Ventos… trazem o carnaval

Chego à casa, deixo a chave sobre a mesa, procuro rápido a toalha. O banho é imperativo. O suor me consome depois do dia de trabalho. Vou ao banho, como quem procura comida na hora do almoço. Como sempre, tomo banho gelado. Refrescante para animar o resto da noite. Sento no sofá, e, para completar o primeiro ato do descansar, coloco os pés cruzados sobre a mobília da sala.
Confesso: nesse pequeno gesto, a felicidade era total. Após um dia difícil de trabalho, estou “na pose”. Relaxando… Poucos segundos antes de procurar o controle da tevê, percebo que pela janela aberta vem uma brisa com o som dissonante. Era uma batucada. Os gritos acompanhavam animando as músicas, marchas e corinhos. Logo vem a cabeça a lembrança: “Ai! É carnaval”. Ou melhor, o carnaval está começando. Após um dia de trabalho, atordoado pelo enredo de confusões e obrigações trabalhistas, a brisa que entra pela janela me desconcerta. É um sinal. Trás a alegria, mais parece ser um convite desfazendo o marasmo programado após um dia de trabalho.
Carnaval de rua: tempo de permissões
Aceito o convite da brisa. Levanto, vou ao encontro dos sambas. Entrego-me ao prazer das marchinhas. Mesmo não sendo cedo, a animação da alegria me contagia. Intuitivamente sou levado ao bloco. Participo das gargalhas, sorrisos, cantos e saudações. Quando o bloco vai passando pessoas de todas as idades, gêneros, tipos e cores vão aparecendo, descendo, ajudando a animação. Desde os ricos e bem vestidos até os que perambulam pelas ruas experimentam o som do bloco. Logo, me vem á mente um detalhe. Uma pista deixada no meio das palavras de Mikhail Bakhtin[1] quando pensa as festas e carnavais de Rabelais. Acredita que as festividades têm um quê de perversão. Estão num tempo de permissões. Pois, nas festas, parecem se romper as barreiras da ordem e das benditas classes sociais em nome da alegria, da festa e do escarneio. Os limites, que em tempos normais são impostos, rigorosos, aqui, no meio da rua e no início da noite, são esquecidos. A vida paralisa e suas normas já não são tão válidas. Não tem funcionalidade.
É um tempo de concessões. Onde o imperativo é brincar, cantar e dançar. Blocos de rua, como os do Rio de Janeiro e redondezas são relevantes. Diferem de algumas experiências carnavalescas do nordeste brasileiro, com suas micaretas onde os fios das cordas são barreiras sociais. Diferencia-se pelo vestuário os que podem pagar e comprar os abadás do restante da população que está de fora, nas pipocas dos trios elétricos. No meio do bloco, junto aos sambas antigos, fiquei romantizando que todos (como eu) levados pelas pernas poderiam vir participar.
É claro, o processo não é tão romântico quanto idealizava naquela noite. Pois, geograficamente, define participantes. A localização limita, restringe o público. E, mesmo diante de toda indústria midiática que organiza a denúncia de crimes, das telenovelas, jornais que insistem em mostrar a “vida como ela é” o bloco vai á rua. Mesmo com a indústria midiática explorando estrategicamente os problemas das cidades, impondo um clima de terror de guerra nos grandes centros urbanos, ainda sim, o encontro do bloco é relevante. É que mesmo diante de tantos “contras” (de tudo e de todos) a contar pela noite e em meio aos perigos urbanos, ele segue forte.
Segue seu ritmo. Como ocorre com os demais blocos carnavalescos: atraem milhares de pessoas. Levam-nas às ruas, mesmo com as mídias os banalizando. O detalhe que não quer calar: mesmo com a ação delas, blocos seguem crescendo. Simbolizam uma manifestação cultural de alegria, de festividade. São interessantes. Pois, na cantoria debocham. Seus foliões se vestem e mascaram como autoridades. Imitando-as. Num gesto simples, degradam as barreiras formais, dão outros ares a política. Ao mesmo tempo, mostram que essas pessoas importantes e nossos dirigentes nada mais são do que máscaras. São atores sociais. Não são pessoas! Apenas, fingem-se humanos. Pouco da humanidade lhes resta. No geral, aproveitam das pessoas. Esquecem dá dadiva da representatividade em prol do teatro armado. Só merecem ser lembrados como máscaras! Nada mais são que mascarados do cotidiano.
Democraticamente, no carnaval, e no bloco de rua, se permite que todos ocupem a presidência e as chefias. Nesse tempo, é só se trasvestir para lembrá-las. Todos os dirigentes merecem isso. São transvestidos por que não agradam aos demais. Merecem o escárnio aberto. Seu presente é a chacota. Em meio à multidão carnavalesca da noite, esse é o primeiro destaque. Nossos dirigentes, mesmo com tamanha abertura no capital-liberalismo, resguarnecidos nas câmeras do vigiar, com o olhar atendo da imprensa vendida dos canais abertos e dos “intelectuais tradicionais” que controlam os meios de produção, mesmo assim, não conseguem segurar o batuque da mobilização popular. Assim, por hora, no pequeno bloco de início da noite, é tempo de instaurar a chacota. Afinal, nessa geografia se tem permissão. Tudo em nome da felicidade! A ordem é fazer o que é habitualmente proibido. Não há necessidade de se manter o bom tom.
