A charmosa Genebra também no circuito dos “indignados”

Acampamento no parque da Universidade de Genebra (Todas as fotos são de Deta Maria)

Indignados - o ser humano antes do lucro

Genebra, na Suíça, cidade que tem um charme todo especial por sediar vários organismos que atuam no âmbito das Nações Unidas, também está inserida entre as centenas que aderiram ao movimento dos chamados “indignados”, cujo mote central é a revolta da população, especialmente os jovens, diante dos desmandos do capital financeiro, da falência da democracia representativa e a busca de alternativas políticas e culturais, dentro de um quadro de agravamento da crise do capitalismo (não é à toa que o movimento mais famoso é o chamado Ocupa Wall Street, em Nova Iorque – coração do sistema financeiro internacional -, que vem se mantendo há cerca de dois meses, mesmo com repressão policial e a destruição de seu acampamento na Praça Zuccotti).
Os “indignados” de Genève (como eles dizem no seu idioma, o francês) também atenderam à convocação dos rebelados de Madrid/Espanha (acampados na praça Porta do Sol) e, depois das manifestações de 15 de outubro disseminadas pelo mundo, acamparam no Parc des Bastions, o parque da Universidade de Genebra. O local é aberto ao público e muita gente circula por lá, muitos para cortar caminho e muitos outros são turistas que vão visitar o “muro dos reformadores”, muro onde se encontram as estátuas de Calvino e seus aliados que fizeram a cisão do catolicismo no século 16, criando a Igreja Protestante.
Eles montaram tendas e estão vivendo no acampamento há cerca de um mês. Organizaram-se da melhor maneira possível, instalando uma pequena cozinha e sanitários móveis. “Coisa de suíço”, como diz um amigo meu brasileiro, morador da cidade há muitos anos que me enviou as informações, dando uma de correspondente internacional. Inicialmente instalaram-se junto ao “muro dos reformadores”, mas foram obrigados pela polícia a se mudar para um pouco mais distante, a fim de deixar o local livre para os turistas.


No acampamento, meu amigo conversou com uma jovem, de nome Natasha, que não estava acampada, mas deu um jeito de participar das atividades promovidas pelos manifestantes. Ela montou uma tenda para atuar junto às crianças. No dia da visita do nosso “correspondente”, Natasha tinha lido alguns contos para as crianças e pediu que elas desenvolvessem os temas lidos através de desenhos. Um dos contos falava de uma gata que roubava para poder alimentar os filhotes. O desenho de um dos garotos (mais ou menos 6 anos) apresentava o número 1 seguido de uma quantidade enorme de zeros. Quando perguntado o que era aquilo, ele respondeu: “É o dinheiro que os ricos têm que dar aos pobres”.
Ultimamente notícias veiculadas pela imprensa local davam conta de que as forças policiais começavam a incomodar os acampados de Genebra, querendo forçar a retirada das barracas. Em Zurique (outra importante cidade suíça, onde se fala o alemão – apesar de um país pequenino territorialmente, a Suíça tem quatro línguas oficiais: há ainda o italiano e uma outra considerada inicialmente um dialeto), depois de um mês de ocupação, os “indignados” foram despejados do acampamento (no dia 15/novembro). Estavam localizados no Lindenhof, um parque situado na área velha da cidade. Antes de se instalarem aí, eles tinham ocupado, durante um fim de semana, a Paradeplatz, uma rua muito conhecida e chique em Zurique, onde se encontra a maioria dos bancos e de outras instituições financeiras.
A impressão pessoal do meu amigo de Genebra é que “o movimento tem sido mais uma bandeira midiática. Eles têm consciência de que resultados concretos não poderão ser obtidos. De imediato, o efeito obtido é o de atrair a atenção da mídia e isso eles estão conseguindo”.
A mobilização dos “indignados”, que tem como característica marcante a convocação através das redes sociais da Internet, chegou a várias cidades brasileiras, inclusive Salvador. Aqui na capital baiana, eles montaram um pequeno acampamento, no dia 16/outubro, em Ondina, na orla marítima (próximo da praça das Gordinhas e do Hotel Othon, ao lado do Speed Lanches), onde vêm realizando debates e outros eventos culturais e políticos. (Acessar http://www.ocupasalvador.wordpress.com e http://www.ocupasalvador.org ).
(Sobre o tema este blog já publicou postagens em 09/11 – Tariq Ali: precisamos de novas formações políticas, 21/10 – Windows of Wall Street, 18/10 – Zizek: o casamento entre a democracia e o capitalismo acabou, e em 17/10 – “Indignados” baianos vão às ruas no 15-O e iniciam acampamento. E mais três vídeos em 16/10).
Mais fotos dos “indignados” de Genebra





(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Salvador. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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