Tudo está relacionado entre si.
Tudo o que fere a Terra, fere também aos filhos da Terra.
Chefe Índio Seathi
Rendo-me à crença de que meu conhecimento é uma pequena parte de um conhecimento integrado mais amplo que mantém unida toda a biosfera ou a criação.
Gregory Bateson
Esta reflexão está norteada por dois princípios básicos: a) Tudo está interligado a tudo, num processo evolutivo do todo existente: holorrelacionalidade, em grego, hólos = todo, totalidade. Totalidade relacional. b) Qualquer análise humana, por ser antropomórfica, evidencia incompletude, inacabamento, finitude, relatividade.
De modo relativo, nosso sentir, nossa razão e determinados saberes populares, científicos, filosóficos e teológicos sinalizam que o “Eu” vai constituindo-se na relação dialogal com o “Tu”, formando o “Nós” comunitário: a vida holocentrada, isto é, a vida centrada na totalidade relacional.
A relação “Eu ←→Tu” com todas implicações concretas, envolve tanto o sentido de um relacionamento de conhecimento mútuo e de querer comum como o sentido de coexistência reciproca.
Fora da relação “Eu ←→Tu”, torna-se impossível a existência do “Eu” e do “Tu”. O “Eu” e o “Tu” só existem quando formam um “Nós” constituído em relações recíprocas e necessárias. O “Eu” só existe quando se deixa constituir pelo “Tu” e vice-versa, na tessitura histórica. Nenhuma identidade se faz isoladamente. Sob determinada visão psicológica, toda personalidade está sendo estruturada num contexto relacional biopsicossocial específico a cada ser humano.
Ao abrirmos nossa janela e olharmos o mundo, devemos compreender que apenas são nossos olhos que determinam o que vemos; nem por isso deixam de ser dotados de uma verdade.
Não devemos esquecer que outras janelas estão abertas, com suas verdades, olhando o mundo. Isso exige que determinemos, honestamente, o que vemos pela nossa janela em benefício da análise e da síntese que fazemos da holovida. É permutando com o outro as experiências que melhoramos nosso olhar sobre quaisquer realidades e, nessa ajuda mútua, superamos obstáculos que nos separam sem razão de ser.
Sentimo-nos, parcialmente, confortados ao experienciar que somos limitados e condicionados pelo próprio olhar, pois todos somos assim.
É nosso ponto comum.
Compreendemos, de forma mais clara, a partir de determinada interpretação, que tudo é processo relacional mediante a interdependência de caminhos à procura da comunhão. É na direção da práxis, do respeito ao diferente, à alteridade, à biodiversidade que possamos experienciar a necessidade do diálogo crítico permanente entre os diferentes, perseguindo a unidade na diversidade cósmica.
Compreendemos, aproximativamente, que o “processo humano de conscientização” – desvelamento – da holorrealidade ocorre, de modo gradativo, na finitude e no inacabamento do ser humano, que está sendo sempre aberto. Neste processo, cada ser humano, na proporção do seu grau de comprometimento existencial com a vida holocentrada, vai sendo instrumento e verdade relativa da presença energética do Sopro Provedor, tornando-se mais verdadeiro ao abandonar o desejo de possuir a Verdade absoluta. Compreendemos por Sopro Provedor: do hebraico Ruach = sopro, respiração, espirito, ou seja, a Energia, que perpassa tudo, criando, animando, vivificando e provendo. Numa compreensão clássica, o Sopro Provedor corresponde ao Panenteísmo , do grego: pan = tudo; én = em ; Theós = Deus; ismo , ou seja, tudo em Deus, Deus em tudo.
Compreendemos, de um determinado ponto de vista, que o trans-fundo de qualquer conhecimento é o Mistério (do grego mystérion, que significa tudo quanto a razão não pode explicar). Percebemos o Mistério; porém, não o compreendemos em sua totalidade porque de cada realidade só conhecemos o que aparece – sua dimensão exterior: fenômeno, do grego, phainómenon. A dimensão interior permanece oculta, definitivamente indecifrável, relativizando quaisquer conhecimentos, pois toda realidade existente é ilusória, porém, uma ilusão necessária porque é dimensão própria do ser humano para o seu processo de equilibração existencial.
