
Reflexão busca entender os erros e acertos não para apontar culpados, mas para construir uma síntese que permita a unificação e o fortalecimento da esquerda na luta política.
O debate sobre a crise da esquerda é um tema complexo que exige uma análise profunda e abrangente do processo político, evitando a armadilha de observações parciais, focadas apenas em um governo ou evento específico. Para compreender o cenário atual, é necessário retroceder às décadas que marcaram a redemocratização do Brasil, analisando a trajetória dos movimentos sociais, as decisões políticas tomadas e os desafios impostos pela conjuntura nacional e internacional.
Este artigo propõe uma análise dividida em três períodos históricos cruciais: a ascensão dos movimentos sociais nos anos 80 e 90 em contraponto ao avanço neoliberal; a chegada da esquerda ao poder nos anos 2000 e as escolhas políticas que, em retrospecto, desmobilizaram suas bases; e, por fim, o período de instabilidade a partir de 2013, que encontrou uma esquerda desarmada para enfrentar a ofensiva conservadora. Trata-se de uma reflexão fraterna, que busca entender os erros e acertos não para apontar culpados, mas para construir uma síntese que permita a unificação e o fortalecimento da esquerda na luta política contemporânea.
Anos 80 e 90: a contradição entre a ascensão interna e o refluxo global
As décadas de 1980 e 1990 representaram um grande paradoxo. Enquanto o mundo assistia à derrocada do bloco socialista e à crise ideológica que impactou os partidos de esquerda em escala global, o Brasil e a América Latina viviam um momento de efervescência democrática. A redemocratização abriu espaço para uma notável rearticulação dos movimentos sociais. Eventos como a reabertura da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1979, a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980, e a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1983, simbolizaram a força de uma sociedade que se reorganizava e clamava por participação.
Essa ascensão popular, no entanto, coexistiu com a implementação de um agressivo projeto neoliberal. As forças conservadoras, mesmo diante da mobilização social, avançaram com políticas de desregulamentação, desestruturação do Estado e privatizações em massa. Um estudo do IPEA aponta que, desde a redemocratização, 80% das empresas públicas da União foram privatizadas, um dado que ilustra a dimensão do desmonte do aparato estatal e da capacidade de investimento em políticas públicas. A década de 90 foi, portanto, um período de intensa luta e resistência, onde os movimentos sociais, embora fortes e mobilizados, atuavam principalmente na defensiva para conter o sucateamento da máquina pública e a retirada de direitos trabalhistas.
Mesmo nesse cenário adverso, a resistência construiu quadros políticos fundamentais para a democracia brasileira e conseguiu barrar temporariamente a chegada da onda conservadora que já varria o mundo. A luta contra a ALCA, por exemplo, demonstrou a capacidade de mobilização da sociedade civil organizada. Esse período forjou lideranças e consolidou uma base social que seria decisiva na década seguinte.
Os anos 2000: a esquerda no Governo e o abandono da perspectiva de transformação social
A chegada da esquerda ao governo federal no início dos anos 2000 representou uma mudança de paradigma. É inegável a importância dos governos do PT, especialmente no campo social. Entre 2002 e 2014, 36 milhões de pessoas saíram da linha da pobreza, um feito que, por si só, justifica a relevância histórica desses governos para a maioria do povo brasileiro. Contudo, a análise crítica das decisões políticas tomadas nesse período é fundamental para entender a crise atual.
O principal equívoco, segundo uma análise mais aprofundada, foi a gradual perda do horizonte de transformação social. Ao assumir a gestão do Estado, a esquerda passou a priorizar a governabilidade, o que levou a composições com o centrão e a uma postura de conciliação que evitava o tensionamento político na economia e em outras áreas estratégicas. O governo tornou-se um fim em si mesmo, e a lógica da gestão se sobrepôs à da transformação. A crítica interna foi desencorajada sob o argumento de que poderia fortalecer a direita, criando uma redoma que impediu a autocorreção e o aprimoramento das ações políticas.
Essa dinâmica teve um efeito colateral devastador: a desmobilização das bases. Os movimentos sociais, que haviam sido a espinha dorsal da resistência nos anos 90, foram desarmados. Lideranças sindicais e populares foram cooptadas para a máquina estatal, e a energia da luta política foi canalizada para a institucionalidade. Ao abandonar a perspectiva da luta de classes e se adaptar à racionalidade do sistema, a esquerda abriu mão de sua principal força – o povo organizado – e, sem perceber, preparou o terreno para a sua própria fragilidade.
De 2013 à atualidade: a ascensão da extrema direita e a esquerda desarmada
A onda conservadora, atrasada pela pujança dos movimentos sociais nos anos 90, finalmente chegou ao Brasil com força em 2013. As manifestações de junho, embora com pautas inicialmente legítimas como a defesa de serviços públicos de qualidade, foram rapidamente apropriadas por uma nova direita que soube canalizar a insatisfação popular contra os governos do PT. A esquerda, que já não comandava o processo nas ruas, viu-se acuada e sem capacidade de resposta.
O período subsequente foi uma sucessão de derrotas: a Operação Lava Jato, o golpe de 2016 que destituiu a presidenta Dilma, a prisão do ex-presidente Lula em 2018 e, no mesmo ano, a eleição de Jair Bolsonaro. Esse processo revelou o quão desarmada a esquerda estava para a batalha política. A ausência de movimentos sociais fortes e autônomos para defender o projeto em curso mostrou que o governo não pode ser um fim em si mesmo e que a luta política transcende a institucionalidade.
A vitória de Lula em 2022, embora crucial para a defesa da democracia, não pode ser vista como uma vitória do projeto transformador da esquerda. O governo atual é um governo de transição, fruto de um amplo acordo político para restaurar minimamente a racionalidade política e frear o avanço do autoritarismo. Exigir dele grandes transformações seria ignorar a complexa correlação de forças que o constituiu.
Balanço e caminhos para o futuro
O balanço da trajetória da esquerda brasileira revela erros estratégicos cruciais: a perda da perspectiva revolucionária e de transformação social, o abandono da luta de classes como categoria de análise e ação, a desmobilização dos movimentos sociais e a falha na formação contínua de quadros políticos.
Superar a crise exige, antes de tudo, um reencontro com esses princípios. É preciso retomar um projeto que aponte para a superação do capitalismo, colocando os movimentos sociais novamente como protagonistas da luta política. A institucionalidade é importante, mas deve ser um acessório, um instrumento a serviço da transformação social, e não o contrário.
A tarefa é complexa e não começa do zero. A história de luta e a capacidade de resistência do povo brasileiro são um ativo valioso. É necessário, agora, organizar-se para a disputa de ideias, formar quadros e reconstruir a capacidade de mobilização, entendendo que o processo político é feito de erros, acertos e, acima de tudo, da capacidade de reconstruir. A esquerda precisa voltar a ser uma esquerda anticapitalista para representar um futuro para além da maioria.No esforço de contribuir com a retomada da formação política dos quadros da esquerda, construí o canal “A Questão Política” no YouTube, onde aprofundo este e outros temas relacionados à política. Convido todas e todos a conhecerem, acompanharem e ajudarem a divulgar o canal.
Autor: Leandro do Erre – Mestrando em Sociologia e Ciência Política na PUCRS e responsável pelo canal no YouTube “A questão política”. Redes Sociais: X: @leandrodoerre Facebook: Leandro do Erre
