A esquerda precisa de um cosmopolitismo alternativo

Na marcha anual do Dia do Trabalhador em Londres, manifestantes exibiram girassóis em sinal de solidariedade. (Dan Kitwood/Getty Images)

Embora muitos críticos vejam o crescente caos global estritamente em termos geopolíticos, a filósofa política Lea Ypi argumenta que ele é, na verdade, ideológico — resultado de uma direita global cada vez mais coordenada. Para fazer frente a isso, a esquerda precisa se internacionalizar na mesma medida.

Uma entrevista de Meagan Day com Lea Ypi / Tradução de Pedro Silva / Jacobin Brasil, 27/04/2026

Acrítica padrão à ordem internacional liberal vem da direita atualmente: o Estado-nação é supremo, as instituições globais são uma farsa e as elites cosmopolitas traíram o cidadão comum. A defesa padrão vem dos liberais, que confundem o internacionalismo da ordem pós-guerra com o sistema econômico que ela sustenta e defendem ambos simultaneamente.

Insatisfeita com qualquer uma das posições, a teórica política Lea Ypi nos insta a desenvolver o que ela chama de cosmopolitismo alternativo — um internacionalismo de esquerda preparado para enfrentar os desafios da crescente desigualdade, do autoritarismo em ascensão e da escalada das guerras.

Ypi é professora titular da Cátedra Ralph Miliband de Política e Filosofia na London School of Economics. Ela cresceu na Albânia comunista e vivenciou o colapso do país ainda criança, experiência que narrou em seu livro de memórias, Free: Coming of Age at the End of History. Seu livro mais recenteIndignity: A life reimagined [Indignidade: uma vida reimaginada], também explora sua história familiar para elucidar a ascensão do fascismo no período entre guerras. A escrita de Ypi integra conteúdo pessoal com reflexõs de seu trabalho em filosofia política — particularmente reflexões sobre o valor compartilhado por liberais e socialistas pela liberdade e suas inúmeras traições históricas.

Nesta conversa com Meagan Day, da revista Jacobin, Ypi argumenta que a ascensão global da direita não deve ser compreendida como um realinhamento geopolítico, mas sim como uma convergência ideológica, que espelha o período entre guerras de maneiras perturbadoras. Ela analisa a distinção entre conservadorismo e fascismo, explica por que a radicalização do movimento MAGA segue uma lógica reconhecível de escalada e defende que a migração é fundamentalmente uma questão de classe, e não cultural.

Ypi também se baseia na história de sua família para argumentar que a esquerda precisa lidar honestamente com os dois fracassos, enraizados nas limitações do Estado-nação, do socialismo de Estado e da social-democracia, ambos os quais ela atribui às limitações do Estado-nação, se quisermos construir uma política de esquerda adequada à dimensão da crise atual.


MEAGAN DAY

Considerando o caos que se desenrola atualmente no Irã, faz sentido começar pela ruptura da ordem geopolítica. Ao observarmos as instituições do pós-guerra se fragmentarem ou confrontarem sua própria impotência — as Nações Unidas, as instituições de Bretton Woods, toda a arquitetura do internacionalismo liberal — você acha que estamos testemunhando um fracasso dessas instituições ou a exposição do fato de que elas nunca cumpriram o que prometeram?

LEA YPI

Uma combinação dos dois. Há uma narrativa sobre essas instituições que diz que elas sempre estiveram a serviço de padrões coloniais e de um sistema econômico específico, servindo às elites dos países ricos em detrimento das regiões mais pobres do mundo. Mas essas instituições também foram resultado de esforços para combater as tendências excludentes do liberalismo. Elas não concretizaram plenamente seu valor declarado de liberdade universal, mas representaram uma luta contínua para ampliá-la.

O que temos agora é uma ruptura que as pessoas tendem a entender em termos puramente geopolíticos — a ascensão da China, a crise na relação dos EUA com a Europa. Mas o que realmente estamos vendo é um conflito geopolítico impulsionado por alinhamento ideológico: a ascensão de uma visão de mundo de direita centrada na supremacia do Estado-nação. É etnocêntrica, etnonacionalista e enraizada em uma crítica às elites cosmopolitas liberais.

