
Por Ana Amelia Guimarães*
Elízia era uma jovem alegre e tímida. Era a quarta de cinco filhos. Sempre fora menosprezada pelos irmãos por a considerarem desajeitada, sem graça, não muito inteligente. Era dispersa, sempre a última a chegar aos acontecimentos. Seu sonho era ser bailarina, mas ninguém dava importância e caçoavam dela quando, timidamente, ensaiava alguns passos no fundo do quintal da casa com seu radinho de pilhas na Rádio Universal, onde tocavam músicas clássicas.
Dormia no quarto com a irmã mais velha, quando essa pegava no sono, abria seus livros em que tinham histórias de bailarinas e ficava a imaginar ser uma delas.
Seus pais, muito ocupados com seus afazeres, nem percebiam o talento de Elizia.
O tempo foi passando e a vida de Elizia tomou outros rumos.
Aos 18 anos mudou de cidade e começou a trabalhar numa loja de tecidos. No seu caminho, passava pela Academia de Ballet e parava para olhar as alunas a dançar. Seus olhos brilhavam e sempre uma lágrima caia ao pensar que não tinha realizado seu sonho.
Certo dia uma das alunas que já a havia observado na calçada, veio conversar com ela e queria saber o motivo dela sempre estar ali. Elízia contou seu desejo de criança, embora nunca tivesse tido uma aula sequer. A moça a convidou para entrar, a levou à professora que gostou da sua história e mandou que ela demonstrasse o que sabia. Arranjaram-lhe uma sapatilha e aquela criança do quintal retornou ao seu gesticular. Encantados com seus modos suaves e certeiros, a professora a inseriu na turma e todas cotizaram para pagar a mensalidade da nova aluna.
Revezando entre o trabalho e o ballet, Elízia foi crescendo no seu aprendizado. Saia correndo do trabalho, ia para a dança e à noite, no seu quartinho alugado, ficava treinando até altas horas da madrugada.
Sua primeira apresentação foi no Teatro Colizier, o mais famoso do Estado, e sua família, orgulhosa, estava presente na plateia. Todos vieram se desculpar com Elízia por não terem compreendido o seu dom.
Embalada pelas sinfonias de Chopin, Beethoven, Mozart, Elizia calçou para sempre suas sapatilhas, que em homenagem à melhor aluna da Academia, foram dependuradas na galeria do Teatro.
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Imagem: Reprodução pintada à mão da obra “Dançarina em frente a uma janela”, 1874-1877, de Edgar Degas
