
Guerra no Oriente Médio e o consequente fechamento do estreito de Ormuz trazem, além de tudo, consequências trágicas para a segurança alimentar em todo o mundo.
José Graziano da Silva e Edward Magro / Jacobin Brasil, 30/04/2026
Avaliação recente do Programa Mundial de Alimentos indica que a persistência do conflito no Oriente Médio, associada à manutenção do petróleo em níveis superiores a 100 dólares por barril, tende a agravar de modo relevante a fome em escala global. Projeções sugerem que cerca de 45 milhões de pessoas a mais podem ser levadas à fome aguda em 2026, elevando o total para além de 363 milhões. O parâmetro mais próximo remete a 2022, quando a guerra na Ucrânia conduziu aproximadamente 349 milhões de indivíduos a níveis severos de insegurança alimentar.
A comparação entre esses momentos evidencia diferenças substantivas na origem dos choques. No episódio anterior, a ruptura teve natureza diretamente agrícola, vinculada à interrupção de fluxos essenciais de grãos e fertilizantes. No cenário presente, o impulso inicial desloca-se para o campo energético, com efeitos imediatos sobre a produção e a disponibilidade de insumos.
Essa inflexão não é meramente conjuntural. Ela recoloca a energia no centro da capacidade contemporânea de produzir e, sobretudo, de acessar alimentos. A interdependência entre esses dois domínios preserva a possibilidade de repetição de um ciclo já conhecido, caracterizado por inflação persistente, erosão da renda e ampliação das barreiras de acesso à alimentação.
A intensificação das tensões envolvendo Estados Unidos e Israel em confronto com o Irã marca uma fase mais aguda da insegurança alimentar global. Sua relevância ultrapassa o plano geopolítico e expõe fragilidades acumuladas ao longo de décadas. O sistema agroalimentar contemporâneo, orientado por critérios de eficiência e sustentado por cadeias produtivas extensas, depende de forma intensa de energia fóssil e de fluxos logísticos contínuos.
Em contextos de estabilidade, esse arranjo sustenta elevados níveis de produtividade; sob choques abruptos, revela limitações profundas. A fome, nesse quadro, reafirma-se como problema de acesso — e, mais precisamente, como expressão de um acesso mediado por preços que se tornam proibitivos. Não decorre da ausência física de alimentos, mas da incapacidade de parcelas crescentes da população de adquiri-los em condições minimamente estáveis.
A agricultura moderna atingiu patamares expressivos de produtividade por meio da integração tecnológica e da racionalização de processos. Esse avanço implicou, entretanto, a formação de dependências estruturais. A produção intensiva exige fertilizantes sintéticos cuja fabricação depende diretamente do gás natural.
Requer mecanização em larga escala, sustentada por combustíveis fósseis, e apoia-se em cadeias logísticas globalizadas que conectam regiões produtoras a centros consumidores com base em previsibilidade e custos reduzidos de transporte. Trata-se de uma arquitetura eficiente, porém pouco flexível diante de perturbações. Sua racionalidade econômica repousa sobre a premissa de energia abundante e relativamente barata — premissa que, quando se altera, reconfigura todo o sistema.
Eventos recentes já haviam indicado essas limitações. A pandemia de Covid-19 desorganizou mercados de insumos e alimentos, afetando tanto a produção quanto a distribuição. A guerra na Ucrânia elevou custos e comprometeu rotas estratégicas de exportação. Longe de constituírem episódios isolados, tais ocorrências revelaram um padrão recorrente de vulnerabilidade estrutural, no qual perturbações localizadas produzem efeitos amplificados em escala global.
Os impactos do fechamento de Ormuz para a fome mundial
Nesse ambiente já tensionado, o novo conflito atua como fator de intensificação. A instabilidade no estreito de Ormuz, por onde transita parcela significativa do petróleo mundial, introduz risco sistêmico imediato. Uma eventual interrupção desse fluxo eleva o custo da energia e desencadeia efeitos em cadeia sobre a produção agrícola. Combustíveis mais caros encarecem todas as etapas do processo produtivo, do preparo do solo ao transporte final. Paralelamente, a produção de fertilizantes, intensiva em gás natural, torna-se mais onerosa e menos previsível. O que se observa não é apenas um aumento de custos, mas uma alteração nas condições de previsibilidade que sustentam decisões produtivas.
A ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado globalmente, registrou aumentos expressivos de preço. Ainda que a mensuração exata varie, estimativas convergem para elevações superiores a 35% em relação ao período anterior ao conflito, pressionando custos e restringindo seu uso. Essa combinação de energia mais cara e insumos mais escassos compromete o rendimento das lavouras e sinaliza possível redução de produtividade em diversas regiões. O impacto tende a se estender para além de uma única safra, afetando ciclos subsequentes e estreitando margens de segurança já limitadas. A redução de uso desses insumos, frequentemente apresentada como ajuste técnico, traduz-se, na prática, em menor oferta futura de alimentos.
O processo em curso não corresponde a um choque isolado. Trata-se de um mecanismo capaz de sustentar pressões inflacionárias. A redução no uso de insumos compromete safras futuras, diminuindo estoques globais. O encarecimento logístico reforça a elevação de preços ao longo de toda a cadeia produtiva. Soma-se a isso um elemento adicional: a valorização da energia tende a estimular a conversão de culturas alimentares em insumos para biocombustíveis, deslocando parte da produção para finalidades não alimentares e comprimindo ainda mais a oferta destinada ao consumo direto.
O resultado é uma contração gradual da disponibilidade efetiva de alimentos, acompanhada por maior volatilidade e elevação de preços. A instabilidade alcança também os mercados financeiros. Em contextos de incerteza, intensifica-se a atividade especulativa, elevando custos e ampliando oscilações. Seguros tornam-se mais caros, contratos mais arriscados e decisões de investimento mais cautelosas. Economias dependentes de importações são particularmente afetadas, diante de maiores dificuldades para garantir abastecimento regular e a preços previsíveis.
As cadeias globais de suprimento passam a operar sob condições mais adversas. O transporte marítimo, responsável pela maior parte do comércio internacional de alimentos, depende de rotas seguras e previsibilidade operacional. Conflitos em regiões estratégicas elevam prêmios de risco, encarecem fretes e provocam atrasos. Esses custos adicionais repercutem diretamente nos preços finais, atingindo consumidores em diferentes regiões.
A consequência imediata manifesta-se na formação de gargalos de abastecimento. Portos congestionados, desvios de rotas e atrasos acumulados comprometem a regularidade do fluxo de alimentos. Em regiões fortemente dependentes de importações, mesmo disrupções limitadas podem resultar em escassez localizada. Quando esse fenômeno se dissemina, adquire dimensão global e torna-se mais difícil de conter por medidas isoladas.
O mundo gasta com a guerra, mas não para combater a fome
Aajuda humanitária também enfrenta restrições. Custos mais elevados e entraves logísticos reduzem a capacidade de resposta de organizações internacionais, ampliando o alcance da crise. Em um contexto de necessidades crescentes, os recursos disponíveis tornam-se insuficientes, impondo escolhas que deixam parcelas da população sem assistência adequada.
A convergência entre custos crescentes e disrupções logísticas traduz-se em inflação alimentar disseminada. Commodities essenciais, como trigo, milho e arroz, apresentam elevações significativas. Um número crescente de países enfrenta níveis elevados de inflação alimentar, alterando a natureza da insegurança alimentar. A disponibilidade física permanece, em grande medida, preservada; o problema desloca-se para o acesso econômico.
À medida que os preços avançam, a renda real das famílias se contrai, restringindo a capacidade de consumo. Esse mecanismo opera como forma estrutural de exclusão. Grupos de menor renda reduzem tanto a qualidade quanto a quantidade da dieta. Em situações mais graves, segmentos vulneráveis enfrentam privação severa, com efeitos diretos sobre saúde e bem-estar. Nesse ponto, a inflação deixa de ser apenas uma variável macroeconômica e passa a funcionar como critério de inclusão ou exclusão alimentar.
A persistência desse quadro decorre de múltiplos fatores. Expectativas inflacionárias tendem a se consolidar, pressionando salários e custos. Governos, sobretudo em países de baixa renda, enfrentam restrições fiscais que limitam políticas compensatórias. Programas de transferência de renda, subsídios e controle de preços tornam-se mais difíceis de sustentar sob pressão orçamentária. A crise alimentar converte-se, assim, em crise de renda, ampliando desigualdades preexistentes e restringindo horizontes de mobilidade social.