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“O que estamos vendo é um conflito geopolítico
impulsionado por um alinhamento ideológico:
a ascensão de uma visão de mundo de direita
centrada na supremacia do Estado-nação.”

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Esse é um fenômeno que se observa na Europa, no Oriente Médio e nos Estados Unidos. Trata-se de um alinhamento ideológico de direita, centrado na perspectiva de que a força faz o direito, os fortes fazem o que têm que fazer e os fracos sofrem o que devem sofrer.

MD

Algo novo está surgindo na direita global, ideologicamente? Ou o que vemos é semelhante à imagem que a direita sempre teve, apenas mais ousada e descontrolada?

LY

É muito semelhante à crítica às elites cosmopolitas liberais que se encontrava na direita no período entre guerras, quando o fascismo estava em ascensão. Muitas pessoas pensam que o fascismo é apenas conservadorismo, mas ele também possui uma compreensão construtiva de para onde quer levar o mundo, uma crítica ao internacionalismo liberal que já existia após a Primeira Guerra Mundial e a crise financeira.

O que mudou agora é que esta parece ser a crítica hegemônica ao capitalismo liberal e à globalização. No período entre guerras, havia outra leitura que também era uma crítica ao capitalismo e ao liberalismo internacional, mas vinda da esquerda, de uma perspectiva de classe. Hoje, a crítica ao status quo vem predominantemente da direita, enquanto a esquerda tradicional ainda luta para recuperar sua própria crítica ao capitalismo.

MD

Você poderia explicar a diferença entre conservadorismo e fascismo?

LY

É uma distinção de métodos. O fascismo é uma espécie de conservadorismo revolucionário. Ele defende que a ruptura com o status quo precisa ser mais radical, porque o status quo está muito preso a pressupostos liberais. O conservadorismo segue uma linha mais reformista — compromisso com valores e costumes tradicionais, mas não com a ideia de que é preciso destruir o mundo para recriá-lo segundo alguma visão de nação, superioridade civilizacional e homogeneidade racial que fundamenta grande parte do pensamento fascista.

Enquanto no conservadorismo encontramos mais compromissos com a ordem liberal, o fascismo possui uma energia muito mais destrutiva e criativa. Há uma compreensão nietzschiana da relação entre moralidade e poder no fascismo que é muito diferente do universalismo liberal. O fascismo, em sua essência, está comprometido com a ideia de que o poder se justifica e que as reivindicações morais em contrário são apenas as queixas dos fracos.

MD

Você diria que a ascensão do trumpismo e de figuras como Viktor Orbán e Jair Bolsonaro é uma evidência de uma crescente onda fascista?

LY

Eles emergem de situações diferentes. Orbán surge do fracasso do cosmopolitismo liberal na Europa Oriental, da crise financeira e da terapia de choque dos anos 90, enquanto Trump e Bolsonaro emergem de seus próprios contextos. Mas essas trajetórias, que começam de maneiras muito distintas, parecem convergir para uma direção fascista mais utópica.

Não acho que o MAGA comece fascista de fato. Há um processo de radicalização. Esses movimentos precisam de uma visão utópica para explicar por que não estão cumprindo suas promessas políticas. Por que os custos e os preços continuam tão altos mesmo estando no poder? É preciso um desvio ideológico de longo prazo para justificar isso perante seus eleitores — uma utopia hierárquica cada vez mais exclusiva.

MD

Eu estava lendo sobre um pequeno escândalo na política estadunidense: um grupo de bate-papo dos Jovens Republicanos de Miami teve suas conversas vazadas, e nele, estudantes universitários de direita estão compartilhando memes sobre o esotérico hitlerista Julius Evola e o conceito de Agartha de Heinrich Himmler — conceitos fascistas ocultistas bem específicos. Concordo com você, não acho que isso esteja no DNA do MAGA. Acho que isso é, sem dúvida, uma escalada ideológica.

