
Reflexões sobre o impacto de viver para atender expectativas alheias e carregar fardos que não são nossos
Muitas mulheres alugavam e continuam alugando seus úteros para conceber e gerar filhos de outras por serem incapazes de gerar os seus. São as conhecidas ‘barrigas de aluguel’. Cada caso é único e as experiências variam bastante, dependendo do contexto pessoal e social da mulher envolvida e do casal em questão, englobando aspectos positivos e negativos.
Entre os aspectos positivos, destaca-se o sentimento de ajudar casais que não podem ter filhos, um gesto solidário de poder realizar o sonho de um casal para constituir uma família. E o casal recebe o apoio direto de uma mãe que se dispõe a se solidarizar com esse gesto de dedicação durante 9 meses a essa gestação. Essa gravidez pode criar laços significativos com os futuros pais, o que é emocionalmente gratificante.
Para muitas mulheres, a gestação de um filho para outra pessoa representa uma oportunidade de melhorar sua situação financeira, elevando a autoestima e a sensação de autonomia e utilidade.
Por outro lado, a gestação pode gerar conflitos emocionais, especialmente quando a mulher precisa se desapegar do bebê após o nascimento. A pressão para atender expectativas e o medo de complicações podem causar ansiedade e insegurança durante a gravidez. Além disso, algumas enfrentam críticas ou estigmas sociais, interferindo em sua autoestima e bem-estar emocional.
Comecei esta reflexão sobre ser barriga de aluguel, como uma metáfora, para entendermos que muitas pessoas, independentemente de serem homens ou mulheres, tornam-se “mentes de aluguel” porque compartilham esse sentimento de emprestar suas mentes para carregar os desejos e as responsabilidades dos outros.
São mentes grávidas de preocupações e inquietações. São indivíduos sensíveis que vivem em função dos anseios alheios, muitas vezes se anulando, renunciando a seus próprios projetos de vida e gastando energia para proteger essas ideias implantadas em suas mentes. Essa sobrecarga de assumir responsabilidades que não são suas é uma constante na vida de pessoas que, desde a infância, têm o hábito de carregar fardos que não lhes pertencem. Terminam por se sacrificar em função dos projetos alheios. Assumem verdadeiras missões impossíveis de se realizar.
“Eu sempre fui a lixeira dos outros. Todo mundo me culpava por tudo que acontecia de ruim. Eu me sentia invisível em minha família. Só servia para ser ‘saco de pancada’ e nunca ouvi uma palavra que reconhecesse minhas virtudes e meu valor. O tempo foi passando, eu fui me acomodando e quando acordei já era tarde demais. Hoje, tenho 63 anos e passei minha vida vivendo a vida dos outros e deixei de viver a minha.”
O processo terapêutico aparece como um caminho para a realização do “parto mental”, onde tomamos consciência de que nada justifica o sacrifício de uma vida em detrimento de outra. Somos seres únicos e cada um de nós tem seu propósito de vida. Ninguém pode assumir a vida do outro e ter paz e ser feliz. A vida torna-se um fardo insuportável. Cada um tem que ser protagonista de sua vida, sendo parceiro ativo uns dos outros.
Uma senhora de 60 anos nos revela: “Hoje tenho consciência de que passei pela vida vivendo a vida dos outros. Eles estão bem, levam uma vida boa, mas eu estou um trapo humano, cheio de dores, esquecida por todos a quem dediquei minha vida. Antes, quando eu me olhava no espelho, eu via um montão de gente, hoje eu me vejo sozinha.”
Outra senhora compartilhou: “Minha mente vive grávida dos filhos dos outros. Eu nem casei e já sou mãe de um monte de gente grande. Tudo que faço é pensando neles. Quantas noites mal dormidas preocupadas com eles! E o pior é que eles nem se importam comigo. Só recebo patadas e desaforos. Ainda não sei como me libertar desse povo que vive na minha mente.”
Um homem entristecido falou sobre sua filha: “Dei tudo que um pai pode dar a uma filha e só recebo ingratidão e indiferença dela. Eu queria entender onde foi que falhei como pai.”
Esses depoimentos destacam que tanto homens quanto mulheres podem se sentir “emocionalmente grávidos”, sobrecarregados, muitas vezes se colocando à disposição das necessidades dos outros em detrimento de sua própria saúde mental e emocional. Eles sacrificam suas próprias aspirações e projetos de vida, resultando em um ciclo de sofrimento e insatisfação.
É importante refletir sobre como a superproteção pode ser um atestado de incapacidade que damos a quem amamos e superprotegemos. Proteger excessivamente pode limitar o crescimento e a autonomia do protegido. Tornam-se indivíduos codependentes incapazes de tomar iniciativas e assumirem suas responsabilidades.
Embora frequentemente motivada por amor e preocupação, essa atitude pode impedir que a pessoa desenvolva habilidades essenciais para enfrentar desafios e resolver problemas por conta própria, desenvolvendo uma dependência prejudicial a longo prazo. Quando tratamos alguém como incapaz, a superproteção pode afetar negativamente a autoestima e a confiança dessa pessoa. Ela pode internalizar a ideia de que não consegue lidar com a vida sozinha, perpetuando um ciclo de codependência.
A verdadeira proteção consiste em oferecer apoio e amor enquanto se permite que o outro cresça e enfrente suas próprias batalhas. É um convite à reflexão sobre como nossas ações podem influenciar o desenvolvimento das pessoas que amamos. Ao aprender a confiar nas capacidades dos outros e a permitir que enfrentem as consequências de suas escolhas, promovemos um ambiente onde todos podem florescer.
Da mesma maneira que no passado os escravos não tinham liberdade de viver suas vidas, hoje, quando deixo de viver minha vida e encho minha mente de preocupação com filhos, companheiros e pessoas queridas, me imponho correntes que me escravizam e consomem toda minha energia.
Portanto, ao considerarmos as experiências de ser “mente de aluguel” – seja no sentido literal ou metafórico – é importante reconhecer as emoções e os desafios envolvidos. Através da terapia e do autoconhecimento, podemos aprender a estabelecer limites saudáveis e a cuidar de nós mesmos, sem deixar de apoiar aqueles que amamos.
Esse processo de autodescoberta nos permite não somente nos libertar dos fardos que carregamos, mas também cultivar relacionamentos mais equilibrados e gratificantes. O impacto que temos sobre os outros pode ser significativo, mas é igualmente vital que cuidemos de nossa própria saúde emocional.

Doutor em Psiquiatria e Antropologia. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social. Criador da Terapia Comunitária Integrativa. Autor de vários livros. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155674496013599.
