Vítimas de nossa culpa

Fome. Miséria. Medo. Qual o papel do comunicador social? Vivemos, hoje, em um mudo completamente transfigurado em seus valores, pressionados por relações injustas e desiguais. Nesse contexto, torna-se tentador jogar as mãos para o céu e dizer “o que eu posso fazer a respeito?”; mas o problema são aqueles que o fazem, sem saber, vítimas de um sistema que articula nos mínimos detalhes a perpetuação da pobreza.

Os meios de comunicação, mediadores da esfera pública, são, antes de tudo, fomentadores de discursos na sociedade; são eles os que selecionam, dentre todas as vozes sociais, aquelas que merecem o status de memorável promovido por eles. Nesse sentido, operam sob um dispositivo de visibilidade e invisibilidade, o que significa ter o poder de definir não só aquilo que estará na pauta das discussões políticas e sociais, mas também o que não estará presente nela.

A importância disso é compreender o quão mediada é nossa percepção sobre o mundo. O que em tese deveria ser uma representação o mais fiel possível do real, torna-se a representação que convém que tenhamos a governos e grandes grupos de comunicação que, afinal, desejam a cruel perpetuação do status quo.

Uma das formas mais interessantes de exercício do poder é, então, aquela que se desenvolve fundamentalmente através dos processos de “aprendizagem social” – destaque para a educação e os meios de comunicação – que inibem o crescimento de uma cultura popular favorecedora da formação de consciências críticas como campo de luta pelos direitos humanos e pela justiça social. Como afirma María Teresa Sirvent, em Poder, Participación y Múltiplas Pobrezas, é “a supressão de uma demanda por considerar-la uma ameaça latente ou manifesta aos valores e interesses da estrutura de poder institucional. (…) [Assim,] desqualifica ou deslegitima uma demanda de mudança rotulando-a como ‘de esquerda’ ou como produto de provocadores, infiltrados ou antipatriotas, como imoral ou como demagogia barata”. É o caso, por exemplo, da pobreza.

Ponto básico para o funcionamento do sistema e fator de revolta se pensado criticamente, a noção de pobreza é muito bem manipulada e distribuída, “prevenindo que as pessoas enxerguem as injustiças através da conformação de suas percepções” (Steven Lukes, 1981). Em primeiro lugar, existe uma naturalização da pobreza. É a ideia de que ela sempre esteve aí e que, por ser base do sistema, não pode ser mudada. É pensar o sistema como estrutural, como algo intocável – é um fazer se conformar inteligente.

Em segundo lugar, dentre muitos outros possíveis, vale destacar a criação de um falso sentimento participação, que está relacionado às ações que trazem ao indivíduo uma ilusão de exercer um poder de mudança. O cruel, neste caso, é o a ideia do “já fiz a minha parte”, que desestimula uma participação efetiva de mudança. É o caso, por exemplo, das ONGs e ações comunitárias. Não desejo, aqui, retirar o mérito daqueles que estão diretamente envolvidos nessas práticas, mas a questão é que essas medidas são, na realidade, uma falsa concessão já prevista pelo sistema e que contribui para a perpetuação da pobreza – não em seu sentido individual, mas sim em seu significado estrutural.

É semelhante à lógica do assistencialismo, um grande exemplo de substituição de políticas sociais integradas por políticas de caráter simbólico. O assistencialismo apresenta a pobreza como pontual, exatamente no ponto em que reside sua ação, reduzindo o espectro de pobres àqueles que são os “beneficiados”. A conclusão: uma falsa sensação de superação da pobreza.

E é aí que entra o papel do comunicador social. No contexto da nossa sociedade do espetáculo, as situações de pobreza apresentadas pela mídia não estão relacionadas a suas expressões estruturais. Assim, a percepção de pobreza pelo senso-comum é muito mais superficial, colaborando para a manutenção de um sistema injusto e desigual a partir até mesmo da cooptação de movimentos que, em teoria, buscariam alternativas de mudança social.