LY

Exatamente. E enquanto eu estudava a ascensão do fascismo nas décadas de 1920 e 1930 para meu último livro, encontrei uma escalada ideológica semelhante. Quando pensamos em Hitler e nos nazistas hoje, pensamos no auge: o Holocausto, os campos de concentração. Mas nos primeiros anos do poder de Hitler, os liberais que estavam preocupados com ele diziam: “Bem, ele obrigou seus homens a removerem as declarações antissemitas porque entendeu que sua base havia ido longe demais”. As pessoas se tranquilizavam: “Não é tão ruim quanto parece”. Mesmo no caso da Alemanha nazista, houve processos de concessões e recuos, uma dialética em resposta aos eventos à medida que se desenrolavam.

MD

Quase nada é mais arrepiante do que analisar a escalada do fascismo na Alemanha e perceber como pessoas comuns se viram como lagostas sendo fervidas. Quanta credibilidade você dá aos paralelos com o período entre guerras?

LY

Acho que existem paralelos reais. A escalada fascista da direita é uma resposta à crise do capitalismo liberal. Isso era verdade na década de 1920 e é verdade agora. A história não se repetirá exatamente da mesma forma, mas podemos interpretar a ascensão da direita como uma resposta às falhas da social-democracia, por um lado, e do capitalismo liberal, por outro, como ocorreu nas décadas de 1920 e 1930.

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“A escalada fascista da direita é uma resposta à
crise do capitalismo liberal. Isso era verdade na
década de 1920 e é verdade agora.”

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MD

Também havia uma esquerda fortalecida no período entre guerras, e pode-se argumentar que hoje em dia isso não acontece mais.

LY

Sim e não. A Guerra Civil Espanhola foi o último momento em que houve um internacionalismo de esquerda genuíno. Depois disso, a esquerda se comprometeu — tanto em suas vertentes socialista quanto social-democrata — com o Estado-nação. E, nesse sentido, não é um projeto capaz de responder adequadamente a esta crise, que é, em última análise, uma crise transnacional. O que temos agora é a incapacidade da esquerda de criar uma ampla frente internacional com uma visão clara sobre os rumos que quer dar à sua crítica ao capitalismo.

MD

Entretanto, a direita parece construir, de forma bastante eficaz, um projeto internacional coeso.

LY

Sim, e isso já havia começado antes mesmo de estar no poder. Pense em Steve Bannon e no papel que ele desempenhou na conexão dos vários movimentos de direita na Europa e na América — já havia uma ampla mobilização transnacional em torno dessa ideologia de nação e Estado. Eles conseguiam afirmar que o capitalismo é transnacional e, portanto, qualquer esforço de crítica por parte da direita também precisa ser transnacional. Esses personagens se espalharam formando redes: think tanks, plataformas de notícias, figuras individuais que serviam de elos de ligação. Eles não estavam esperando chegar ao poder.

MD

O que explica o relativo fracasso da esquerda em replicar isso?

LY

O abandono da crítica ao capitalismo como um projeto de classe. Temos a esquerda ambientalista, a esquerda feminista, a esquerda antirracista, e houve uma crítica ao universalismo que dificultou a conexão dessas lutas identitárias em uma visão única. Paradoxalmente, a esquerda herdou a mesma abordagem culturalista que a direita adota para entender o conflito — dizendo que se trata de racismo ou gênero, sem inserir essas críticas em uma crítica ao modo de produção mais amplo.

O que realmente falta à esquerda é um cosmopolitismo alternativo. Quando eu era estudante no final dos anos 90 e início dos anos 2000 na Itália, esse foi o momento do movimento alterglobalização. Houve o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, a ideia emergente de uma globalização alternativa. Mas esse movimento foi sufocado pela hegemonia do neoliberalismo, que insistia que não era preciso outra forma de política, bastava lidar com a atual da maneira correta. Tudo o que você tinha que fazer era atender à Terceira Via: ajustes nas políticas públicas, um pouco de redistribuição, concessões às elites econômicas.

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“Nós, que estávamos nas ruas, éramos vistos
como românticos ridículos que não entendiam
que a Guerra Fria havia terminado e que não
havia alternativa.”

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Nós, que estávamos nas ruas, éramos vistos como românticos ridículos que não entendiam que a Guerra Fria havia terminado e que não havia alternativa. Foi isso que perdemos, e é isso que estamos lutando para recuperar.

