Visão sobre o último Fórum Social Mundial

Porto Alegre (RS) – Faz quase um mês do fim do Fórum Social Mundial. Depois de muitos debates, entrevistas e conversas informais, contabilizaram-se um emaranhado de críticas, elogios e esperança. Mesmo com encontros e desencontros de opiniões, unir pessoas engajadas politicamente, por quase uma semana, é certeza de fortalecimento para as próximas batalhas.
É inegável que por toda atmosfera do fórum havia uma evidente preocupação com crescimento do conservadorismo, além da crise que assola o governo brasileiro e o resto do mundo. Mas isso não evitou que muitos dos participantes questionassem a falta de inovação nos discursos e a carência de propostas durante os debates.
A preocupação com os golpes sofridos por alguns governos na América Latina e os possíveis golpes que ainda rondam países como Brasil e Venezuela, sem dúvida, foram um dos motivos de tantas falas emocionadas, porém redundantes. Mesmo com muitas críticas ao atual governo brasileiro, o medo de um retrocesso nas conquistas que marcaram o país e o mundo era muito maior.
Dos palestrantes vindos de fora do país, dois chamaram bastante atenção. Com um discurso equilibrado e sereno, o cubano Alfredo Peres Alemany contou um pouco das dificuldades que precisaram ser superadas para que as bases da revolução se mantivessem firmes. Superando as dificuldades do embargo e outras mais, Alfredo destacou que a disposição em manter os princípios da revolução é desejo de grande parte de seu povo.
Numa breve conversa que tive com ele, sobre o dia-a-dia dos cubanos, percebi uma grande distância entre os costumes e conduta deles em relação ao nosso povo, inclusive aos militantes de esquerda. Por mais que haja um desejo em transformar o Brasil em um país mais justo e igual, todo o bombardeio do capitalismo, que estimula o consumo e a ignorância, parece ter abduzido grande parte do nosso povo, o que nos afasta daquilo que achamos ideal. É preciso fazer uma profunda autoanalise e mudarmos nossas condutas diárias para assim sermos propagadores do mundo melhor que queremos.
O sociólogo português, Boaventura de Sousa Santos, foi outro que chamou atenção no evento. Fazendo críticas ao objetivo do fórum, ele questionou sua validade frisando a necessidade de se extrair do encontro posições claras. A necessidade de unificar os movimentos progressistas também foi um ponto importante de sua fala, o que me fez entender que apesar da intenção de ascender o oprimido, acabando com o preconceito e desigualdade seja a mesma, a distância e a vaidade acabam enfraquecendo a luta dos movimentos.
Em quase todos os discursos de líderes estrangeiros, a importância do Brasil para América Latina foi extremamente exaltada. Pela preocupação transmitida com a instabilidade do país, nota-se que o Brasil é o termômetro e a principal base catalisadora do crescimento e desenvolvimento da região. O aquecimento do Mercosul e o esvaziamento da Alca também foram mencionados como pontos estratégicos de desenvolvimento durante esses anos.
Dentre os quadros nacionais, sem dúvida alguma, Olívio Dutra foi o de maior destaque. Ovacionadíssimo em todas as aparições, Olívio foi outro que fez críticas ao governo e à política pragmática de compor com campos opostos apenas pela governança. Ele acredita que isso tenha gerado um desgaste enorme para o partido dos trabalhadores e para o governo. Olívio deixou uma dúvida no ar sobre a validade da luta ilimitada que se faz para ganhar as eleições. Segundo ele, talvez, perdendo-se uma eleição é possível avançar bem mais do que ganhando e se submetendo às chantagens do sistema. Dutra foi enfático ao falar da dificuldade que os governos têm de se contrapor à força do capital. Destacou também a validade dos movimentos que surgem na sociedade, de baixo para cima, que questionam e criam um modelo novo de relação com o capital. É notória que a crítica ao modelo é uma chama que vem crescendo dia a dia na sociedade. É extremamente importante esse debate, que exige conhecimento e participação ampla da sociedade. Mas, apesar de alguns políticos e militantes citarem a necessidade de um novo sistema e uma nova fonte de diálogo e ação entre governo e povo, é preciso entender que as coisas não acontecerão da noite para o dia. Será preciso muita luta, propagando-se conhecimento e abrindo campos para a voz popular. Enquanto isso não tiver força o suficiente, será uma chama fácil de ser apagada pela política tradicional.
Outro ponto que marcou o evento foi a presença maciça de jovens militantes. Analisei o perfil de alguns desses grupos e a conclusão é que existe uma enorme distância na realidade socioeconômica entre eles, o que gera também uma distância nas opiniões.
Acostumado a frequentar debates políticos da Zona Sul, onde se discutem muitas questões morais, a realidade extremamente simples de alguns grupos, que têm necessidades básicas bem maiores me chamou atenção. Eram jovens, de origem bem simples, que passaram a participar da política a partir dos programas de inclusão do governo e demonstravam total gratidão aos anos de PT no poder. Um deles me relatou um episódio que simboliza bem o sentimento de grande parte deles. Foi na Bahia, quando um movimento pelo impeachment resolveu fazer uma manifestação e contratou o carro de um trabalhador. Ao saber que as falas que iriam sair do seu carro eram contra Lula, o sujeito optou por devolver o dinheiro do serviço e negou-se a fazer o trabalho. Não que parte desse grupo não discuta falhas e os pragmatismos do governo, mas era visível que a principal preocupação deles era com a melhora da qualidade de vida dos oprimidos de sempre.
E, sem dúvidas, é por esta diversidade de campos atingidos que o PT ainda é o grande partido de esquerda e de massas. Se algum outro partido ou movimento quiser crescer de forma significativa, terá de entender, acolher e priorizar as necessidades e os sentimentos dessa camada sofrida.
Também foram os jovens que debateram com bastante entusiasmo a homofobia, o racismo e o sexismo, tão presentes em nossa sociedade. E mesmo com a pouca idade e menor experiência que os palestrantes tarimbados, a forma de debate e as questões abordadas foram bem mais dinâmicas e atraentes. O que indica o surgimento de uma geração vibradora, humana que não irá se omitir da política.

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