Vá contando aos poucos

Charge de Angelo Agostini retratando D. Pedro II em 1887, a quem acusavam à época de se omitir diante dos problemas nacionais.

Charge de Angelo Agostini retratando D. Pedro II em 1887, a quem acusavam à época de se omitir diante dos problemas nacionais.
Charge de Angelo Agostini retratando D. Pedro II em 1887, a quem acusavam à época de se omitir diante dos problemas nacionais.

A atual política federal do toma-lá-dá-cá é cada vez mais parecida com a que impera no país há mais de 500 anos.
Em 2003, um ex-torneiro mecânico chegava ao poder, fato absolutamente inédito na História do país, evidentemente. Mas ele foi mais longe: repetindo alguns antecessores, pouquíssimos, decidiu mudar bastante a composição política do primeiro escalão.
Um representante da teologia da libertação aqui, um desenvolvimentista ali, o pessoal dos direitos humanos, o movimento negro, uma ou outra feminista e ex-guerrilheiros. Uma mudança e tanto — mantendo, claro, a tradição de entregar aos liberais algumas pastas, como é de bom tom desde a República Velha.
A tentativa até que foi boa, mas logo logo o pessoal foi caindo. O sujeito que pensava demais na educação do povo foi demitido por telegrama — ops, quer dizer, por telefone. Outros se foram, um por um, até que sobrou pouco do original. Os “liberais” voltavam ao poder, em grande parte, depois de 2 ou 3 anos.
Talvez Floriano Peixoto, quem sabe, teria a coragem de colocar no seu governo liberal, republicano, um ex-defensor da escravidão. Seria um tanto quanto ridículo, já que não só não tinha mais mercado como a própria lei já não mais permitia a prática. Mas o governista se adapta e acaba achando seu jeito.
Vargas, com certeza. Era nacionalista e amigo dos americanos. Contra o imperialismo e próximo do nazi-fascismo. Pró-trabalhador, mas ele que decidia quem era trabalhador. Promoveu uma abertura democrática, mantendo o anticomunismo. Sabia negociar e perseguia menos que o Arthur Bernardes.
Imagine você, então, um sujeito do começo do século 20 ou do Estado Novo sendo transplantado para o final de 2014. Para hoje, por exemplo.
Esse sujeito (ou sujeita) é informado que o atual governo federal, composto por comunistas, socialistas, trabalhistas e ex-guerrilheiros, acaba de nomear um banqueiro, uma latifundiária e um escravagista envergonhado para o alto escalão. De quebra, alguém completa: o América não é mais o mesmo.
Morreu de infarto, coitado. Talvez se fossem contando aos poucos, ele teria aceitado melhor. Deixava pro final o rebaixamento do Botafogo, claro. Mas era melhor ter contado aos poucos.

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