Cabe aqui uma nota. Não estou referindo ao carnaval das tevês que levam pra avenida autovalores programados e financiados pelos que estão á frente dos meios de produção. Mesmo que o carnaval da Sapucaí seja construído por pessoas simples, suspira outros ares na aceitação dos padrões estabelecidos pelas elites “brancas” brasileiras. São relevantes e belos esteticamente, contudo, seguem nas lâminas dos sistemas midiáticos hegemônicos. Ajustaram seus modus ao que a imprensa precisa. Ao que tolera. No bloco do meio de semana, isso não ocorre. Afinal, ali mal se tem bateria e instrumentos, seus poucos instrumentos afinados e falantes promovem a festa. Mesmo assim, todos seguem. Desde a ‘classe Z’ até a ‘A’, sem qualquer arrependimento. De fato, vou percebendo que quando a banda passa a multidão vai atrás.
Sob o tempo de permissões: a cena
O que tinha presenciado na noite já tinha sido maravilhoso. Mas, um único detalhe, destacou-se um pouco mais na noite. Uma cena digna de fechar a noite. Acabou de me levar ao apartamento pensativo. Ora, a noite já tinha sido muito proveitosa, infinitamente melhor do que ficar sentado ruminando em frente á tevê esperando o amanhecer seguinte de trabalho e obrigações. Afinal, novidades levadas pelo vento dão um realce à vida. Incrementam o cotidiano.
No tempo próprio, o bloco em forma de caravana ia passando nas ruas do Jardim Icaraí. Por isso, os comerciantes da região iam ou fechando, ou abaixando as portas e/ou colocando faixas para proteção dos clientes. Tudo para garantir a segurança de quem estava no estabelecimento. Pelo menos momentaneamente, paravam suas atividades para proteger os usuários dos serviços. Fecham as portas para cuidar de seus clientes e dos infortúnios que a multidão poderia causar: desde esbarrões, roubos e violência mais explícita. Buscam resguardar os seus, pois dizem que casos de arrastões são comuns diante de tanta gente diferente no Rio de Janeiro.
No meio do trajeto, nos aproximamos num desses estabelecimentos comerciais. Lá, estava uma família de classe média. Desde os pais até os filhos e filhas. Percebendo a aproximação do bloco, a jovem da família que terminara sua janta se levantou para dançar. Arrisca pequenos, miúdos, passos de samba na cadência que se aproxima. Abre o sorriso, satisfeita com a aproximação do bloco na rua. Além do mais a música parecia agradar. Interessante que a família, o dono do estabelecimento, e os seus empregados meio que a protegem. Ora, vinha uma pequena multidão na direção deles. E, ela lá, faceira, preocupada apenas com o samba miudinho. O sorriso desenhado, mas nem tão escancarado. Claro, a família a observava. Para desespero do pai, nada conseguia impedir que sambasse no pequeno espaço.
Perto de mim, um dos vendedores de cerveja, um dos que vinha animado cantando, vendendo e dançando sob o bloco, logo percebe a menina. Avisa para os amigos de venda que iria a convidar para dançar. Todos, inclusive eu (que não tinha nada haver com a história) duvidam. A principal dúvida era se conseguiria alguma aproximação. Digno de cinema, quando o notório vendedor vai em direção à patricinha como se fosse um passista. Melhor, como se fosse um mestre de sala: dançando e cortejando-a. Não poupa energia. Mostra o que é o samba. A família logo percebe e a afasta um pouco mais da beira do bar. Mas, logo, o vendedor se aproxima mais. E, como um mestre sala referenciando a mulher, se abaixa com a mão esticada em busca da sua porta bandeira. Mesmo, sob os olhares, os muros e a proteção da família, sem hesitar a menina porta-bandeira dá a mão para o vendedor, mestre-sala. Abre o sorriso de quem é cortejada. Mesmo diante de tudo e de todos (desde o perigo sinalizado pelas mídias vendidas ao capital, cismada pelas diferenças de grupos sociais) á menina vai com o vendedor. Acena para os familiares que logo voltaria. Tranquiliza-os.
O tempo de carnaval fica mais lento ainda quando o casal samba. Investem como se conhecessem há anos. A princesa e o plebeu bailam ao som de algumas marchinhas e sambas antigos. Sambam e cantam juntos no despretensioso bloco. Desfilam sobre os demais olhares espantados. Engraçado, pois de um bloco de carnaval despretensioso que tira o som de uma banda capenga sem todos os instrumentos. Forma-se um casal de sambistas do acaso: tão inesperado que parece combinar. Ainda mais, porque, alguns metros á frente, a patricinha porta-bandeira diz até logo para o vendedor passista. Que beija a mão, reverenciando-a. Ele volta para as vendas e ela a família. Nada mais que isso. O acaso os uniu pelo samba e o acaso do samba desfez seu encontro. Sem maiores compromissos. Justo, não?! Pois, o compromisso combina com o cotidiano. E, não com o diferente, o distinto. Como o é o tempo de permissões no bloco de Santa Rosa.
