas-cristas-e-marxianas-do-legado-de-paulo-freire-por-alder-julio-ferreira-calado/ – entendo terem sido o marxismo – Marx, Gramsci, … -, e a Teologia da Libertação as fontes principais de sua Pedagogia.

Graças ao professor Marcelo Bezerra de Oliveira, inclusive enriquecido pelos instigantes questionamentos compartilhados pelos seus interlocutores (Filósofos/Filósofas Clínicos) bem como por dois textos que ele previamente disponibilizou aos participantes, nos oportunizou uma reflexão crítica de grande atualidade, inspirada nas teses gnosiológicas de Paulo Freire, em suas interconexões com a Filosofia Clínica, a Terapia e a Literatura.

 

João Pessoa, 10 de maio de 2022.

Um comentário sobre “A Pedagogia de Paulo Freire e suas interfaces com a Terapia e a Literatura”

  1. Este texto e o seu anterior sobre Marx, me permitem comprovar a atualidade não apenas do pensamento de Karl Marx, como também de outras vertentes nascidas e alimentadas por um afã humanista, humanizador. Antídotos poderosos contra a tendência a apagar a singularidade de cada pessoa humana. O sistema em que vivemos teima em impor generalidades, generalizações, abstrações, enquanto que a realidade que vivemos é sempre única, em movimento, integrada no movimento constante de tudo que existe. Assim, toda educação deve necessáriamente ir em direção do vivido, a vivência, a experiência. Tenho lembrado muito nestes últimos tempos, do meu trabalho como docente na Escola de Sociologia e Politica de São Paulo, em que com meus alunos e alunas, mergulhávamos na busca da pluralidade, a diversidade, a multiplicidade. O cohecimento ativo, construido mais do que meramente consumido. A rua, a vida cotidiana como fontes de saber. Um enfoque caleidoscópico que acabou me conduzindo a defender na USP, a minha tese de doutorado em sociologia sobe Max Weber, publicada pela editora Cortez com o título de: “Max Weber: ciência e valores”. Obrigado por mais uma vez me lembrar da minha história, que me ativa para um presente realmente presente, não meramente repetitivo.

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