Você me paga o que tem feito com poetas mais fracos do que eu

Mais uma peleja vem a lume. O mote provocativo comporta uma ameaça de vingança. Vale, claro, para os dois lados. O pretexto é a pretensa defesa de um colega humilhado, em ocasião passada.

O primeiro parceiro já arranca empavonado, a clamar todos os seus supostos predicados, com o objetivo de tolher a auto-estima do concorrente. Desfila, então, seu percurso de repentista experimentado, reconhecido pelos altos escalões da arte, já que teria atingido o ápice, “Como vate, poeta e repentista”.

Sucede que “Quem diz o quer, ouve o que não quer”. O parceiro responde pesado à provocação inicial: além de chamá-lo de “Cantador linguarudo e atrevido”, promete trata-lo “com xarope de chumbo derretido”…..

Na estrofe final, um dos concorrentes evoca, no embate, a figura de Teseu, o herói de Creta que teria derrotado o Minotauro, no labirinto aterrador, ao qual teve acesso por meio do fio desenrolado desde o novelo de lã, desde a porta do labirinto, sob a guarda de Ariadne…

Mas, ouçamos os poetas contendores:

Nesta arte cheguei ao alto nível
Como vate, poeta e repentista
E com isto cheguei à alta crista
Como artista de forma incorrigível
Cantador me vencer é impssível
Porque Cristo não toma o que Ele deu

Só um tipo macabro como o seu
Não entende quem sou, e põe defeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu

Cantador linguarudo e atrevido
Você entra, mas perde em meu terreno
Eu vou dar´lhe uma dose de veneno
E um xarope de chumbo derretido
Minha mão vai quebrar seu pé do ouvido
Com a força que tem no braço meu
Pra você conhecer o lugar seu
Cabra ruim, sem futuro e sem respeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu.

(…)

No embalo da nossa profissão
Tenho sido um poeta renomado
Pelo povo ´stou sendo consagrado
Um gigante da nova geração
Ninguém acha motivo e nem razão
Pra, cantando, apagar meu apogeu
Mesmo tendo a coragem de Teseu
Sua força pra mim é sem efeito

Você hoje me paga o que tem feito
Com poetas mais fracos do que eu

Sem novidade, em relação à construção formal das estrofes. Seguem o estilo do “Martelo agalopado”, já comentado antes, quanto à métrica e quanto à rima.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

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