Voltamos à ditadura?

Se voltamos ou se nunca saímos dela é um debate interessante, que vou deixar pra depois. Agora o que precisa ser feito é uma denúncia, grave: a PM proibiu uma manifestação político-cultural que seria realizada neste domingo (28/6), na favela Dona Marta, que fica em Botafogo, na Zona Sul carioca.
O evento estava sendo organizado pela Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFunk), que desde o ano passado vem promovendo rodas de funk em universidades, na Central do Brasil, na Cidade de Deus e em outros lugares. Segundo o tenente-coronel Gileade Albuquerque, comandante do 2º Batalhão, responsável pela região, o evento poderia trazer riscos à segurança da favela. Rumores indicam que ele teria ameaçado cercar a área com a tropa de choque, caso a atividade fosse realizada.
Eu estive no Dona Marta há duas semanas, mais precisamente no bar do Zé Baixinho. Conversei com Emerson dos Santos, o Fiell, promotor de um evento político-cultural chamado Pago-Rap, que mobilizava cerca de cem pessoas a cada 15 dias em torno de música e de mensagens políticas de resistência. Ele disse que a PM proibiu o evento sem dar maiores explicações. Vários outros moradores da favela criticaram a presença da polícia. Muitos argumentaram violação do direito à expressão.
Questionei a capitã Priscila, que comanda o patrulhamento na favela. Perguntei o porquê da proibição do Pago-Rap. Ela disse que só poderia falar se autorizada, mas que mesmo assim se recusaria a dar declarações a esse respeito.
MC Leonardo, presidente da APAFunk, declarou: “Ninguém no mundo tem o direito de perseguir a cultura”. E disse que não vai desistir. A partir de hoje vai correr gabinetes parlamentares e favelas em busca de apoio. Depois vai ao comandante do 2º Batalhão solicitar autorização, assim como fez antes de realizar o evento na Cidade de Deus. Se ele não autorizar, vai fazer o evento mesmo assim.
Seria bom que os colegas blogueiros ficassem atentos a este tema, pois será preciso convocar e participar da roda de funk no Dona Marta. Já que a situação chegou a este ponto e como tem gente disposta a resistir, o mínimo que podemos fazer é dar visibilidade a esta luta.
Sobre as corporações de mídia: espero que divulguem também, pois o preconceito em relação ao funk também nasce e cresce a partir da cobertura superficial e tendenciosa dos veículos de massa. Pode ter certeza que se na Cidade de Deus participaram mil e não dez mil pessoas, isso tem a ver com a associação constante entre funk e atividades ilícitas.
Serviço: nesta terça-feira (30/6), o presidente da APAFunk, MC Leonardo, e seu irmão MC Júnior são os convidados de Marcelo Yuka no evento “Estudando o Som”.
Melt Bar – Todas as Terças – a partir das 20h
Rua Rita Ludolf, 47 – Leblon – RJ
Tel.: 21 2249-9309 – reservas@meltbar.com.br
Capacidade de Público: 600 pessoas
Classificação Etária: 18 anos
H – R$ 10,00 / M – R$ 10,00 – até 22 horas ou LISTA: contato@cinnamon.art.br
H – R$ 20,00 / M – R$ 20,00

2 comentários sobre “Voltamos à ditadura?”

  1. Há algumas semanas li um texto no Overmundo sobre a globalização do funk. Como acontecimento o autor citava um baile funk na Alemanha. Nos comentários do texto alertei que o funk aqui no Rio, apesar das baboseiras que são ditas nas letras das músicas de hoje em dia, é um cenário fértil para debates da ordem política. E como exemplo mencionei o caso do Dona Marta, onde o baile funk está proibido. O ritmo está se espalhando pelo mundo, mas aqui no Rio – onde o funk tem seu berço e sua raiz – está sendo censurado!

  2. Marcelo,
    Queria te dar uma dica ou pedir a realização de um artigo. Recentemente vi o filme “Você também pode dar um presunto legal”, que mostra a atuação da polícia em São Paulo, conhecida como “Esquadrão da Morte”. Não vi muita diferença com a de hoje, principalmente, com seus relatos na “Caros Amigos” de maio sobre a “Choque de Ordem”. Seria interessante você fazer um paralelo entre as duas, não sei se tem conhecimento sobre esse filme, mas ele é facilmente achável na internet. Fica a dica-pedido…
    Abração.

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