Voltando

Voltar de viagem sem ter contado a viagem, é um pouco como não ter viajado. Hoje vinham as caras das pessoas que vira no avião no último trecho. A senhora ao meu lado, a outra senhora, do lado do corredor, que parecia estar viajando de avião pela primeira vez. Os rostos do casal carioca que visitara Buenos Aires e voltava para o Rio de Janeiro. A fila no embarque. O controle migratório e de alfândega. A partida de Mendoza, bem cedo, num frio intenso. A chegada em João Pessoa, o rosto dela na multidão.

Então, começavas a voltar. A voltar de fato. Quando ouvias a voz dela, essa voz que te orienta e te acalma. Voltaram para casa na escuridão da madrugada. Voltar para casa é sempre muito forte. Os dias passados em companhia de papai, na velha casa da calle Clark. Velha casa, de tantas lembranças. As rosas de mamãe. O jacarandá. O barulho das vozes da escola. As caminhadas ao redor do lago. A banca de livros em frente ao clube. As árvores despidas no fim do inverno. Esses vermelhos outonais. Os galhos se enfiando dentro do céu.

E agora, nesta noite que está começando, a tentativa de te juntar mais uma vez. Ao escrever, te juntas. Então as caras, todas as caras, as pessoas que encontraste nos aviões, o campinense que voltava para morar na sua cidade depois de mais de 30 anos no Rio de Janeiro. O homem que ia visitar a mãe com 90 anos que mora em Buenos Aires. E as aeromoças, as vozes, os filmes. Tom Cruise, e as propagandas da TAM e da LAN. Veja Paris. Viaje para Calafate. E o taxista que te levara para o aeroporto de El Plumerillo, nessa madrugada gelada. E a chegada em João Pessoa. Tudo começa, continua, prossegue.

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