Xaile Negro

Imagem gerada por IA

Puxo o negro do meu xaile
Contra o frio da solidão,
A vida é um triste baile
Dançado no coração.
A lua, pálida e fria,
Espreita na minha janela,
Vê-me à espera de um dia
Que se apagou como a vela.
Dizem que o tempo é doutor,
Que cura tudo o que dói,
Mas tempo sem o teu amor
É tempo que me destrói.
Olho as águas do Tejo
A correr p’ra não voltar,
Levaram o último beijo
Que não me chegaste a dar.
Ai, Fado, meu triste fado,
Que me trazes a sofrer,
Quem vive preso ao passado
Morre aos poucos sem morrer.
Chora, guitarra, comigo,
Nesta rua de amargura,
Se o amor é um castigo,
A saudade é a tortura.
Já gastei as pedras todas
Da calçada, de esperar.
O destino tece as rodas
Que nos fazem tropeçar.
Não culpo a minha má sorte,
Nem a tua ingratidão,
Amar-te foi o meu norte,
Perder-te, a minha perdição.
Quando a voz me falecer
E o meu canto se calar,
Só peço, ao entardecer,
Que alguém te vá contar:
Que fui rainha e fui serva
Deste amor que me consumiu,
Como a flor que se conserva
Numa carta que ninguém viu.
Ai, Fado, meu triste fado,
Que me trazes a sofrer,
Quem vive preso ao passado
Morre aos poucos sem morrer.
Chora, guitarra, comigo,
Nesta rua de amargura,
Se o amor é um castigo,
A saudade é a tortura.

 

Ouça o poema musicado por I.A.:

Vídeo de música no ritmo do fado Made in Suno, com letra composta por AnnaLuciaGadelha. Neste canal, as melodias, os arranjos e os vocais das canções criadas e compartilhadas são gerados com Inteligência artificial. Já as letras, são feitas por pessoas reais, letristas e poetas.

AnnaLuciaGadelha
analuciagadelha.pb@gmail.com

4 comentários sobre “Xaile Negro”

  1. “Quem vive preso ao passado morre aos poucos sem morrer”. Quando versos melancólicos se unem a uma melodia com o sotaque e o tempero lusitano o resultado é o fado, “Ai fado, meu triste fado”. A poesia e o fado estão na alma do povo portugês, e com esta obra maravilhosa a poetsa nos transporta a esse universo intenso de música, saudade dorida e poesia. Parabéns, talentosa poetisa.

  2. “Que fui rainha e fui serva”, cada verso tão belo, envolvente, pude montar todo o cenário na mente do profundo e melancólico amor, um contraste de palavras perfeito, trazendo o amor de alguém que amou e sofreu, se encontrou e se perdeu… Muito lindo, muito talento neste fado. Parabéns!

  3. Encantador poema em que retrata em rimas perfeitas a tristeza de um grande amor que se foi, num palco envolvente que permeamos juntos com a autora por todos os momentos e locais em que a mulher do Xaile Preto chora, e nesse fado o canto e a poesia se tornam ainda mais belo e sublime. Aplausos!

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