MD

A esquerda tem desconfiado do Estado-nação por bons motivos. Mas, na história recente, foi justamente nesse contexto que os mais fracos conseguiram exercer seu poder. Existe algo de redentor no Estado-nação?

LY

Pragmaticamente, sim, porque o Estado-nação é o centro do poder coercitivo. Se você quer tomar e exercer o poder, precisa saber onde ele reside. Caso contrário, a luta social permanece em todos os lugares e em lugar nenhum.

Mas a razão pela qual as pessoas depositavam tanta esperança no Estado-nação era que, nas décadas de 1920 e 1930, havia a nação contra o império. O nacionalismo era uma força progressista na luta contra a ordem imperial, contra as igrejas e monarquias que não tinham nenhuma representação democrática. É por isso que ele era apresentado como progressista nos debates de esquerda da época, nos escritos de [Vladimir] Lênin e [Rosa] Luxemburgo e assim por diante.

Mas agora o império acabou. O Estado-nação é, em si, um representante da velha ordem. O nacionalismo já não é progressista, nem mesmo em sua formulação mais favorável. É apenas a exclusão do outro. As pessoas querem fazer distinções entre nacionalismo étnico e cívico, mas, no fim das contas, quando há uma fronteira, há uma diferença entre quem está dentro e quem está fora. É inevitavelmente excludente. Estamos em um momento diferente e precisamos de um tipo diferente de análise.

MD

Nesse ponto, como a esquerda deve se posicionar ao se dirigir a um público que tem sérias preocupações com a migração?

LY

Primeiro, precisamos mudar o discurso, abandonando a moralização da migração. Grande parte da discussão da esquerda gira em torno da ideia de que as fronteiras são arbitrárias, a liberdade de movimento é um direito fundamental e questiona por que as pessoas não podem se movimentar livremente. Essa discussão é conduzida em um nível tão moralista que fica difícil distinguir a defesa liberal dos migrantes da defesa feita pela esquerda.

A migração só se torna um problema quando ocorre em relações de poder assimétricas, como do Sul Global para o Norte Global. Ninguém se preocupa com a migração do Canadá para os Estados Unidos ou da Austrália para a Grã-Bretanha. Só nos preocupamos com a migração quando ela reflete assimetrias de poder mais amplas. E essas assimetrias são, elas próprias, resultado de guerras, crises econômicas e degradação ambiental.

A migração é uma consequência, não uma causa. Se realmente queremos resolver o problema, temos que intervir nas suas causas. E é aí que a direita não tem resposta. A ideia de que “precisamos tornar nosso país grande novamente à custa dos outros” só pode resultar em mais guerras, mais crises e mais desastres ao redor do mundo — e, consequentemente, mais migração.

É também muito importante destacar a dimensão de classe. As fronteiras nunca estiveram tão abertas para alguns e tão fechadas para outros como agora, mesmo em locais onde a direita está no poder. Quando Trump publicou aquelas imagens de pessoas acorrentadas sendo deportadas, ele simultaneamente se vangloriava da facilidade com que os oligarcas russos conseguiam vistos de investidor.

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“A migração só se torna um problema quando
ocorre em relações de poder assimétricas — e
essas assimetrias são, elas próprias, resultado
de guerras, crises econômicas e degradação
ambiental.”

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Os vistos dourados, os programas de cidadania por investimento — a direita sempre se mostrou disposta a abrir as fronteiras para os ricos. Então, se a preocupação é realmente com a mistura e integração cultural, por que a migração se torna tão fácil para algumas pessoas e tão difícil para outras que vêm da mesma origem cultural? Migração é uma questão de classe, não de cultura.

MD

Você cresceu por volta de 1989, e suas memórias tratam esse período como um ponto de virada muito ambíguo, em vez de um momento triunfante. Existe algo na experiência pós-comunista que nos ofereça ferramentas úteis para refletir sobre esse momento de instabilidade?

LY

Um dos aspectos interessantes na literatura sobre transição da década de 1990 é o conceito de “tripla transição”. Os antigos países comunistas precisavam construir economias de mercado, Estados democráticos com estruturas de legitimação e resolver o problema territorial, ou seja, todos os conflitos nacionalistas dentro de unidades multinacionais como a Iugoslávia e a União Soviética. Os estudiosos apontaram que não era possível ter as três coisas ao mesmo tempo e que não havia instituições intermediárias nessas sociedades — nem sindicatos, nem uma sociedade civil vibrante, nem partidos políticos de fato.