A volta para casa
Confesso que várias cenas que passaram na noite não saem da cabeça, mas, a cena dos dois bailarinos (unidos pelo acaso) em nome da felicidade do samba, soa distinta. Tem destaque nas idéias. Pois, dois sujeitos de grupos sociais distintos só poderiam se encontrar desta forma num bloco de carnaval. É mais uma travessura do cotidiano. (Des)configurado na ousadia do carnaval. É por essa e por outras, que tal festa tem seu marco central no dado de escárnio. Fico perguntando se poderia haver maior deboche que este: o simples e belo encontro despreocupado entre uma princesa (filha dos melhores lares) e um plebeu (filho dos que lutam e trabalham para manter as classes dominantes). É acima de tudo uma zombaria a ordem estabelecida. Ambos levados pela “cadência bonita do samba” deixam as diferenças sociais, os planos de carreira, os estudos e tudo. Tornam-se, a meus olhos, protagonistas de uma das festas cristãs mais bonitas democráticas da sociedade.
A caminho de casa, isso não sai da cabeça. E, vou mais além. Divagando tento traçar as perguntas que inquietam. Consolido-as na forma de três indagações que ressoam na cabeça. Perguntas salpicadas por esperanças soam da seguinte forma:
1)      Se, pois, tal mobilização escarnecedora do início ano nos leva a tamanhas ações e aspirações, por que não esperar mais do homem?
2)      Se em tão pouco tempo se abrem tantos precedentes as relações sociais, por que a ordem vigente é tão significativa?
3)      E, por fim, se tal ordem vigente compõe as aspirações do todo da população, qual é o sentido de ter um tempo/espaço alternativo à realidade social?
Na verdade, não tenho a pretensão de responder essas perguntas. Nesse espaço, me detenho em apontá-las. O máximo que peço há vocês meus amig@s que leem essas toscas linhas é que, ao lerem, as deixem um pouco ecoando. Novamente, confesso que elas me atormentam desde aquela quinta-feira. Me consomem. Desde quando desci na direção do ressoante bloco pré-carnavalesco de Santa Rosa. Culpa minha? Acho que, não. Se pudesse culpar alguém, culparia aquela brisa. Ela que, sem pedir licença, entrou pela janela e soprou os sons dos batuques e dos sambas nos ouvidos cansados da mesmice. Levou a sair do comum, da mesmice. Repito, a culpa é dela! Ou, dele, o vento. Pois, por ele, chegaram sons dos risos e gargalhadas do sarcasmo que denunciam a vida comum mediante as brincadeiras de carnaval. Ele germinou o sentido da mobilização sem igual vista no carnaval. A culpa é dele. Que bradou as falas e gestos libertadores do passista-vendedor e da patricinha porta-bandeira.
Chamou a atenção que muros das diferenças sociais podem ser implodidos pela iniciativa de um simples sorriso, um convite e uma mão estendida sobre o muro. Afinal, os muros sociais podem interditar por completo o cotidiano, mas não podem silenciar o deboche, as perguntas, e a mobilização social. Assim, finalmente, espero que o culpado (aquele vento) siga seu trajeto, assoviando sobre meu e outros rostos. Dando esperanças que, mesmo como a de uma simples (e maravilhosa) noite de carnaval, pode mostrar saídas para sociedade capitalista-globalizada. Saídas nutridas desde o simples brincar do carnaval, ecoando matrizes radicais de mobilização, não aceitação e da inconformação com a ordem vigente. Afinal, o carnaval é a mobilização da alegria! Que na sua simples brincadeira retorce o cotidiano. Mostra que críticas sociais podem (e devem) ser praticadas entre os dentes, junto aos sorrisos. Quem sabe, ele (o carnaval), também, não possa ser símbolo de uma nova organização social? Levada por enredos mais humanitários. Forma, cantada pelo sorriso de todos irrestritamente, e não por uma parcela da população mais abastecida.
Enfim, subindo a Dionísio Erthal, o mesmo vento que tirou de casa, me coloca em casa são e salvo. Porém, absolutamente inquieto. Na companhia das perguntas, sem qualquer preocupação com respostas. Mas, pra que respostas? Se já disseram que somos movidos pelas perguntas. Chato mesmo que, no meio delas, só resta dormir. Dormir para o sábado chegar. Convidado pela brisa que vira as pequenas páginas do calendário colado na geladeira. Nessas horas, tenho pena da linda Maria. Ah! Deixa para lá; o vento que aqui me deixou aqui a deixará também – com sua inquietude e inconformação.


[1] O artigo se propõe a apontar temas e referências propostas no livro de Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais, São Paulo: Hucitec, 1987, p.7-48.
(*) Fábio Py Murta de Almeida é escritor, professor de história da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (Fabat), autor de Nas veias correm esperanças… (2009) e articulador do blog: http://fabiopymurtadealmeida.blogspot.com/

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