Literariamente

Às vezes uma frase fugidia fica enganchada na memória, ou enganchando a memória. Tentas lembrar. Algo a ver com alguém conversar com mais alguém, Mas a lembrança não consegue ir além, não consegues atrapar a recordação completa. Mesmo assim, essa recordação tênue fica na memória, como que te distraindo, como que levando a tua atenção para o mundo narrativo donde viera. Pensas que pode ser de Caetês, de Graciliano Ramos, que estiveras a ler agora há pouco. Admiravas um parágrafo do escritor alagoano em que descreve ter ido à sacada e ter ouvido um tango arrastado vindo do piano. Uns sons como de usina se misturando. Umas mulheres indo e vindo na calçada em frente. Uns vultos esquivos se esgueirando na direção de Pernambuco-Novo. Umas luzes titilando ao longe, no escuro.

Pensavas que Graciliano é um autor impressionista, sem saber se isto existe na literatura. Alguém que com poucos e curtos traços, descreve muito de uma ação ou personagem, ou situação. Alguém que escreve como vê o mundo, as pessoas, as coisas, o que ocorre, o que está aí. Monet era assim, Van Gogh. Pintavam como viam. Pensavas que um dia escreverias a tua vida em Mendoza, desde a origem, ou na juventude, ou nos ires e vires até hoje. Quem sabe já a estejas escrevendo, mas uma narrativa completa, com enredo, diálogos, personagens. Quem sabe.

Hoje um amigo te enviara umas frases de Saramago. Cortázar concordaria com algumas delas. Com a atenção à vida que está aí, à vida como se apresenta, como está estando. Aquela frase de Julio Cortázar é uma chave mestra que evidencia o que a literatura tem de mais libertador: ela destrói a falsa objetividade criada pelo intelectualismo, pela codificação cotidiana, pelo realismo ingênuo do qual não estão isentos nem as pessoas comuns nem os ditos intelectuais ou pessoas instruídas. A noite vai indo lentamente em direção ao amanhã, uma brisa suave vem do mar. E algo vai se indo lentamente também a dormir

Deixe uma resposta