Fica a pergunta: em que medida, então, nós, futuros comunicadores sociais, podemos contribuir para a superação da pobreza?

2 comentários sobre “Vítimas de nossa culpa”

  1. Boa tarde ,antes de tudo queria comparar nosso governo como o de Ritler, que tinha como intençao esterminar os mais fracos.
    Por que?Como vemos as falhas na educaçao o governo nao quer alfabetizar verdadeiramente o povo se nao a populaçao vai começar saber direito qual seus direitos é isso tem uma participaçao da midia pq,a populaçao acredita naquilo que ver é nisso ai que nossos governantes se aproveitam,da iguinorancia do povo que é tratado a `pao é circo´ passamos por diverças crises o anotodo e quando é chegado o carnaval ,ou qualquer tipo de feriado que seja o,povo-se esquece de tudo uma ajudinha miseraveu do governo ja deicha o povo satisfeito entao temos a oportunidade de mudar isso atrves do noss voto que é uma arma que temos mais o que o povo faz se desarma armando ainda mais seu inimigo nao se imporata com quem estala pela desesperança de um futuro melhor .
    Mais tenho esperança de um Pais melor apartir do momento que ensinarmos isso para des de ja para nossas crianças que nao percam as esperaças que creçam adutos equilibrados é informados sempre.
    Grato

  2. O ser humano, ao nascer, recebe um pacote completo de comportamentos. Contém, nesse pacote, todos os tipos de caráteres que irão moldar sua personalidade e é através do meio que ele poderá desenvolver alguns desses ou, por que não, a maioria.
    A nossa cultura tem raízes que nenhuma broca conseguiu destruí-la e, então, esta árvore forndosa que continua produzindo seus frutos faz com que as sementes sejam espalhadas pelas terras férteis da ignorância e o contigente venha crescer assustadoramente. Serão necessários muitos anos ou muitas décadas para que se concretize uma mudança sutil e de considerável abrangência na consciência de nossa sociedade.
    Tivemos, desde o princípio da República, governantes que só dirigiram seus objetivos com exculisividade para a classe abastada, para a sociedade elitizada. Nenhum governante deu apóio às classes operárias, aos miseráveis para que não houvesse uma aproximação de pobres com ricos, de semi-analfabetos com cultos formados. Para completar, fomos governados pelos Americanos durante toda ditadura militar e o maior objetivo desse período foi impedir a ascensão do proleteriado à uma proximidade dos bens afortunados o que poderia tirar o status deesa classe que sempre dominou nosso país em todos os sentidos.
    De uma década para os dias atuais é que estamos vendo alguns pobres com muito sacrifício, usando o trapo velho de todos os dias e comendo o pão que o diabo amassou, conseguir concluir uma faculdade. Antes isso era impossível. Se essa realidade de hoje estivesse em prática desde muitos tempos atrás, não teríamos uma população de anafabetos e semi-analfabetos e, também, a população não seria os números de hoje.
    Fez parte da ideologia burguesa orientada pelas intenções americanas, esses resultados que temos hoje.
    Demorará muito para conseguirmos fazer uma sociedade próspera, culta e formada com padrões éticos. Precisaremos sempre de um governante que tenha experiências práticas e vividas da dureza que foi e é a vida real. Enquanto escolhermos governantes que nunca precisaram do sacrifícios para seus resultados pessoais, que nunca presenciaram ou viveram um dia sequer de miséria, que nunca lhe faltaram banco de escolas, nós estaremos estagnados nessa fossa fétida que precisa de muitos anos para ser higienizada.
    Oito anos para mudar uma situação caótica resultante de séculos não é possível, mas esse pequeno ponta-pé dado na atual circunstância já é um bom início de partida, porém, se perdermos a bola para o adversário e com os poucos pontos que conseguimos, só num outro campeonato para começar tudo outra vez. Desmanchar uma boa obra que está feita e em andamento é muito fácil. Destruir uma estrutura do mal enraizado é uma tarefa que leva anos e anos.

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