
Há quem diga que a vida não é dura, a gente é que faz questão de mergulhar nas partes dolorosas e ali ficar. Uma vez que se cultiva a dor, a solução fica cada vez mais distante e a lamentação se potencializa, virando um hábito mórbido e fatal. Esse ciclo doentio, sem ajuda, dificilmente será superado.
Uso esse repertório inicial para chegar num forte aliado da dor: a tevê aberta. Aonde passo, seja no barbeiro, padaria, lojas, consultórios encontra-se uma ligada. Não é difícil perceber que, apesar da grande diversidade de opções, os canais e os programas vistos são sempre os mesmos.
Eu escrevi o primeiro e o segundo parágrafo para chegar à rotina do baixinho, companheiro de Catete. Ele trabalha no bar embaixo do meu trabalho. Nosso primeiro encontro é por volta de sete horas da manhã. Já neste horário, o sujeito está com a telinha ligada. O primeiro programa assistido é um sensacionalista da Record. São mortes, acidentes, perseguição policial, ou seja, toda a vilania e escória da humanidade.
Basta alguém chegar para o café diurno para que ele inicie seu ritual de repassar o sofrimento recebido pelas notícias.
Mais tarde, próximo do almoço, ele não só deixa a tevê ligada como também o Rádio. A Rádio ouvida é a Tupi. A programação consegue ser pior que a tevê. São programas também sensacionalistas, onde os mesmos desastres são narrados com uma carga dramática duplicada, por locutores extremamente reacionários.
E o sujeito, que já inicia o dia com desastre, vai estendendo o cultivo pela tarde. E as lamentações naturalmente vão aumentando e acumulando. Os problemas pessoais misturam-se com os oferecidos pela tevê, fortalecendo a convulsão.
Depois desse horário, eu não o vejo mais. Trocam o turno do bar e é provável que, pelo roteiro da manhã, ele continue assistindo os programas de mesmo conteúdo. Se ele não assiste, quem passa pelo bar ao final de tarde, se depara com Datena e seu repertório execrável de tragédias. Na sequência vem o Jornal Nacional, onde pelo menos o Bonner sugere um Judas a ser malhado. Depois do Jornal Nacional chegamos ao grande Drácula, William Wack, que além de apoiar o espancamento do mesmo Judas, justifica o ato com os números e qualquer outra sustentação que o convém.
E o pior é que nada do que foi repassado ao telespectador o torna capaz de refletir. Não ensinam nada, não ajudam a pensar. Eles pensam por você e dizem o que você tem fazer: sofrer e pedir a cabeça do inimigo deles. Uma alienação completa que pode ser amortizada com um Big Brother ou Ana Maria Braga. Em longo prazo, você começa transformar o sofrimento em ódio. A falta de bagagem somada aos programas de entretenimento te fará um bobo completo.
Voltando ao baixinho do bar, um belo dia eu resolvi aconselha-lo. Estava farto de chegar por lá e ver aquela história se repetindo. Era ele olhando a tevê e em seguida reclamando.
Firme e decidido falei para ele mudar aquele roteiro. O sofrimento dele não iria mudar em nada os fatos. Sugeri que ligasse numa rádio que tocasse músicas. Acho que depois daquilo ali, pelo menos o sujeito trabalha em paz.
Seguindo o caminho das sugestões, deixo aqui as minhas. A começar por desligar a Globo. Se acharem radical e quiserem continuar assistindo, tudo bem. Mas assistam também o canal NBR (13 da net), o canal do governo federal. Dê oportunidade de sua mente sofrida e com um alvo doado pela Globo conhecer um contraponto.
A outra sugestão são os canais 56 (Canal Curta) e o 150 (Canal Brasil), da net. Ambos têm uma programação repleta de documentários sobre teatro, literatura, música, cinema e o principal, a nossa história.
Se a vida vai melhorar eu não sei, mas que a visão vai mudar eu tenho certeza. No mínimo vocês ficarão na dúvida de muita coisa. E a dúvida é o melhor caminho para reconstrução.
(*)Foto: http://www.metebronca.com

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