Compreendemos, parcialmente, que a individualidade (subjetividade) e a sociabilidade (objetividade) se constroem dialeticamente, ou seja, o sujeito existe porque existe o objeto e o objeto existe porque existe o sujeito. A dialética não é apenas oposição entre os diferentes mas complementaridade em sua síntese. “Tudo o que é objeto da consciência está estreitamente ligado de maneira imediata ou mais ou menos mediatizado pela práxis, do mesmo modo que toda práxis está ligada mediata ou imediatamente, explícita ou implicitamente, a uma certa estrutura da consciência”.
Compreendemos que todo sentir, agir e pensar humanos são como a linha do horizonte: sempre inalcançáveis, portanto, relativos.
Compreendemos, metodologicamente, que os caminhos são diversos e se constroem no caminhar relacional específico de cada realidade, convergindo para uma meta comum: que todos os seres possam ter acesso a holovida, respeitando-se a biodiversidade, a partir de dentro dos mais necessitados em busca de uma mobilidade ecossocial equânime a todos os estratos ecossociais, mediante a formação permanente de uma nova mentalidade infantojuvenil, macroecumênica, que considera o ser humano um Sendo em busca da inteireza (o Ser), tendo como meio básico o Inter-retrorrelacionamento dos caminhos analítico e sintético.
Compreendemos, apenas experiencialmente, que, aqui e agora, tudo quanto existenciamos, vivemos, desejamos e esperamos é a “tardança daquilo que está por vir”: a plenitude de tudo e de todos, a felicidade plena (beatitude) e a plena integração do processo histórico de tudo e de todos ao Sopro Provedor.
Por estas razões, buscamos despojarmo-nos do processo de formação possessiva, autoritária, autossuficiente, o qual predomina em nossas relações interpessoais, institucionais e macrossociais no que diz respeito aos objetos, às instituições, às pessoas e ao Sopro Provedor (o Incondicionado). Ninguém é proprietário da Verdade. O que nos resta é procurarmos ir existenciando o silêncio ativo – uma gota d’agua potável no oceano – para não perdermos de vista a Luz, o Sopro Provedor que ilumina “[…] TODO homem que vem a este mundo (todos os homens: não só os cristãos e os gnósticos)”, mantendo todas as relações da holovida até a plenitude de tudo e de todos. Assim é nossa esperança.
A esperança jamais morrerá porque o seu objeto é a busca existencial do desvelamento do ser, em sua totalidade, no seio do Ser mediante a holovisão do Sopro Provedor: o Ser dos seres. Portanto, relativamente experienciamos, compreendemos e cremos que nossa existência assim seja.
Numa síntese aberta, percebemos a Inter-retrorrelacionalidade do mundo mineral, vegetal, animal e humano. E, a estrutura ontoexistencial da holovida convida-nos, permanentemente, às relações amorosas e de ternura para com tudo e com todos, indispensáveis à equilibração do todo existente.
Por tudo isso, sob determinado olhar científico-paradigma holocosmoecocêntrico, significando que o núcleo básico de tudo é a totalidade Cosmos-Terra, afirmamos: a) Tudo é energia de um mesmo Ser – o Sopro Provedor. b) Todo e parte são inseparáveis – tudo se encontra interligado. c) A realidade é dialética – um processo evolutivo, oscilatório e convergente para um ponto unitário.
Buscamos contribuir para este todo existente, de forma harmoniosa. Isto significa a relativa capacidade humana de acolhermos amorosamente, a tudo e a todos, aceitando-os pelo que eles são e não pelo desejo de querermos possuí-los. Portanto, irrestrito respeito recíproco à liberdade de sentir, pensar e agir de cada ser humano: o respeito irrestrito às diferenças, convergindo à unidade na diversidade humana. Simultaneamente, combate radical, explícito a quaisquer atitudes de uniformidade, porquanto esta evidencia a perda de identidade, quer dizer, desumanidade.
