Vingança ou Estratégia?

NOTA: As coincidências deste artigo com o recentemente publicado por meu amigo Lungaretti não constituem plágio. De fato, eu não tinha lido o artigo dele antes de escrever o meu. Celebro a coincidência.

Carlos A. Lungarzo

AIUSA 9152711

Uma parte importante do congresso norte-americano não teve tempo de celebrar a morte de Bin Laden, pois sua preocupação imediata foi perguntar-se como o inimigo número 1 dos Estados Unidos podia viver confortavelmente em Abbottabad, se não fosse porque o estado de Paquistão lhe fornecia proteção. Na América do Sul, jamais ouvimos o nome dessa cidade, mas ela é bastante conhecida pela classe média alta dos países de fala inglesa. De fato, recebeu seu nome em homenagem ao major de exército James Abbott, que a fundou em 1853. A terminação “abad”, que aparece em muitos nomes de cidades da região, é um termo urdu que significa “endereço” ou “domicílio”.

Este “endereço” é um dos locais mais agradáveis do superpovoado e misérrimo país. Possui a maior taxa de turismo per capita, aloja um dos maiores regimentos e a Academia Militar Nacional, e suas condições sanitárias e de educação são bem superiores às do resto da Ásia. Longe de ser um local adequado para o esconderijo de um fugitivo, a cidade está perfeitamente comunicada com o resto do país por modernas estradas.

Há, certamente, muitos mistérios em torno desta morte, e não poderia ser diferente. Os EEUU criaram a fábula da encarnação do mal, um artifício muito comuns em culturas supersticiosas e místicas (embora o messianismo americano não provenha de uma única seita religiosa, como na Itália ou na Espanha, mas de uma conjunção de credos), e é natural que todo mito deva desaparecer numa forma também mítica. Coisas que possivelmente nunca sejam conhecidas são como chegou bin Laden a esse lugar, que setores específicos do governo de Islamabad o protegiam e, sobretudo, como e quando realmente morreu.

Ontem, o diretor de pesquisa de Anistia Internacional, o italiano Claudio Cordone publicou um breve release, comunicando que AI não tem informações das circunstâncias da morte de bin Laden e outros, e que se está embrenhando numa investigação para obtê-las. É notório, porém, que esta investigação deve ser mais difícil que qualquer outra até agora empreendida, e que o mais provável é que não obtenha sucesso.

O assunto pode preocupar a uma organização de direitos humanos por várias razões.

Sabemos que crimes massivos, como o de 11 de setembro são crimes contra a humanidade, pelo fato de que seus executores não são pessoas avulsas, mas organizações que podem ser equiparadas a governos, pois possuem poder em certas áreas do planeta. De fato, al-Qa’ida exerce uma forma de terrorismo de estado, e não apenas de terrorismo individual, pois algumas regiões de Afeganistão e Sudão, estiveram durante um lapso de tempo desconhecido (que ainda pode estar vigorando) sobre o controle da organização. Entretanto, e a despeito do caráter terrorista de estado de al-Qa’ida, os EEUU ou quaisquer outros países afetados por ataques dessa natureza, não podem aduzir direito de defesa, como acontece com grupos independentes que executam ações violentas para enfraquecer governos opressores, sejam ou não ditaduras. O direito de defesa está baseado numa ação concreta de risco e envolve pessoas físicas e não abstrações metafísicas. Se quiserem, todos os americanos poderiam se dizer ameaçados por al-Qa’ida mas isso carece de sentido. Por outro lado, ninguém tem denunciado a proximidade de um novo ataque que a morte de bin Laden poderia parar.

Se ainda são misteriosos atos realizados pelos EEUU durante a Segunda Guerra Mundial (por exemplo, a misteriosa morte de soldados americanos em Iwo Jima, ou os feridos de guerra abandonados nas selvas de Vietnam nos anos 60), pode imaginar-se que a probabilidade de desvendar um operativo tipo comando, que era de conhecimento de Obama e de alguns íntimos, é quase nula. O que é evidente é que a morte foi anunciada no momento certo. (Para complicar a situação, algumas fontes consideram ter evidência de que a execução de Laden nunca teria acontecido). Por sua vez, Wikileaks, usualmente melhor informada que qualquer outra fonte pública, tende a acreditar que realmente bin Laden foi executado no domingo.

Este é um ponto que tem a ver com a política norteamericana de direitos humanos. Com efeito, Wikileaks por um lado e Anistia Internacional por outro, levantam a hipótese, na minha opinião muito consistente, de que o anúncio da morte (ou, talvez, a real morte) de bin Laden, pode estar destinado a que Obama desista de sua já frágil campanha contra a tortura, que, na prática, nunca saiu de declarações não cumpridas. Com efeito, o “domicílio” exato de bin Laden (que, segundo Wikileaks, era conhecido pelos EEUU desde, pelo menos, 2007) foi obtido, segundo todas as evidências pela aplicação de torturas de prisioneiros de Guantánamo, especialmente de Khalid Seij e Al-Libi, ambos ligados ao staff mais próximo de Laden.

Então, uma das consequencias do anúncio da morte de Laden, poderia ser convencer a alguns setores da opinião pública (minoritários, porém influentes), de que a tortura seria um método lícito para obter informação. Também, poderia servir para que o próprio Obama justifique sua mudança de rumo em relação aos direitos humanos (pelo menos, teoricamente, já que na prática nunca foi diferente da de seus predecessores), e encontre motivos para que a esquerda do Partido Democrata (algo como 15% do eleitorado) fique mais isolada.

Além de consequencias nefastas para os direitos humanos, a morte, real ou não, de Laden, têm consequencias políticas que estão fora de meu objetivo, mas que vale a pena mencionar. Gaddafi denunciou repetidamente que al-Qa’ida estava ajudando os revolucionários líbios e, apesar do estilo delirante do ditador, esta queixa parece coincidir com outros fatos, como a colaboração de Líbia na guerra ao terror e sua fraternidade atual com os EEUU, apesar das divagações dos que louvam o “anti-imperialismo” de Gaddafi. É evidente que a transformação da revolta nos países islâmicos é a maior preocupação dos países imperialistas. Como provou de maneira irrefutável o exemplo de Saddam Hussein, as ditaduras islâmicas podem passar do amor ao ódio e vice-versa em relação com os EEUU dependendo de seus interesses. Assim como Iraq se tornou inimigo, Síria e Irã podem tornar-se amigos, o que explica o súbito “pacifismo” do Pentâgono em relação com esses países. A dominação se beneficia muito mais de ditaduras fanáticas e sanguinárias, que de governos democráticos independentes.

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