UPP é discutida por jovens comunicadores, especialistas e moradores de favelas

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e o controle da população favelada que está por trás desta estratégia foram os temas da aula-debate do Curso Avançado de Comunicação Popular promovida pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC)  no último sábado, dia 13 de abril.

[Por Marina Schneider-NPC]

Orlando Zaccone, delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro jogou luz sobre o que está embutido no projeto da Secretaria de Segurança Pública do Rio com a instalação das UPPs nas favelas da cidade. Junto com a professora da Fundação Getúlio Vargas, Sônia Fleury, estudiosa o tema democracia, debateram questões de fundo que a questão da segurança envolve. Apresentaram fatos sobre a militarização das políticas públicas e o retrocesso democrático pelo qual o país parece estar passando.

Diego Santos, um dos organizadores da mobilização Ocupa Borel, que reuniu centenas de pessoas na comunidade da zona norte do Rio, participou da aula-debate do Curso Avançado de Comunicação Popular do NPC

A aula contou também com a exposição de dois moradores de regiões que convivem com a UPP. Deize Carvalho, do morro Cantagalo teve o filho Andrew Luís Silva de Carvalho, torturado e assassinado no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), em 1º de janeiro de 2008. O segundo foi a contar suas experiências foi o jovem Diego Santos, morador do Borel. Ambos deram depoimentos de quem vive o dia-a-dia de favelas com UPP. As indicações dos participantes do debate foram feitas pelos próprios alunos do curso.

No encontro foi ressaltado o papel que a mídia vem cumprindo. Ela divulga sempre como bem-sucedida e eficiente a atuação da política estadual das UPPs.

UPP atende a interesses políticos e empresariais

Para Zaccone, a UPP é um modelo transnacional de imposição da paz

Orlando Zaccone ressaltou que, mais do que força, o projeto das UPPs exerce controle sobre a população favelada. “Este é um projeto avançado de militarização da força pública”, apontou. “A UPP não é uma criação carioca, é um modelo transnacional de imposição da paz”, explicou. Para ele, os desvios de conduta dos policiais militares que trabalham nas áreas de UPPs não são o principal problema desta política. “Está na hora de ficarmos mais atentos às funções da UPP e menos atentos aos desvios de função”, alertou Zaccone. Ele lembrou que o controle exercido pelo poder público nestas áreas recai inclusive sobre a manifestação do pensamento. “Até que ponto é necessário o cerceamento das liberdades para chegarmos à segurança?”, questionou.

 

Para a professora e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, Sônia Fleury, a UPP é mera expressão do que está acontecendo de forma geral com a democracia brasileira. “Há um estreitamento enorme da democracia no sentido de se ter hoje um pensamento único”, afirmou, destacando a subordinação da mídia – setor empresarial poderoso – a este pensamento.

Sônia Fleury afirmou que hoje há um alinhamento entre interesses políticos e empresariais no processo decisório das políticas públicas

Ela retomou o que havia sido dito por Zaccone, quando apontou que há uma militarização da política pública em geral. Além disso, está havendo um alinhamento do processo decisório entre interesses políticos e empresariais sem participação da população. Isto configura uma ordem econômica muito menos democrática do que já houve. “Há um projeto sólido de desmontagem do Estado de Direito e de subordinação da política pública aos interesses empresariais”, disse.

A vida real na fala dos moradores

“Sou jovem, negro e favelado e pra mim é um orgulho ser jovem, negro e morador de favela”, se apresentou Diego, para quem os jovens são os mais perseguidos até pela polícia dita pacificadora. Ele foi um dos organizadores da mobilização Ocupa Borel, que reuniu centenas de pessoas na comunidade da zona norte do Rio no dia 5 de dezembro do ano passado, em protesto contra o toque de recolher imposto pela UPP do local. Diego relatou alguns exemplos de abordagens violentas que tem presenciado e vivido mesmo após a chegada da UPP no Borel. Ele falou da importância da mobilização para agregar jovens que muitas vezes não se manifestam, mesmo sofrendo com ação policial que viola seus direitos cotidianamente.

A moradora do Cantagalo, Deize Carvalho, disse que a UPP chegou, mas a violência continua na comunidade

A respeito de seu posicionamento sobre as UPPs desabafou: “a polícia sempre entrou na minha casa sem bater na porta, matou o meu vizinho, é muito complicado manter uma relação”.

De acordo com Deize Carvalho – que já foi chamada de “negrinha abusada” e de “indigente” por policiais – a UPP chegou, mas a violência continua no Cantagalo. Deize contou que seu filho foi assassinado por policiais em 2008 e que os outros dois filhos já foram abordados de forma violenta. “A UPP nada mais é do que uma opressora do Estado dentro das comunidades”, resumiu, afirmando que não é contra as UPPs. “Sou contra as arbitrariedades cometidas por policiais”, concluiu.

 

Turma visita Acari

Como não poderia faltar em um curso de comunicação popular, na parte da tarde, os alunos deixaram a sala de aula e seguiram para a favela de Acari, na zona norte do Rio. Foi um banho de realidade, para ver de perto a vida de uma das regiões com o menor Índice de Desenvolvimento Humano da cidade. Gentilmente recepcionados e guiados por Wanderley da Cunha, conhecido como Deley de Acari, liderança comunitária histórica desta região que não possui UPP, a turma visitou a favela e pôde conhecer de perto a realidade e parte da história daquela comunidade. Ao final da visita, Deley destacou a importância do trabalho de jornalistas comprometidos com os fatos e que tratem dos acontecimentos nas favelas de forma respeitosa, não ouvindo apenas as fontes oficiais, como geralmente acontece.

Na parte da tarde, os alunos deixaram a sala de aula e seguiram para a favela de Acari, na zona norte do Rio

De acordo com Alan Tygel, aluno do NPC, “passar o dia em Acari foi mais ou menos como sair do Rio de Janeiro. Mas aí você pergunta: ué, Acari não fica no Rio? Bom, se for o Rio de Janeiro que o jornal, o rádio, o cinema e a TV nos mostram, definitivamente não. Longe da Zona Sul, longe da praia, habitado por gente humilde e trabalhadora, a favela de Acari é o oposto da cidade da ordem que a prefeitura se orgulha em mostrar. E por estar fora da rota turística-futebolística-olímpica, jamais vai ser “revitalizada” ou “pacificada”: não há interesse econômico, nestas zonas. O problema, a única coisa que se esqueceu, é que a maioria das pessoas da real cidade do Rio de Janeiro mora em lugares como esse”.

Fotos: Adriana Medeiros

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