A cidade onde as mulheres aprendem a pedir desculpas

Crédito: SvetaZi – iStock / Fast Company Brasil

Por Paty Guimarães*

A cidade acordava antes dela, como se tivesse pressa de ocupar o mundo antes que alguém pudesse contestar. Ainda era cedo quando o primeiro ônibus passou bufando na avenida principal, espalhando um cheiro de diesel misturado ao pão recém-assado da padaria da esquina. Ela reconhecia esses cheiros sem abrir os olhos. Faziam parte de um cotidiano que se repetia com a precisão de um ritual não escolhido.

Do quarto, via apenas um recorte do céu entre prédios antigos, com varandas estreitas e plantas cansadas. O sol ainda não havia chegado inteiro, mas já insinuava sua presença numa luz pálida, quase tímida. A cidade nunca pedia licença. Ela entrava.

Ela se levantou devagar, sentindo o chão frio sob os pés. O apartamento era silencioso demais para aquela hora. Um silêncio limpo, recente, conquistado. Durante muito tempo, o espaço fora preenchido por vozes, expectativas, ruídos emocionais que não eram dela. Agora, restavam apenas os sons essenciais: o refrigerador antigo, o passar distante dos carros, o próprio respirar.

O espelho do banheiro devolveu uma imagem conhecida, mas não totalmente familiar. Havia ali uma mulher que aprendera a se conter. Não no sentido de repressão explícita, mas numa contenção educada, quase elegante. Ombros que raramente se expandiam por completo. Um olhar treinado para antecipar reações alheias. Um corpo que sabia quando se recolher antes mesmo de ser solicitado.

Ela escovou os dentes observando esse reflexo com atenção clínica, como se estivesse estudando alguém que conhecia há muito tempo, mas nunca tivera coragem de confrontar.

Naquela cidade, mulheres aprendiam cedo a pedir desculpas.
Desculpa por falar alto.
Desculpa por ocupar espaço.
Desculpa por não responder.
Desculpa por dizer não.

Não era um ensino formal. Ninguém sentava meninas em cadeiras alinhadas para explicar isso. Era aprendido no gesto interrompido, no olhar atravessado, no comentário disfarçado de conselho. Um aprendizado silencioso, eficaz.

Ela aprendera bem.

Na cozinha, o café subiu rápido demais e queimou um pouco. O cheiro amargo se espalhou, lembrando-lhe que nem tudo precisa sair perfeito. Ainda assim, ela tomou o primeiro gole com cuidado, como quem testa o dia antes de aceitá-lo por completo.

Sentou-se à mesa pequena, de madeira clara, e deixou o celular virado para baixo. Esse gesto simples, deixar o telefone fora do campo de visão,
ainda lhe causava uma estranha sensação de desobediência. Durante anos, fora treinada a estar disponível. Responder rápido era sinal de afeto. Demorar era quase uma afronta.

Agora, o silêncio era escolha.

Ela pensou nas relações que havia vivido naquela mesma cidade. Homens que chegavam cheios de palavras, promessas, presença ostensiva. Homens que confundiam intensidade com profundidade. Que falavam de amor enquanto testavam limites. Que diziam “é só cuidado” quando, na verdade, era vigilância.

A insistência sempre vinha bem vestida.
Nunca chegava como ameaça.
Chegava como preocupação.
Como saudade exagerada.
Como discurso.

Ela respirou fundo, sentindo o café descer quente pela garganta. O corpo, finalmente, não reagia com tensão automática. Esse era o sinal mais claro de mudança: o corpo já não se preparava para agradar.

Vestiu-se sem pressa. Escolheu uma roupa confortável, sem pensar em quem a veria. Esse detalhe, vestir-se sem plateia imaginária, era uma liberdade recente. Durante muito tempo, até a solidão vinha acompanhada de um olhar externo internalizado.

Ao sair do apartamento, trancou a porta com calma. O corredor cheirava a desinfetante barato. As paredes, amareladas, carregavam histórias que ninguém mais contava. Ela desceu as escadas sentindo o próprio peso, o próprio ritmo, o próprio tempo.

Na rua, a cidade já estava desperta. Homens falavam alto ao celular. Mulheres caminhavam apressadas, bolsas coladas ao corpo, olhos atentos. Ela percebeu como muitas delas mantinham o mesmo gesto: ombros levemente para frente, como se pedissem desculpa por atravessar o espaço público.

Aquilo era político.
Sempre fora.

Ela caminhou até a esquina e parou por um instante, observando o movimento. Não sentia urgência. Não sentia culpa. Apenas presença.

Pela primeira vez em muito tempo, não havia ninguém esperando algo dela.

E isso não era vazio.
Era começo.

* Paty Guimarães
Professora formada em Artes Cênicas, com especialização em Educação Artística
patyguimarte@gmail.com

3 comentários sobre “A cidade onde as mulheres aprendem a pedir desculpas”

  1. Parabéns a minha filha pela excelente escrita nesse texto onde descreve o sentimento das mulheres que exercem papéis que muitas vezes não as satisfazem, mas que lutam para sobreviver nesse mundo em que o machismo é preponderante. Os detalhes do momento em que ela acorda até a saída de casa são ricamente e emocionalmente descritos. Orgulhosa da Paty e que venham mais e mais escritos.

  2. Ainda hoje muitas mulheres só conseguem deixar de pedir desculpas a seus “senhores” por terem pensamenos próprios depois que esses batem as botas. Tal comportamento é fruto de uma educação informal e do medo. Ora, nem feminismo radical e tampouco a subimissão mórbida, o ideal é o respeito mútuo. Muito bom seu conto, Ana Amélia, parabéns!

  3. Paty,Seu texto é de uma sensibilidade cortante. Você capturou com precisão cirúrgica aquela “geografia do corpo” feminino que se molda para não incomodar o ombro que encolhe, o olhar que antecipa o outro, o pedido de desculpas que vira vírgula.

    A transição do silêncio imposto para o silêncio escolhido é o coração da narrativa. É muito potente como você descreve a liberdade não como um grande evento barulhento, mas como pequenos atos de “desobediência”: o café queimado, o celular virado para baixo, o vestir-se sem plateia. Parabéns pelo MARAVILHOSO texto!

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