O que é fascinante é que as pessoas diziam isso como se o Ocidente se mantivesse de maneira coesa e constante. Elas pegavam o melhor do Ocidente — a era de ouro da social-democracia, as restrições aos mercados, os partidos com grande número de membros — e diziam que o Oriente precisava alcançá-lo. Mas, enquanto essas discussões aconteciam, essas instituições intermediárias estavam sendo completamente desmanteladas no Ocidente. Foi nessa época que os sindicatos estavam sendo destruídos, os partidos estavam se cartelizando. Tudo aquilo para o qual o Oriente deveria se voltar estava se perdendo.

Foi uma operação ideológica que atribuiu as conquistas das social-democracias ocidentais ao liberalismo em vez de ao movimento operário, enquanto, ao mesmo tempo, a era [Margaret] Thatcher-[Ronald] Reagan destruía o movimento operário. Eles se apropriavam do mérito pelas conquistas do movimento operário, mas sem as estruturas que as tornaram possíveis. O que se previa que aconteceria no Leste — líderes autoritários de direita usando questões culturais para desviar a atenção dos fracassos econômicos — acabou acontecendo tanto no Oriente quanto no Ocidente. A transição não ocorreu do Oriente para o Ocidente, mas no sentido oposto.

MD

Gostaria de destacar um ponto da sua entrevista com Aaron Bastani na Novara Media, que tem a ver com o histórico de perseguição da sua família sob o comunismo e a sua contínua identificação como socialista posteriormente.

Quase tudo o que os estadunidenses ouvem sobre esse assunto é: “Minha família viveu sob o comunismo, eles foram perseguidos e eu posso afirmar com certeza que isso nunca daria certo”. Mas muitos socialistas foram perseguidos sob o comunismo e mantiveram seu compromisso com os valores socialistas. Você poderia falar sobre como isso funcionou na sua família?

LY

Meu avô era social-democrata e foi perseguido pela liderança comunista albanesa por isso. Mas um social-democrata das décadas de 1920 e 1930 era diferente do que entendemos por social-democracia hoje. Os social-democratas daquela época não acreditavam que democracia e capitalismo fossem compatíveis. A social-democracia, em suas origens, possuía um projeto muito mais radical do que lhe atribuímos hoje em dia.

A única diferença real entre social-democratas e comunistas na época dizia respeito à revolução e, consequentemente, à relação entre a vanguarda e o povo. O grande debate entre Éduard Bernstein e Rosa Luxemburgo girava em torno do método, reforma versus revolução, mas os objetivos eram os mesmos. A premissa fundamental era que, para se ter uma democracia verdadeira, era preciso conter e, eventualmente, superar o capitalismo.

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“A social-democracia, em suas origens, possuía
um projeto muito mais radical do que lhe
atribuímos hoje em dia.”

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Em lugares como a Albânia, o projeto de construção do socialismo foi fundido com o projeto de construção de um Estado-nação a partir do colapso do império. Isso significava que não se tinha um socialismo construído por meios democráticos. Tinha-se um híbrido estranho: controle sobre os mercados, mas sem uma esfera pública funcional, sem legitimação democrática, sem democracia partidária. Era socialista em alguns aspectos importantes, mas também era muito repressivo, inclusive para socialistas e social-democratas que se desviassem da linha oficial.

Em contrapartida, podemos imaginar um socialismo democrático. É possível ter um Estado socialista com uma constituição socialista e diferentes tipos de partidos socialistas, e, de fato, um sistema multipartidário contribui significativamente para a legitimação e a responsabilização. Então, por que adotamos essa compreensão tão restrita do que foi o socialismo, exemplificada por casos como o da Albânia, e a transformamos na definição definitiva — contrariando todas as outras correntes socialistas que foram reprimidas pelos socialistas de Estado?