Como educadoras e educadores populares, acadêmicas e acadêmicos, a fortiori, como cristãs e cristãos devemos ser cidadãs e cidadãos do mundo, procurando concretizar o lema: justiça, liberdade e vida para todos, pois são poucos (20% da população mundial) os que têm condições de vida, vivendo às custas da maioria, (80%) empobrecida, explorada, oprimida, excluída e reduzida à miséria. Além da falta de cuidado com nossa Mãe – Terra. “A metade das grandes florestas já foi destruída, 65% das terras cultiváveis foram perdidas, cerca de 5 mil espécies de seres vivos desaparecem anualmente e mais de mil agentes químicos sintéticos, a maioria dos quais tóxicos, são espalhados pelo solo, ar e águas”.
Fazer justiça é libertar, na medida do possível, essa maioria do povo condenada a uma vida subumana e preservar os ecossistemas, pois, assim, foram as atitudes de Jesus, o Cristo, diante dos excluídos da vida, em seu tempo, quando foi sentindo e assumindo a presença do Sopro Provedor em sua Consciência Crítica mediante o sopro vital: “[…]Em verdade Eu vos declaro, todas as vezes que o fizestes a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes.”(Mt 25,40; Mc 8,1 – 9; Jo 10,10).
Em parte, esta é nossa experiência de vida que compartilhamos com vocês e com nossos colegas de profissão, durante nosso processo de ensino e de aprendizagem.
Por sua vez, etimologicamente, o termo ensinar provém do latim insignare (in + signare), quer dizer, fazer um sinal, fazer uma marca em algo. O ensino só acontecerá, dentre outros aspectos, quando o educador e o educando se fizerem disponíveis, abertos à holovida mediante a comunicação humano-pedagógica onilateral. Aí, ambos far-se-ão marcados. Far-se-ão ensinados.
Esperamos que, entre nós, esta forma de ensino tenha acontecido […] Resta-nos fazermos nossa autoavaliação.
Sem este “estofo” relacional – o processo do múltiplo relacional, o Universo convergindo para a unidade -, donde emerge a holovida, nosso ensino não teria sua verdadeira identidade: uma tênue imagem do rosto da Mãe Terra e outra dos vários rostos humanos na expressão relacional “ Eu-Tu”, as quais estão formando um único Rosto Comunitário, “Nós”, ou seja, uma totalidade relacional, holomovimento, denominada Vida.
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Observações:
Holismo/ experiência holística: vem do grego que significa todo, totalidade. A experiência holística significa uma prática onde percebemos a totalidade em cada uma das partes e vice-versa, formando um todo inseparável.
Antropomórfica: provém do grego anthropo= ser humano; morphé = forma, significando tudo àquilo que diz respeito à forma humana.
Gnósticos: são pessoas que têm a pretensão de conseguir o saber absoluto por meio da razão e/ou da mística.
A fortiori: expressão latina que é definida de vários modos. Aqui, compreendêmo-la como adjetivo comparativo, significando “com maior razão”.
Bíblia – Tradução Ecumênica (TEB) São Paulo, Edições Loyola, 1994.
Mt: Evangelho Segundo Mateus, capítulo 25, versículo 40.
Mc: Evangelho Segundo Mateus, capítulo 8, versículos de 1 a 9.
Jo: Evangelho Segundo Mateus, capítulo 10, versículo 10.
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O autor é um Sendo em expansão…, a procura da completude, perseguindo o caminho da holovida, em busca do olhar pleno: total integração ao Sopro Originário Provedor Relacional de Luz. Ex-professor de Filosofia e Pedagogia na UFPB. Pos-graduação em Educação

Boa noite.
A revista possui algum contato do prof. Hailton?
Boa noite. O Prof. José Hailton faleceu. Caso eu possa lhe ajudar, meu e-mail particular é elzarat@gmail.com