A partir de Mia Couto

Hoje assisti a um programa em que o escritor Moçambicano falava sobre a literatura, o ser escritor, as suas raízes africanas, o Brasil. Assisti apenas uma parte da entrevista, que era no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Mas bastou esse tempo breve, deve ter sido uma meia hora ou pouco mais, para poder desfrutar da simplicidade e profundidade deste biólogo que escreve, e que insistentemente ia se safando dos lugares comuns em que tem se pretendido enquadrá-lo.

A começar, a própria rotulação de escritor, da qual ele escapa dizendo não ser, mas estar escritor. Acontece de eu escrever, disse. Isto me chamou a atenção, pois normalmente alguém tende a se identificar com o que faz.

Ao longo da entrevista, ele foi fugindo desse tipo de enquadramento. Falou que os seus livros recolhem e preservam muito da oralidade da cultura africana, das línguas nativas.

Enquanto o escritor falava, eu não pude deixar de evocar escritores que me influenciaram e me influenciam, uma vez que uma das perguntas que dirigiram a Mia Couto, foi exatamente sobre isto.

Ele citou Jorge Amado, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Drummond, Mario de Andrade, mas comentou que um escritor não quer ser comparado. E isto não por vaidade, mas porque cada escritor cria seu próprio mundo, é o seu próprio mundo.

Um mundo que o insere em outros mundos. Um mundo no qual e a partir do qual ele vem a ser quem é, quem vai sendo. Tive a nítida impressão de que Mia Couto escapou das ciladas da linguagem coisificada, da palavra objetificada e estranha ao sentir da própria pessoa, sendo capaz de fazer para sí esse lugar sem o qual não é possível viver: o lugar de cada um.

Esse lugar é criado a partir de um ato livre, ou de muitos atos livres de quem escreve, que vão como que descascando as sucessivas capas de estranhamento com que a pessoa vai se isolando de si e das outras, pela sociabilização capitalista.

Não é a minha intenção aqui, outra do que a de partilhar uma breve pincelada sobre este extraordinário mundo próprio que a literatura nos permite criar e habitar: o lugar de cada um. Mia Couto falava das suas raízes africanas e da influência recebida do Brasil, mas negava-se a falar em literatura deste ou daquele país.

Senti-me reconciliado, uma vez que vejo a literatura desse modo também, como um lugar sem fronteiras, aberto a todo mundo, independentemente de nacionalidades ou credos, ideologias, ou qualquer outro elemento separativo.

Algo que também me chamou a atenção é que este escritor se assume como poeta, mais do que como escritor. Creio que muitos grandes escritores ou escritoras tendem à poesia ou vem do poético. Cada vez mais me convenço de que a poesia é a linguagem por excelência, na medida em que diz muito com poucas palavras.

Dispensa o discurso, o rebuscamento, a tentativa de explicar ou de convencer. Cria-se um silêncio comunicativo, integrador, unitivo. Estas breves anotações pretendem também partilhar, a enorme satisfação que as pequenas coisas, o que é breve, podem nos proporcionar.

Sei que o restante da entrevista me espera em algum outro momento, para prosseguir com Mia Couto esta fascinante viagem pelos mundos da literatura, os mundos que a literatura cria e o ser humano habita.

Um comentário sobre “A partir de Mia Couto”

  1. Muito bom este teu texto sobre os vários textos este hiper texto mia couto rolando lazarte! Adorei poder estar escritora e falar deste lugar no qual a escrita me toma. obrigado.

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