Às vezes, as pessoas sugerem que eu não devo me importar com a minha própria família. Mas não vejo por que me importar com a minha família signifique ficar do lado daqueles que meu avô sempre considerou errados. Ele sempre achou que o capitalismo era o problema. O fato de ele ter sofrido sob o comunismo na Albânia não significa que o capitalismo deixou de ser um problema. Permanecer fiel às minhas raízes significa não deixar que os inimigos dele definam o que significa socialismo.

MD

Acho que os socialistas mais novos às vezes se confundem nesse ponto. Eles descobriram sua própria crítica ao capitalismo e agora o mundo parece dividido em dois campos rivais, e eles querem estar do lado certo. É fundamental analisar essa situação com mais nuances.

LY

Certo, quando na realidade, para reconstruir a esquerda, é preciso acertar as contas com os dois fracassos do século XX: o fracasso do socialismo de Estado e o fracasso da social-democracia em sua versão enraizada no Estado-nação. O socialismo de Estado fracassa por sua ligação intrínseca ao Estado-nação, sua falta de democracia e sua negligência com liberdades fundamentais como a liberdade de movimento, associação e expressão. Não se pode simplesmente dizer: “Eles tiveram que fazer isso, então estava tudo bem”. O socialismo sempre se tratou de igualdade, mas nunca se tratou apenas de igualdade; sempre se tratou também de liberdade.

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“Para reconstruir a esquerda, é preciso acertar
as contas com os dois fracassos do século XX: o
fracasso do socialismo de Estado e o fracasso da
social-democracia em sua versão enraizada no
Estado-nação.”

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Ao mesmo tempo, precisamos também ser muito críticos em relação aos social-democratas e à forma como fizeram concessões ao capitalismo, e aonde isso levou: às ondas de neoliberalismo dos anos 90. Ambos os fracassos estão ligados ao Estado-nação. Uma alternativa precisa aprender com ambos. Precisamos recuperar a crítica ao capitalismo, por um lado, e a crítica ao Estado-nação, por outro. O Estado-nação requer estruturas de legitimação que não funcionam com uma crítica ao capital transnacional — capital que opera no Norte e no Sul globais, que gera imperialismo e conflitos por recursos em nível global.

MD

Quais são suas impressões sobre os eventos que se desenrolam no Irã?

LY

A guerra é a conclusão lógica da tendência de responder às crises políticas e econômicas jurando tornar o próprio país grande novamente. Uma visão de mundo construída em torno do Estado-nação é necessariamente baseada na ideia de que o mundo pertence aos poderosos, e os poderosos têm o direito de destruir tudo o que não se conforma. A guerra é simplesmente essa lógica levada às últimas consequências.

Mas o que é realmente interessante sobre esta guerra com o Irã é que os Estados Unidos não sentem necessidade de legitimá-la moralmente. Quando pensamos na Guerra do Iraque, os internacionalistas liberais se esforçaram muito para explicar que se tratava de normas internacionais, de justiça internacional. Havia necessidade de justificativa além do Estado-nação. A lógica não era simplesmente o poder bruto e desmedido. Nesta guerra, há muito pouco disso.

MD

Isso parece refletir a fragilidade do institucionalismo liberal. Talvez tenhamos chegado ao ponto em que a direita pode simplesmente travar uma guerra em seus próprios termos, sem recorrer à ética da ordem liberal.

LY

Sim. Mas, ao defender o pacifismo, é importante não defendê-lo apenas com base na necessidade de respeito à ordem internacional liberal — porque essa ordem sempre foi falha e assimétrica. O verdadeiro pacifismo só é possível depois de superarmos ambos os problemas: o capitalismo, por um lado, e o Estado-nação como obstáculo à concretização de um mundo socialista, por outro. Existe uma visão das instituições internacionais que não se limita a defender as instituições que temos em sua forma atual.

Não sei se podemos delinear um programa de dez pontos para o que vem a seguir. Começa-se com uma análise do momento presente e uma crítica ao que deu errado no passado, e a partir daí constroem-se as instituições democráticas necessárias para levar essa crítica adiante. Mas acredito que isso deva assumir a forma de um cosmopolitismo alternativo. Essa é a maneira mais coerente de dar sentido aos conflitos do mundo globalizado.

faz parte da equipe de articulistas da Jacobin.

é professora de teoria política na London School of Economics.

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