No plano internacional, o acesso assume contornos ainda mais desiguais. Países com maior capacidade fiscal e influência nos mercados globais recorrem a mecanismos para assegurar o abastecimento interno, como formação de estoques estratégicos e contratos preferenciais. Em alguns casos, impõem restrições à exportação. Tais medidas, eficazes no âmbito doméstico, reduzem a disponibilidade global e intensificam pressões sobre preços, transferindo custos para economias mais frágeis.
Em contraste, países de menor renda e fortemente dependentes de importações enfrentam dificuldades crescentes para acessar mercados internacionais. A competição por recursos escassos acentua desigualdades e desloca essas nações para posições marginais nas cadeias de suprimento. O acesso torna-se mais oneroso, mais incerto e mais sujeito a descontinuidades, ampliando a vulnerabilidade de populações já expostas a condições precárias.
Os números associados ao esforço militar no início do conflito delineiam um contraste expressivo. Estimativas indicam que o dispêndio correspondente a um único dia de operações poderia assegurar alimentação a centenas de milhões de pessoas. A comparação não simplifica a complexidade das decisões estatais, mas torna visível uma assimetria persistente na alocação de recursos em escala global.
Um mundo de contrastes
Acoexistência de abundância produtiva e privação alimentar não resulta de limitações técnicas. Trata-se de um arranjo que organiza o acesso a bens essenciais com base em renda e poder. A produção global é suficiente para atender às necessidades da população mundial. O que se mostra insuficiente é a distribuição dos meios de acesso, condicionada por estruturas econômicas e políticas que favorecem determinados grupos e territórios.
A fome, portanto, decorre de estruturas que subordinam direitos fundamentais a dinâmicas de mercado e a estratégias geopolíticas seletivas. A alimentação, embora reconhecida como direito humano, permanece condicionada a variáveis que limitam sua efetivação. O que está em jogo não é apenas a oferta de alimentos, mas os critérios que definem quem pode acessá-los de forma regular.
A implicação normativa dessa constatação é direta. A segurança alimentar precisa ocupar posição central nas agendas nacionais e internacionais. Isso implica fortalecer mecanismos de proteção social, ampliar a cooperação entre países e revisar estruturas de governança que perpetuam desigualdades. Exige também repensar o modelo produtivo, com maior resiliência por meio da diversificação energética, do incentivo a práticas agrícolas sustentáveis e da redução da dependência de insumos críticos.
A crise atual oferece um diagnóstico consistente, mas também um critério de avaliação. Sistemas altamente eficientes, quando desprovidos de resiliência, tornam-se frágeis diante de choques. A interdependência global, embora amplie ganhos em períodos de estabilidade, transmite crises com rapidez e intensidade. A fome revela-se, nesse contexto, menos como resultado de escassez e mais como expressão de uma ordem econômica que hierarquiza o acesso à alimentação.
A continuidade do conflito e a persistência de preços elevados de energia tendem a aprofundar essas tendências. Sem coordenação efetiva, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar pode crescer de forma significativa. O custo humano dessa expansão ultrapassa a privação imediata, alcançando efeitos duradouros sobre saúde, educação e estabilidade social, com impactos que se prolongam por gerações.
A escolha que se apresenta é, em última instância, de natureza política. Trata-se de definir prioridades em um contexto de recursos limitados. A manutenção de um sistema que direciona volumes expressivos para a guerra enquanto milhões carecem de acesso a alimentos básicos coloca em questão a coerência das instituições globais. Superar essa tensão exige mais do que ajustes marginais. Requer uma reorientação capaz de afirmar a alimentação como fundamento da dignidade humana e como condição efetiva de estabilidade internacional.
A crise alimentar contemporânea decorre da convergência de processos interligados. Fragilidades estruturais, choques geopolíticos e desigualdades de acesso articulam-se na produção de um quadro de insegurança ampliada. A resposta a esse desafio não será simples. Ainda assim, a clareza quanto às suas causas constitui passo indispensável. Sem ela, qualquer tentativa de solução corre o risco de alcançar apenas manifestações superficiais, preservando os mecanismos que sustentam a persistência da fome em meio à abundância.
