Como a mídia conta o que acontece nas favelas

Por Claudia Santiago, do NPC

Estamos em 2003. Depois de passar a noite do dia 16 de abril sem dormir, chorando a morte de seus meninos, quatro famílias de trabalhadores, moradores do Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram novamente apunhalados quando o dia clareou. No jornal estava escrito: os guris “faziam parte de um bando de traficantes de drogas, que descia o morro para assaltar as ruas do bairro”.

Com riqueza de detalhes o repórter Sérgio Meirelles, do jornal Extra, descreveu a suposta cena: “os PMs apreenderam 145 trouxinhas de maconha, 20 papelotes de cocaína, etc, etc”. Os nomes e sobrenomes dos garotos estavam lá com todas as letras. Mas Sérgio não se preocupou em saber quem eram eles. Se trabalhavam, se estudavam, com quem moravam. Se tinham filhos. Quem eram seus pais. E o que estes tinham a dizer sobre aquilo tudo. A dor das mães pobres, pretas e faveladas que perdiam seus filhos não mereceu sequer uma linha no jornal. Só a voz de quem matou foi ouvida. 

Aos poucos, com muita luta dos familiares e do movimento social, a real cena do crime foi sendo revelada. Carlos Alberto da Silva Ferreira, pintor e pedreiro, de 21 anos; Carlos Magno de Oliveira Nascimento, estudante de 18 anos; Everson Gonçalves Silote, taxista de 26 anos; e Thiago da Costa Correia da Silva, mecânico de 19 anos, foram atingidos na cabeça, tórax, braço e antebraço. O laudo cadavérico mostrou que os disparos foram efetuados à “queima roupa”. Não houve nenhuma troca de tiros. Os policiais mataram porque são formados para acreditar que matar é a sua função. “É entrar da favela e deixar corpo no chão”, como diz a musiquinha do Bope. Porque são formados para acreditar que preto, pobre e favelado é feito para morrer.

E o jornalista que escreveu a versão fantasiosa que mostramos neste recorte de jornal? Qual é sua formação? Qual é sua ideologia? A quem ele serve? À humanidade ou aos interesses da classe social do seu patrão?

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